Cenografia
eleitoral
Paulo César Teixeira
A
cumplicidade entre a mídia e o poder ainda está
para ser contada. No Brasil, as pesquisas acadêmicas a
respeito do tema são relativamente recentes ganharam
fôlego a partir de 1989, com a primeira eleição
presidencial com voto direto no país, após 20
anos de ditadura militar. Naquele ano, predominou a manipulação
explícita e truculenta dos fatos, cujo maior exemplo
é a famosa montagem do debate final entre Fernando Collor
e Luís Inácio da Silva, no Jornal Nacional, da
Rede Globo. De lá para cá, entretanto, as técnicas
de intervenção dos meios de comunicação
ficaram mais sutis. Envolvem o que especialistas chamam de construção
de cenários que influenciam a definição
do voto. Quanto mais avançada a democracia, menos
condições há para a manipulação
grosseira, explica Mauro Porto, coordenador do Núcleo
de Estudos sobre Mídia e Política (Nemp), da UnB.
Os veículos de comunicação são peças
vitais para quem sonha ser Presidente da República, porque
oferecem projeção nacional instantânea.
Um candidato pode se tornar conhecido em todo o país
após um árduo trabalho de percorrer todas as regiões,
entrando em contato com a população e expondo
suas idéias. Isso pode demorar muitos anos. Se contar
com a ajuda da mídia, atinge o objetivo velozmente,
afirma Albino Rubim, diretor da Faculdade de Comunicação
da Universidade Federal da Bahia. O problema é que ela
aniquila candidaturas com a mesma velocidade com que as constrói.
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Antes da opção por Serra, os meios de comunicação
flertaram com Roseana. O namoro foi escancarado em capas de
revistas semanais como Veja e generosos espaços no Jornal
Nacional. A principal motivação era a necessidade
de abrir espaço para candidaturas capazes de enfrentar
Lula no segundo turno. Mas tinha a ver também com a fome
de novidades, que caracteriza a mídia. Roseana
era o único elemento novo da campanha de 2002. Trouxe
um frescor ao noticiário saturado, assinala Villas-Bôas
Corrêa, colunista do Jornal do Brasil e do site No.com.,
que cobre campanhas eleitorais desde 1948, época em que
os principais jornais do país eram declaradamente udenistas
e antigetulistas, sem meias palavras.
Os pesquisadores não se detêm apenas em noticiários
quando avaliam o fenômeno eleitoral. Focalizam também
os programas de entretenimento, como os folhetins eletrônicos.
Não é coincidência o fato de que, recentemente,
um casal de personagens da novela O Clone resolveu passar as
férias no Maranhão, para desfrutar das paisagens
paradisíacas da terra da governadora. Na lua de mel com
Roseana, a televisão não poupou esforços
para colocá-la em evidência. Na campanha presidencial
de 1994, o clima de euforia do Plano Real foi estimulado por
Pátria minha, da Globo, que estreou às vésperas
do pleito. O nome e a abertura tinham conotação
patriótica e ufanista, lembra Porto, da UnB.
A influência
camuflada Um exemplo de influência camuflada
nos rumos da eleição foi a cobertura da campanha
presidencial de 1998. A pedra no sapato de Fernando Henrique
Cardoso, que tentava a reeleição, era explicar
o desemprego e o crescimento negativo do PIB. O fantasma
foi exorcizado atribuindo-se o problema a fatores externos,
como a quebra da Rússia, diz Porto. Naquela campanha,
o JN praticamente desconheceu a eleição, como
se não fosse pauta importante. O silêncio
e a discrição convergiam com os interesses dos
grupos políticos dominantes, para quem não era
conveniente gerar polêmicas. Certos temas espinhosos,
como a seca, não foram mais abordados no JN depois de
maio, anota Albino Rubim, da UFBA, que coordenou a edição
do livro Mídia e eleições 98, da Editora
da UFPB. Vale lembrar que, na época, o governo tentou
reduzir o período do horário eleitoral gratuito
na televisão de 60 para 30 dias acabou diminuindo
para 45. A estratégia se justificava na medida
em que FHC, sendo presidente, tinha visibilidade garantida no
noticiário. Os concorrentes, sim, precisavam aparecer,
diz Rubim.
A maior parte das pesquisas que desvendam as misteriosas teias
que unem mídia e poder privilegiam a televisão
como veículo de influência. Nos anos 60, aparelho
de tevê era artigo de luxo. A vizinhança se reunia
na casa do felizardo para assistir aos programas de sucesso.
Em 1989, já havia 40 milhões de televisores no
país. Hoje, são 70 milhões de domicílios
com os olhos na tela. Em 2010, serão mais de 100 milhões.
Atualmente, o mercado de US$ 6 bilhões é disputado
por seis redes privadas de âmbito nacional, com 138 afiliadas.
Este enorme polvo controla 667 veículos (entre jornais
e canais de rádio e tevê), conforme o Instituto
de Estudos e Pesquisas em Comunicação, de Porto
Alegre. A Globo é a que aglutina o maior número
de veículos em todas as modalidades. Quarta maior rede
de televisão do planeta atrás de ABC, CBS
e NBC , em 40 anos, saiu de apenas uma concessão
no Rio de Janeiro para 11 em São Paulo (28% do mercado
local), oito no Paraná (33%), sete em Minas Gerais (35%),
quatro no Rio (29%), uma no Distrito Federal e outra em Pernambuco.
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