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A
inclusão pela palavra
César
Fraga
Homeless,
sem abrigo, sin techo, sem teto. Não importa a língua,
o país. Em qualquer lugar do planeta, tanto faz, se do
primeiro, segundo ou terceiro mundo, gente que mora na rua passa
fome e vive à falta de condições mínimas
para o exercício da cidadania. São homens, mulheres
e crianças invisíveis. Porém, invisíveis
de tanto serem vistos, assimilados e banalizados pelo olhar da
sociedade transeunte que já não os percebe. Embora
vivam em condições sub-humanas, como animais, diria-se
até, como os cães-da-rua, são gente e gente
pensa, e, se pensa, quer falar. Sempre têm o que dizer,
mesmo que suas histórias de amor, drogas, sexo, violência
e crime não agradem aos incautos.
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Exemplo:
A experiência de Big Issue deu tão certo, que
foi seguida
em vários locais do mundo todo
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Para dar voz
e vez ao povo da rua, jornalistas, artistas, publicitários,
pessoas ligadas a ONGs e afins, estão viabilizando, em
dezenas de países, a publicação dos chamados
street papers, em bom português, jornais de rua. A finalidade
destas publicações é a mesma: incluir as
pessoas que estão do lado de fora da pirâmide social.
Alguns projetos ainda engatinham; outros, já maduros, relatam
seus resultados.
Tudo começou
com a Big Issue, revista inglesa que editou seu primeiro exemplar
em setembro de 1991. A idéia foi inspirada na iniciativa
do Street Journal, um jornal vendido pelos sem-teto de Nova Iorque.
A Big Issue, por sua vez, também acabou servindo de modelo
e exemplo para pessoas de diversas partes do mundo que viram na
iniciativa, uma forma viável e auto-sustentável
de fazer algo por e com estas pessoas. Hoje a Big Issue possui
uma fundação que gerencia e orienta uma rede de
revistas espalhada em quatro continentes: América do Norte,
Europa, Oceania e Africa. É a Big Issue Foundation, que
coordena as iniciativas do Reino Unido. Atualmente a revista é
feita em 15 países. As 23 publicações inspiradas
pela Big Issue, a grande maioria na Europa, seguem um padrão
semelhante ao de franquias.
Todas fazem
parte da International Network of Street Papers (INSP), uma rede
internacional de jornais de rua que oferece subsídios e
permite o tráfego de informações e experiências
necessárias para a realização de projetos
semelhantes. Todas as publicações possuem boa apresentação,
são editadas em papel de boa qualidade e apresentam projetos
gráficos atuais.
Porém,
cada região executa um projeto distinto com independência
de atuação e conforme a própria realidade.
Os vendedores recebem treinamento, uniforme e crachá de
identificação, além de serem orientados dentro
de um código de conduta. O conteúdo da revista inglesa,
por exemplo, além de um espaço reservado às
questões da rua, trata fundamentalmente de assuntos ligados
a arte, entretenimento e eventos jornalísticos do momento.
Cada vendedor fica com 60% do preço de capa. Para retirar
a revista nos postos de distribuição, deposita 40
penes por exemplar que será revendido para o leitor final
por 1 libra.
Já
a Cais ou Círculo de Apoio à integração
dos Sem - Abrigo, versão portuguesa da BI, feita em Lisboa,
segundo a jornalista Matilde Cardoso, que coordena o projeto,
possui várias diferenças tanto na atuação
como na forma. A idéia básica é a mesma,
porém enquanto a Big Issue possui centros de distribuição
próprios, nós utilizamos instituições
de apoio às pessoas carentes para isso. A Cais é
membro do INSP, mas estendem seu campo de atuação
beneficiando pessoas que sofram qualquer tipo de exclusão
social, e não apenas os sem abrigo, é assim que
são chamados os sem teto em Portugal. Dependentes de drogas,
sem teto, deficientes físicos. Com isso, criou-se a possibilidade
de os vendedores ficarem com 80% do preço de capa (350
escudos) e os 20% restantes ficam com instituição.
A outra diferença gritante é editorial, Cais se
preocupa menos em ter uma abordagem social e preferiu preencher
uma lacuna no mercado português. A idéia é
que as pessoas comprem a revista não só pela sua
função social, mas porque ela é um bom produto,
explica Matilde. Muitas fotos, textos bem cuidados e um projeto
visual primoroso fazem de Cais, 34 mil exemplares/mês, um
sucesso editorial em seu país. Não tem fins lucrativos.
Conforme relatório
divulgado pela Associação Cais, referente ao ano
passado, alguns números impressionam. Por exemplo, cada
escudo que o Estado e os patrocinadores investiram na Cais geraram
3 escudos para os vendedores. A Cais apoiou, em 2000, 180 vendedores
que beneficiaram da oportunidade de integração social
por meio de um trabalho digno e útil. Cada vendedor, em
média, usufruiu de um salário mensal de 60 mil escudos.
Anualmente são integrados cerca de 25% dos vendedores.
Durante o
ano passado, as 10 edições de Cais geraram um lucro
de 86,4 milhões de escudos, destes 69,12 milhões
ficaram com os cerca de 120 vendedores. Os custos de produção
ficaram em 25,58 milhões de escudos e uma receita de 23,99
milhões metade de subsídios públicos e outra
metade de donativos. As vendas superam 90% da produção.
Não há número que reflita o valor humano
da integração de cada uma destas pessoas,
diz a coordenadora.
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