Painel

27 de setembro

Experiência com leitura na sala de aula


Deborah Vier Fischer - professora de Educação Infantil da escola Projeto, pedagoga pré-escolar/UFRGS. Especialista em psicomotricidade/FAPA.

Foto: René Cabrales
Antes de iniciar o relato de experiência com leitura na educação infantil, e portanto, com crianças que na sua maioria ainda não decifraram o código alfabético, acho importante e oportuno abordar alguns aspectos do trabalho com leitura, que considero fundamentais para a reflexão de todos nós, profissionais da educação. Elegi algumas idéias básicas que tem sido discutidas e aprofundadas por mim juntamente com a equipe da escola Projeto, onde atuo há 11 anos e que norteiam o trabalho de leitura da educação infantil e das séries iniciais do ensino fundamental. Todo o trabalho é pensado e planejado a partir dessas grandes idéias:



1. A leitura não pode ser tratada como obrigação, mas como um objeto de prazer e uma via de acesso ao mundo das idéias, das sensações e das emoções. É uma forma de descoberta de um universo, onde adultos e crianças interagem e podem perceber que, com o livro é possível aprender, conhecer, criar, "viajar" e, quem sabe, se tornar uma pessoa melhor.
Nós professores, temos a tarefa de FORMAR LEITORES CRIANÇAS e para isso, precisamos também ser leitores, ampliando o nosso repertório literário na medida em que nos envolvemos com o trabalho, pesquisamos, selecionamos os melhores textos para os nossos alunos num determinado momento ou etapa da escolaridade, assim como os melhores textos para nós mesmos, em se tratando do repertório individual e pessoal.

2 Importância do contato diário e sistemático das crianças com livros e com outros tipos de textos além dos literários (informativos, jornalísticos, de instrução...), em diferentes momentos da rotina, através de rodas de leitura, idas diárias à biblioteca para manuseio e retirada de livros, leituras em duplas ou trios na sala de aula, pesquisas, conversas e discussões sobre o tema abordado... A idéia é a de valorizar o livro e a leitura através de variados espaços e tempos na escola, proporcionando a ampliação do repertório de leitura das crianças.

3 A leitura é ao mesmo tempo um meio e um fim. É ao mesmo tempo um instrumento de trabalho e algo a ser desenvolvido nos alunos. Ainda há nas escolas, de maneira geral, uma tendência a usar o livro somente como PRETEXTO de estudo, seja para introduzir algum tema, para se realizar alguma proposta a partir dele ou para se resolver algum problema. É a chamada "visão didática" do livro, os famosos trabalhos "escolarizados". Não podemos esquecer que o livro tem um fim em si mesmo, que é o seu caráter mágico e, nessa perspectiva, não precisa de pretexto para ser usado, em muitos momentos pode ser lido somente pelo prazer da leitura.

4 Ainda em relação a essa questão, outra idéia que considero importante abordar nesse momento, é a do cuidado do professor em relação à seleção e ao conhecimento prévio e detalhado dos livros e dos autores que pretende trabalhar com seu alunos. Estamos num momento de grande produção literária para crianças e temos também grandes nomes da literatura infantil atual no Brasil. Há, no entanto, que se ter muita atenção, no sentido de um olhar crítico para a qualidade de muitas produções, que visam muito mais o mercado, a venda em massa, os chamados "livros utilitários", feitos sob encomenda para serem adotados pelas escolas, sem grandes critérios de qualidade. Os livros não precisam explicitar julgamentos de valores e lições de moral. É tarefa do professor trazer essa questões para discussão com as crianças. Cabe à literatura trazer para a escola o novo ponto de vista, o estranhamento, o que não havia sido pensado até então. Às crianças cabe a coragem de expressar o que ainda não foi dito ou pensado, a palavra nova. A leitura tem que permitir à criança soltar a imaginação, "viajar" nas idéias do autor e do ilustrador e ir além, fazendo as suas interpretações e suas intervenções.

O meu trabalho com leitura na sala de aula, acontece sempre a partir de diferentes propostas e situações de contato com textos variados. Tenho tido a preocupação de manter na rotina diária, momentos em que eu leio para as crianças e outros em que elas próprias manuseiam livros, realizando leituras ou "pseudo-leituras", imitando o ato de ler dos adultos ou de crianças mais velhas, além de poderem se utilizar da leitura de imagens para compor uma história. Temos momentos diários de idas à biblioteca da escola para leituras coletivas, individuais ou em duplas, livre manuseio de livros do interesse de cada criança, retiradas de livros para serem lidos pelos pais nos fins de semana, recontos dessas histórias aos colegas, propagandas e recomendações de leituras aos colegas e a outras turmas da escola e pesquisa em textos informativos sobre assunto de estudo ou de interesse de alguma criança.

Também na sala de aula há uma mini-biblioteca, com livros trazidos pelas crianças e selecionados por mim, a partir de interesses da turma e de temas ou assuntos que eu considere legais de serem conhecidos pelos meus alunos. Costumo não deixar faltar livros de poesia, contos de fadas (versões integrais ou boas adaptações), histórias de aventuras, além de outros tipos de textos como enciclopédias, revistas e gibis. Encartes de jornal e material de divulgação também são muito bem-vindos na nossa biblioteca. As crianças manuseiam esses materiais também diariamente, após o lanche ou ao terminarem alguma atividade. Eventualmente leio alguma dessas histórias ou pesquisamos juntos sobre determinado assunto surgido no grupo, conversando e comparando os textos e seus portadores.
Outra modalidade de leitura é a chamada leitura socializada, realizada em todas as turmas da escola. Consiste na escolha de um livro com maior volume de texto, para ser lido em capítulos (partes) ao longo de um período de tempo (uma semana, um mês, um trimestre, um semestre). A idéia é a de se trabalhar a leitura em si, deixando as crianças com expectativas para o próximo dia, com o gostinho de "quero mais". Nesse ano já li para a minha turma Minhas Férias, de Marcelo Coelho, um livro inteiro de Monteiro Lobato, que levou um semestre para ser finalizado (O Picapau Amarelo), Os colegas, de Ligia Bojunga e atualmente estamos lendo o Armazém do folclore, de Ricardo Azevedo. Esses livros podem fazer parte de um projeto de literatura ou não e são escolhidos por mim.

Os projetos de leitura são pensados a partir do estudo de um autor e sua obra, de algum assunto ou tipo de texto, envolvendo obras de autores variados. Normalmente o 1º projeto do ano se refere à vida e obra do autor convidado para a feira do livro da escola, que acontece no mês de maio. Todas as turmas da escola se envolvem nesse trabalho, que inicia em março. São reunidos materiais sobre a biografia do autor, a escola procura adquirir a maior quantidade de obras, que são lidas e selecionadas previamente, a partir de focos de estudo para cada turma. Além da leitura pelo prazer e para o conhecimento da obra, nessa modalidade de trabalho com leitura, são realizadas diferentes tipos de produções pelas crianças (desenhos, recontos, reescritas, atividades artísticas, dramatizações, painéis, registros coletivos), que são reunidas e expostas pela escola no dia da visita do autor à feira e para o evento propriamente dito. Há também o encontro com o autor convidado, um momento riquíssimo onde as crianças preparam perguntas e realizam comentários sobre as obras lidas. O autor convidado desse ano foi o André Neves, que embora não tenha uma obra vasta, encantou a todos pela qualidade de suas produções como escritor e como ilustrador. As crianças puderam conhecer todos os seus livros e se mostraram muito à vontade em conversar com ele sobre os diferentes estilos literários com que trabalha e com as técnicas que utiliza para ilustrar, revelando-se profundos conhecedores do seu trabalho e velhos conhecidos.

Os projetos realizados a partir de um determinado tema ou tipo de obra, envolvendo diferentes autores também é uma modalidade importante de trabalho com leitura. Pode-se optar por trabalhar com poesias, contos de fadas (diferentes versões), fábulas, histórias de aventuras, lendas, parlendas, charadas, livros de imagens, contos populares... Nesse momento, estou desenvolvendo com meus alunos um projeto com os diferentes tipos de texto do folclore brasileiro, que envolve lendas e mitos (trabalho com diversos autores e diferentes versões-questão do imaginário, da cultura de outros povos e de outros tempos, das incertezas, da busca de explicações para a origem das coisas), parlendas (pequenos textos rimados, de fácil memorização e que possibilitam brincadeiras corporais e musicais), contos populares (histórias cuja origem são desconhecidas e abordam temas variados), charadas (adivinhações, textos divertidos a espera de uma resposta coerente), trava-línguas, versos e quadrinhas folclóricas (brincadeiras com as palavras). Tudo isso através de leituras, recontos, registros, memorizações, brincadeiras corporais e sonoras, conversas, retomadas orais e explicações complementares, contextualizando alguma situação ou acontecimento. É claro que eu tive que pesquisar, investigar, coletar materiais (internet, livros, enciclopédias), para poder planejar e estruturar o trabalho e confesso que estou completamente envolvida nesse trabalho e na riqueza do imaginário popular. As crianças têm se mostrado curiosas, interessadas em saber mais sobre os assuntos lidos, ao mesmo tempo em que se preocupam em saber se os acontecimentos são reais ou não, enfim, considero bárbaro mergulhar no mundo da fantasia e da imaginação, conhecendo as formas de pensar de outros povos e trazendo-as até a nossa cultura, estabelecendo possíveis relações.

Acredito no trabalho que desafia e surpreende a criança. Segundo Miguel Zabalza, da Universidade de Santiago de Compostela, que esteve aqui em Porto Alegre para um evento no mês passado, "o sentimento de competência é algo que temos que trabalhar com as crianças", precisamos nos dar conta de que elas são capazes de fazer cada vez mais coisas, ainda mais nesse momento em que têm acesso a tantas informações e a tantos meios de comunicação. Parece haver ainda um preconceito em relação ao que elas podem aprender e em vista disso, se reduz o trabalho com leitura, por exemplo, a textos curtos, pobres e infantilizados, o que me parece uma incoerência.

Finalizando, gostaria de ler um trecho de uma fala da nossa querida Silvia Orthof, por ocasião de sua participação num seminário promovido pela escola Projeto, em 1992, o qual nunca mais esqueci e sintetiza de alguma forma o que me propus a trazer hoje para vocês:
"Na escola, o livro é trabalhado. E trabalho vira chatura. O livro é para ser lido. A gente aprende geografia, matemática, português. Tudo tem regra. Mas livro mexe com algo que não tem regras, que é a emoção. O livro fala de paixão, de perda, de alegrias, de vida - por isso ele é importante. Ler é um direito, não um dever."