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Em SP, uma experiência bem brasileira
Quem nos
explica a trajetória da experiência paulista é
o jornalista filósofo, teólogo e mestre em comunicação,
Arlindo Pereira Dias, que também é presidente da
Rede Rua de Comunicação e editor do jornal O Trecheiro.
E.C - Como
surgiu O Trecheiro?
Arlindo - A proposta faz parte do projeto maior que é
a Rede Rua de Comunicação. Na década de 80
um dos criadores do projeto, Alderon Pereira da Costa, participava
de um grupo católico, a OAF (Organização
de Auxilio Fraterno) que desenvolvia atividades junto à
população de rua no centro da cidade. Da presença
na rua ele começou a dar-se conta da riqueza cultural e
intelectual que havia lá. Com o grupo sentiu necessidade
de resgatar de alguma forma a riqueza que havia na rua. Iniciou
através da produção de fotos, slides e resgate
de poesias.
Em 1990 após
deixar a OAF, juntou-se a um grupo que desempenhava atividades
na rua para a criação da Rede Rua. De uma parceria
com a Prefeitura de São Paulo, na gestão do PT,
nasceu o CDCM (Centro de Documentação e Comunicação
dos Marginalizados) que em 1994 passou a se chamar Rede Rua, já
sem a parceria. Do projeto nasceu a idéia de se produzir
notícias sobre a população de rua e as instituições
que desempenhavam atividades na rua. Inicialmente, de maneira
tímida tratava-se de uma folha sulfite com notícias
sobre a rua. O projeto foi crescendo, conseguiu apoio da Editora
Paulus. Atualmente contamos com uma tiragem de 5 mil exemplares
mensais, distribuídos na rua, nas instituições
que oferecem serviço aos moradores de rua, em grupos solidários,
comunidades e contamos com 400 assinaturas.
EC - Que
tipo de participação os moradores de rua tem no
projeto?
Arlindo - Participam de maneira indireta através
de reportagens, pesquisas sobre temas, elaboração
de poesias e textos, distribuição na rua. O objetivo
do jornal é documentar o que acontece na rua, com abertura
à participação dos moradores de rua. Sem,
no entanto, ter no momento a pretensão de que sejam os
produtores do jornal.
EC - O
que é a Rede Rua e como ela é composta?
Arlindo - Ao longo dos últimos 11 anos a Rede Rua
tem desenvolvido atividades junto à população
de rua e na grande São Paulo. Em paralelo às atividades
de documentação e comunicação, a entidade
assumiu o gerenciamento da Casa de Convivência do Brás,
de atendimento para alimentação, banho e curativos.
Ajudou na gestação e concepção do
Cascudas Restaurante e nas diversas atividades da Fraternidade
Povo da Rua, que presta serviços a portadores de Aids,
Sem terra e população de rua. Atualmente a Rede
Rua coordena o projeto Refeitório Comunitário
conveniado com a prefeitura Municipal. Nos últimos anos
a Rede conseguiu construir uma infra-estrutura e aprimorar seus
serviços. Conta com duas casas na rua Sampaio Moreira 110
- casas 9 e 12, uma ilha de edição, uma videoteca
comunitária e diversos instrumentos comunicacionais como
computadores, câmeras, máquinas fotográficas.
Organizamos uma Rede de Comunicação e resgate da
cultura entre os moradores de rua, entidades que desenvolvem atividades
junto à população de rua e poder público
através de vídeos, impressos e exposições
fotográficas. A Rede Rua conta com um setor de produção
e divulgação de vídeos sobre exclusão,
uma videoteca comunitária; um arquivo amplo de fotos sobre
rua e exclusão; captação de matéria,
diagramação e distribuição do jornal.
EC - Como
funciona a troca de experiência entre os jornais de diversas
partes do mundo? Há essa comunicação?
Arlindo - No ano de 1997 conheci a experiência do jornal
La Farola ( não faz parte da rede mundial de
jornais de rua), na Espanha, através de visita ao projeto.
Dessa visita surgiram discussões na Rede Rua no sentido
de se começar um projeto similar. Em 1998 recebemos visita
do editor do Jornal Terre de Mezzo que nos propôs
parceria para que O Trecheiro adotasse os mesmos moldes
dos jornais da Rede, com a promessa inclusive de ajuda econômica.
Devido às dificuldades vividas naquele momento, preferimos
deixar amadurecer a discussão. Em 2000 um grupo de pessoas
do Rio e São Paulo, com a equipe da Rede Rua iniciaram
a discussão de criação de uma revista que
contemplaria aspectos da rua, porém, não teria linha
editorial fechada nos temas da rua. Este grupo está em
vias de execução do projeto já em fase final
de concepção.
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