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Um olhar terno
sobre as raízes do Rio Grande
Nos
olhos de Barbosa Lessa, sempre faiscados por uma curiosidade de
criança, havia um lampejo no qual se acomodavam a ternura
e uma aguçada memória. Os olhos de Lessa são
também reveladores de sua obra múltipla, nascida de
muitas vertentes: a pesquisa histórica, a ficção,
a música, a publicidade, as histórias que vão
do gênero épico ao policial, o humor e a dramaticidade,
a vocação de escrever desde receituário de
ervas caseiras à ficção científica.
Conjugou vida e obra numa trançada de paciência, rigor,
afeto. Luiz Carlos Barbosa Lessa, nascido em Piratini no dia 13
de dezembro de 1929 e falecido num domingo, 10 de março de
2002, em Camaquã, aos 72 anos, sempre teve no olhar os caminhos
da imaginação, o encantamento das lendas, a transparência
cristalina de quem cultiva as próprias raízes. As
raízes coletivas de sua terra e sua gente.
Renato Dalto
ara
Lessa, a palavra tradição não era manter a
memória intacta. Era fustigá-la para transformar a
visão do presente. Junto com Paixão Cortes, lançou
as bases do Movimento Tradicionalista Gaúcho, mas trocava
a fanfarronice dos galpões pela fala mansa, o relato afável,
o cultivo da doçura. Pesquisou a história e a formação
do Rio Grande do Sul e de todo o Cone Sul sem cair
na tentação de relatar fatos mitificando heróis,
embora um deles tenha marcado sua infância.
Em Piratini, na praça em frente à minha casa,
levantaram um obelisco, em 1935, em homenagem ao centenário
da Revolução Farroupilha. Neste obelisco tem uma silueta
de bronze da cara do Bento Gonçalves. E nós brincávamos
de pular para atingir o nariz dele. Este relato foi feito
numa manhã em Água Grande, o refúgio onde morava
no interior de Camaquã, um pequeno paraíso adornado
por uma cachoeira, uma densa mata de vários tons de verde,
a erva-mate nativa no bosque perto de casa. Lessa estava começando
a escrever no Extra Classe, onde tratou mensalmente de temas ligados
ao ensino até seu último texto, publicado da edição
passada do EC. Naquele dia, em Água Grande, mais uma vez,
ele e Dona Nilza estavam abrindo a casa e o coração
aos visitantes. Estavam serenamente felizes e bem-humorados.
Haviam planejado por muito tempo essa volta à natureza. Perto
da casa, uma biblioteca de troncos de eucalipto. Era ali que Lessa
passava os dias lendo, pesquisando, escrevendo em sua Olivetti.
Os olhos curiosos iam transformando em palavra um diálogo
íntimo entre o homem e as matas, águas, bichos e céu.
Aprendi a respeitar mais os nossos irmãos que aqui
viviam antes da chegada do europeu e a compreendê-los e compreender
mais a mim nesse contato tão íntimo com as plantas,
os animais, o vento e o arco-íris que tantas vezes apareceu
aqui e me deixou embevecido.
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