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Concerto
para um novo mundo
Elisa
Lucinda
Quando
minha mãe morreu em 1993, minha sogra falou: podia
encher um trem de gente que não presta pra ir no lugar
dela. Ela prestava. Tinha gosto pela humanidade e eu pensei
em seguida na lista desse trem: podia começar com
o Collor!, logo depois pedi perdão a Deus que não
é bonito desejar a morte dos outros. Fui falar com Ele
que nem me deixou começar: Ah não, perdão
de novo por maus pensamentos! Muda o disco, nega.
Mas Deus, nem sou a favor da pena de morte, é que
o homem roubou de um país inteiro, o cara não ama
ninguém; já a minha mãe...
E Deus: Hum, continue.
Ah, Deus, adeus, deixa pra lá, você me entendeu!
Saí correndo do céu e continuei no meu ataque de
Américo, o reformador do mundo. Esse é
um personagem de Monteiro Lobato que me intriga desde menina e
eu gosto da idéia de ele querer mudar o mundo. Na verdade
acho que gente alegre não devia morrer nunca, nem criança,
nem jovem, nem ninguém que presta; queria que durasse mais
e principalmente a pessoa que vive do dom, que desenvolve ele.
O dom quando não desenvolvido, quando rejeitado pelo seu
portador, vira inimigo. Pode até fazer a pessoa se tornar
violenta porque lutar contra a própria natureza é
uma luta inglória. De modo que eu estou sempre sonhando
com um país assim: um presidente Darcy Ribeiro, um delegado
Gilberto Gil, um prefeito Luís Melodia, um juiz Mário
Lago, uma médica Fernanda Montenegro, um psiquiatra Manuel
de Barros, um Ministro da Educação Mario Quintana,
um dentista Chico Buarque, um taxista Miguel Falabella, uma motorista
de ônibus Zezé Polessa, um gerente de banco Mauro
Salles, uma cozinheira Zilka Salaberry, uma mãe-de-santo
Bethânia, um professor Caetano, um avô Tom Jobim e
um jardineiro Tom Zé. Pois é, na minha reforma todos
eles fariam de seus cargos a belezura amorosa que fazem em suas
canções, sua poesias, sua arte, e sua vida.
Pois é, é isso que eu ía explicar pra Deus
naquele dia em que minha mãe morreu.
Agora vou confessar uma coisa: desde o dia em que Herbert Viana,
meu parente querido, parente amado do Brasil, caiu,
só me vem uma idéia na cabeça: já
que gosta tanto de dar volta, por que o juiz Lalau não
anda de ultraleve?
elisalucinda@radnet.com.br
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