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Fotos: René
Calabres
O
Brasil não existe

IVAN
ANTÔNIO ISQUIERDO
Radicado
no Brasil há 28 anos, o médico argentino Ivan Antônio Izquierdo
desenvolve um trabalho de pesquisa relacionado ao mecanismo de
memória no Instituto de Bioquímica da Ufrgs. Atualmente com 53
anos, pretende lançar este ano, um livro, ainda sem título, que
foge ao tema central de sua pesquisa e trata da qualidade de vida.
“Antigamente tínhamos pouco tempo de vida. O avanço científico
nos permitiu viver mais tempo e em melhores condições. Vamos aproveitar
este tempo fazendo uma coisa de cada vez”, diz a respeito da obra
em preparação. Ivan Izquierdo já foi entrevistado pelo Extra Classe
em junho de 1997. Passados quase quatro anos, voltamos a conversar
com ele para verificar os avanços de suas pesquisas nesse período.
Da
redação.
Extra
Classe O senhor desenvolve uma pesquisa na área
da memória por vários anos. A gente gostaria de
saber alguns resultados desse trabalho.
Ivan Izquierdo Eu trabalho sobre o mecanismo da memória
há mais de 35 anos. Até agora, ao longo desses anos
descobrimos as seguintes coisas: primeiro, não só
nós mas outros grupos também, que áreas (do
cérebro) estão envolvidas na formação
de memória e, mais recentemente, vimos que áreas
estão envolvidas na evocação de memória,
no recordar, e que áreas estão envolvidas na perda
de memória, na perda ativa, uma coisa que se denomina extinção,
no esquecimento ativo.
EC
Extinção?
Izquierdo Sim, extinção. O cérebro
trabalha para perder a memória, faz um esforço metabólico
neste sentido. É o que estamos estudando agora. É
um mecanismo de deleção que, na verdade, foi descoberto
há mais de 80 anos por Pavlov, na Rússia. Mesmo
conhecido ao longo dos anos, por algum motivo deixou de ser estudado
nos últimos 20 anos. Mas agora conseguimos determinar que
a extinção, este apagamento ativo da memória,
deriva da simples evocação da memória. No
momento em que ela é evocada, ela começa a se perder.
É uma coisa até filosófica. Como no momento
em que a gente é concebido, começa a morrer, no
momento em que a memória é evocada começa
a se perder, semeia sua própria destruição.
Outra coisa que estudamos é a divisão da memória
em diferentes tipos. Ou seja, no momento em que a pessoa forma
a memória, ela forma pelo menos dois tipos de memórias
paralelas. Uma que dura de três a seis horas e outra que
dura eventualmente dias, semanas, meses, anos. Essa última,
a memória de longa duração leva várias
horas para se construir. Enquanto isso está sendo construído,
a memória de curta duração opera e mantém
o animal capaz de funcionar, capaz de responder.
EC
Qual é a relação entre as reações
emocionais e o armazenamento da memória?
Izquierdo A relação vem pelo lado de
que nas emoções e nos estados de ânimo, dependendo
de qual forem, o organismo produz hormônio, o cérebro
produz substâncias controladoras que fazem o papel de hormônios
locais e atuam sobre os mecanismos bioquímicos da memória.
Durante muitos anos se sabia que as emoções afetavam
a memória. Estou nervoso, não consigo me lembrar
ou então estou demasiado feliz e não consigo
aprender, coisas desse tipo. E não se sabia como
isso funcionava, agora sabemos que são substância
definidas que atuam.
EC
Aconteceria a relação inversa, das memórias
afetarem a parte física do ser humano?
Izquierdo Sim, as emoções se desencadeiam
por estímulo e os estímulos podem provir da própria
memória. Se me lembro do enterro de um ente querido, por
exemplo, isso me deixa triste. Pode causar alterações
cardiovasculares, depressão. A depressão, na verdade,
resulta quase sempre do fato de a gente começar a lembrar
só coisas ruins.
EC
Quais são as causas mais freqüentes do esquecimento,
da falta de memória?
Izquierdo A causa básica é a extinção.
Por exemplo, nenhum de nós se lembra de tudo o que aprendeu
na vida porque não poderíamos funcionar se assim
fosse. Tem um conto de Borges, muito famoso, que se chama Funes,
O Memorioso. Funes é um personagem que lembrava absolutamente
tudo. Tudo. Podia, por exemplo, lembrar de todos os detalhes de
um dia inteiro de sua vida, mas para fazer isso precisaria de
um outro dia inteiro. Então ele não podia funcionar.
Precisamos esquecer coisas para poder encaixar mais coisas e poder
correlacionar umas com as outras.
EC
Existe uma capacidade, então?
Izquierdo- Existe uma capacidade. Os sistemas são saturáveis
e depois precisamos tê-los livres para podermos usá-los.
É como um trem. Num trem cheio tem de descer passageiros
em alguma estação senão não podem
subir outros.
EC
O que determinaria o supérfluo ou o que deve ser
extinto? A gente passa 24 horas armazenando dados.
Izquierdo Se fosse só o supérfluo que
a gente perdesse, a vida seria mais fácil. Mas não
é não. Às vezes a gente perde coisas importantes.
Daí a necessidade de repetir a mesma coisa.
EC
E quais são as razões para algumas pessoas
perderem memória?
Izquierdo Muitas vezes é por não prestar
devida atenção nem no momento de fazer a memória
nem no momento de evocar a memória. As pessoas costumam
fazer isso de uma maneira superficial e aí, claro, não
gravam bem, sequer lembram bem.
EC
O senhor falou na necessidade de um tempo para formar a
memória. Qual é esse tempo?
Izquierdo Pelo que nós vimos e outros pesquisadores
também, seria entre três e seis horas. Não
menos que isso para formar uma memória de longa duração,
uma memória, por exemplo, como a de minha infância,
que são 50 anos ou mais. Agora, dessas memórias
de longa duração perdemos a maioria. Existe um mecanismo
natural de esquecimento que opera constantemente e estamos lutando
contra ele o tempo todo se queremos lembrar coisas. Se não
aprendemos bem, não lembramos.
EC
A revista IstoÉ fez uma reportagem sobre exercícios
do cérebro para manter a memória na qual o senhor
foi uma das fontes.
Izquierdo Como fazer a memória funcionar bem.
É um caso característico em que a função
faz o órgão. É uma função que
quanto mais se usa, melhor funciona. É como treino atlético.
A melhor maneira de se exercitar a memória é fazendo
memórias e lembrando-as. E a melhor fonte de memórias
é a leitura. A leitura é fantástica na medida
em que estimula muitos tipos de memórias ao mesmo tempo.
A memória visual, a partir do uso dos olhos para ler, a
memória verbal ao nos depararmos com palavras que há
muito não vemos. Depois cada palavra evoca coisas.
EC
Quais são os problemas neurológicos que mais
freqüentemente afetam a memória?
Izquierdo Em termos de doenças, existe uma que
não se sabe exatamente se acompanha de lesões neurológicas
ou não, provavelmente não, que é a depressão.
É uma doença séria, que pode levar à
morte geralmente por suicídio ou por desinteresse pela
vida, que é uma forma de suicídio. A depressão
é uma doença de incidência alta, 6 a 7% de
toda a população. Por exemplo, nesse momento, aqui
nesse laboratório temos 25 pessoas e é bem provável
que duas delas estejam deprimidas num nível digno de tratar,
de fazer psicoterapia, tratar com remédios. A depressão
é a doença que mais comumente causa perda de memória
e alterações de memória, inclusive a perda
qualificada. O deprimido tende a se lembrar só do ruim.
Por efeito farmacológico, digamos, há a perda de
memória causada pelo alcoolismo, pelo uso de cocaína,
de morfina. A cocaína faz lembrar muito até certa
dose e a partir de certa dose faz esquecer de forma brutal. O
indivíduo literalmente não sabe onde está.
A morfina é um dos agentes mais usados para produzir amnésia
clinicamente. Se usa como pré-operatório para que
o indivíduo não lembre a operação.
Ainda em termos de lesões, a doença mais comum que
produz alterações na memória é a doença
de Alzheimer. É uma doença que consiste em lesões
que aparecem primeiro no lobo temporal, que é uma área
seriamente envolvida na formação da memória.
EC
Têm crescido os casos dessa doença. Ao menos
a gente tem tido mais informação sobre a incidência
do Alzheimer.
Izquierdo É uma doença que antigamente
as pessoas chamavam de esclerose. Esclerose é uma doença
que não existe. A artero-esclerose pode causar alterações
vasculares no cérebro e isto pode causar lesões.
Mas não é, nem de longe, tão freqüente
quanto se pensava. E a doença que causa este esquecimento
grande é a doença de Alzheimer. É uma doença
que se manifesta principalmente a partir dos 65 ou mais anos.
A incidência nas pessoas de 60, 65 anos, é menos
de um por cento. Por volta dos 80 anos é cerca de 20%.
Isso quer dizer duas coisas: uma pessoa de 85 anos não
necessariamente tem problemas de memória. Fica mais lenta
para a memória como fica para tudo, mas quatro em cinco
são normais. Um desses cinco tem a doença de Alzheimer.
Ou seja, Alzheimer e velhice não são sinônimos.
Assim como sarampo e infância não são sinônimos.
Então Alzheimer é uma doença que apresenta
maior número de casos porque há mais velhos no mundo,
as pessoas vivem mais. Atingem a idade em que se manifesta a doença
de Alzheimer.
EC
O portador dessa doença tende a não lembrar
coisas do dia-a-dia, mas lembra coisas do passado remoto.
Izquierdo Geralmente é mais difícil lembrar
coisas próximas, para a pessoa de idade, por um motivo
às vezes até proposital. Para qualquer pessoa que
atingiu certa idade, o que aconteceu meia hora atrás ou
ontem, não tem maior importância porque já
aconteceu muitas vezes. O velho tende a não prestar atenção
às coisas mais recentes e nega-lhes importância.
Em parte porque não tem mesmo tanta importância e
em parte isso se aprende com a experiência. Poucas coisas
são realmente dignas de lembrar e o velho vai aprendendo
isso ao longo da vida. Então tem uma tendência a
não prestar muita atenção a detalhes. Agora,
as coisas de antigamente representam para o velho épocas
invariavelmente mais felizes.
EC
Como o senhor avalia a memória do povo brasileiro?
Izquierdo Muito fraca. Ninguém se lembra em
quem votou para deputado nas últimas eleições.
EC
Por que isso?
Izquierdo É um país que cultua a não-memória,
um país que faz um culto do instante, do momento. O passado
não interessa para o povo brasileiro. É um país
estranho. Mas o passado é exatamente o que nós somos.
O Brasil é Brasil porque tem um passado que o qualifica
como tal, senão o Brasil seria qualquer coisa. Mas há
um culto, uma cultura que se criou de que o passado não
serve, não vale nada. Eu acho que é muito bom viver
o presente. Há que se agarrar com unhas e dentes ao presente
porque é o que nós temos. O passado já passou
e o futuro só Deus sabe. Mas não só o presente,
o presente em função de um passado e em função
de um futuro. Nós não podemos prever o futuro se
não lembrarmos do passado, se não sabemos em que
deu uma desvalorização (monetária), por exemplo.
Aqui tanto faz, ninguém se lembra quando foi a última
desvalorização e foi tão importante essa
data. Arruinou e enriqueceu tanta gente, estamos falando de milhões
de pessoas. Você sabe que 30% dos brasileiros não
sabe o nome do presidente da nação? E a maioria
votou nele na última eleição.
EC
A questão das datas: muita gente na escola diz que
não gosta de ficar decorando-as. Mas elas são marcos
históricos.
Izquierdo As datas não são tão
pouco importantes porque se correlacionam com a história
mundial. Por exemplo, o que acontecia em 1806? Se queremos entender
algo do Brasil moderno, entendamos o que acontecia em 1806 quando
Napoleão dominava na Europa e a Inglaterra começou
a avançar pelo mundo para ampliar seu império, invadiu
o que hoje é a Argentina. Isso tudo estimulou a vinda da
casa real portuguesa ao Rio de Janeiro para instalar Portugal
no Brasil. Então datas não são tão
triviais. Quantos anos houve de governo militar? Isso marcou profundamente
a todos, nos marcou como país e pessoas foram tão
marcadas que morreram. Quantos anos durou isso? É bom lembrar
ainda que mais não seja, para não repeti-lo.
EC
Mas parece um período esquecido hoje. Pouca gente
comenta, há uma espécie de amnésia social.
O que leva o brasileiro a isso?
Izquierdo O fato de ser um pouco acostumado e educado
a não prestar atenção em nada, a trivializar
tudo. Tudo é trivial no Brasil hoje em dia. O sexo é
trivial, a História é trivial, a educação
é trivial, o trânsito é trivial. Vou
tentar ultrapassar esse carro. Se não mato, me mato.
Se mato a oito no percurso de minha loucura, tanto faz. Ah,
me salvei, que bom. Não vou mais pensar nisso. Se
vive assim. Vive-se o presente, um presente fugaz e creio que
isso está destruindo o Brasil. Ou seja, a identidade do
Brasil como país. Eu vim para o Brasil há 28 anos
e me chamava a atenção, como a qualquer outro que
tenha vindo naquela época, a tremenda personalidade do
Brasil. Claro que tinha parecenças com outros países
da América Latina ou Europa, mas era um país característicos.
Hoje em dia o Brasil perdeu sua personalidade. É um país
que se dissolve, não há uma entidade que possamos
chamar realmente Brasil. Talvez existam muitos Brasis, mas isso
já não é bom. O Brasil dos ricos é
diferente do Brasil da classe média alta que é diferente
da classe média baixa que é diferente do Brasil
dos remediados que é diferente do Brasil dos pobres que
comem e que é diferente do Brasil dos pobres que não
comem, não vão ao médico, do Brasil dos marginais.
Inclusive as línguas são diferentes. A língua
que fala o Brasil marginal é uma língua que já
se parece pouco com o português.
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