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Opiniões
divergentes também entre os negros
Ana Esteves
O coordenador nacional do Movimento Negro Unificado (MNU), Emir
da Silva, discorda da posição do advogado e qualifica
as cotas como um elemento de integração da população
negra excluída, em função de um processo
histórico iniciado com a escravidão sustentada pelo
próprio Estado. O país tem uma dívida
com esse povo que construiu o Brasil de forma forçada e
institucional e que, mesmo depois de 500 anos, ainda está
numa situação bem difícil, afirma.
Para ele, as cotas representam um resgate da cidadania, da identidade,
da auto-estima e auto-afirmação do negro. Seria
a forma de integração concreta ao mercado de trabalho,
ao meio acadêmico. É um ganho inestimável,
mas que necessita ainda de muito debate para que haja uma verdadeira
aceitação por parte da sociedade, que vê as
cotas apenas como uma forma de privilegiar o negro, completa.
Silva explica que as cotas estão inseridas entre as principais
metas das chamadas Ações Afirmativas, uma série
de políticas promovidas pela União, que mexe com
diversas formas de integração da comunidade negra,
podendo inclusive tratar de uma reserva no próprio orçamento
público. No Brasil, segundo Emir da Silva com a criação
do mito da democracia racial, com a assinatura da Lei Áurea
e com o conceito de miscigenação, o dogma do racismo
é uma barreira muito forte para ser superada. Sempre
houve a intenção de dizer que no país não
tem racismo, mas ele existe e é mais perverso porque é
sutil. Está impregnado na estrutura do Estado, que com
certeza ainda é um elemento de sustentação
do racismo aqui no Brasil.
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Fotos:
René Cabrales
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| "O
sistema de cotas é mais um item de discriminação",
diz a médica Isabel dos Santos. "As cotas representam
um resgate da cidadania", contrapõe Emir da Silva,
coordenador do MNU |
Ao
contrário do que se possa imaginar, nem toda a comunidade
negra se posiciona a favor das cotas. A médica pediatra
Isabel Constância dos Santos acredita que as cotas são
mais um item para que, no futuro, o negro seja discriminado. Vem
aquela pergunta: como é que o negro entrou na universidade?
Por cotas. Mas será que ele tinha capacidade para isto?.
Para ela, a questão da dívida que a união
tem com os negros pode ser sanada com investimentos em infra-estrutura
na área de saúde, saneamento básico, alimentação
e educação pública de qualidade. Assim
já estaríamos resolvendo metade do problema, dando
condições para o negro chegar ao topo, e competir
de igual para igual com os brancos sem que tenha necessidade das
cotas. Isto é uma forma velada de racismo e protecionismo:
o teu filho passa no vestibular com uma nota ótima e daí,
por um protecionismo da união, não entra porque
o negro entrou.
Filha de uma lavadeira e órfã de pai, Isabel conta
que batalhou a formatura na Faculdade de Medicina. Venho
de uma família pobre e, mesmo nestas condições,
conseguimos chegar lá: tenho um irmão que também
é médico, uma fisioterapeuta, uma jornalista e um
outro está fazendo serviço social, conta.
Para ela, a família serve como exemplo de que as cotas
são dispensáveis. Basta batalhar, conclui.
Sobre a questão do racismo, Isabel é taxativa: tem
racismo por parte do próprio negro, que procura muitas
vezes isso, é um racismo disfarçado.
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