Professor negro: trajetória profissional de êxito

Ernâni Lampert*

Partindo-se da crença de que todos os indivíduos, quando as condições sócio-econômicas e culturais são apropriadas ou criadas, têm condições de ascender na pirâmide social; de que não há raça superior e sim diferenças culturais profundas, as quais devem ser respeitadas e, quando trabalhadas, são altamente favoráveis à humanização da sociedade; de que as pessoas precisam aprender a coexistir no complexo mundo multicivilizacional; de que a ciência, com raras exceções, está a serviço do poder; de que há necessidade de ver o negro não como cor de pele, mas como cultura e de que a discriminação racial não é apenas um legado da escravatura, o autor desencadeou uma pesquisa qualitativa, no segundo semestre de l997, no Departamento de Educação e Ciências do Comportamento da Fundação Universidade do Rio Grande, Estado do Rio Grande do Sul. Concomitantemente ao objetivo principal, que é analisar a trajetória de vida de professores pertencentes a minorias raciais que foram bem-sucedidos na sua profissão, está a tese a desnudar o preconceito racial, tão presente na sociedade brasileira ao longo dos tempos.

Na seleção dos narradores, procurou-se estabelecer alguns critérios para contemplar trajetórias de vidas diferenciadas e variadas, distintas áreas do conhecimento humano, diferentes inserções sociais e geográficas. Observados os critérios, a população/amostra foi composta por cinco professores e cinco professoras. Cinco docentes pertencem ao quadro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Os demais professores exercem ou exerciam a docência na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, na Universidade Luterana do Brasil, na Universidade Federal de Santa Maria, na Universidade Federal de Pelotas e na Fundação Universidade do Rio Grande. No que tange à titulação, cinco docentes são portadores do título de doutor (economia, educação, engenharia, enfermagem e lingüística). Os mestres são de diferentes áreas (biblioteconomia, educação, engenharia, geografia e matemática). A faixa etária dos narradores oscila entre 30 e 68 anos, sendo que a predominância (70%) está entre os 40 e 53 anos.

A história oral de vida foi utilizada por ser a metodologia adequada à problemática da investigação. Fonseca, referindo-se a esta tendência, diz que "fazer história oral de vida de professores consiste numa tentativa de produzir documentos e interpretações, nos quais os personagens - sujeitos que produziram e ensinaram - explicitam e atribuem diferentes sentidos às suas experiências, mostrando como suas produções, e suas ações profissionais estão intimamente ligadas ao modo pessoal de ser e viver" (1997, p. 43). Após a realização de cada entrevista, foi feita a transcrição da fita e em seguida a textualização, ou seja, a reorganização do discurso. Além da entrevista, foram, em alguns casos, analisados o curriculum vitae, cronologia de vida, projetos de ensino, de pesquisa e de extensão de docentes. Todas as informações foram analisadas e agrupadas conforme as categorias propostas, o que facilitou a interpretação e a extração de algu-mas inferências.

As inferências apresentadas quanto à trajetória do professor negro estão de acordo com os resultados do estudo de André (1995), que indicam que há pelo menos três determinantes fundamentais que afetam o processo de construção da competência docente. De um lado está o ambiente familiar/cultural em que o professor cresceu e se desenvolveu (valores, hábitos, crenças, costumes adequados, classe social a que pertence, os modelos com os quais convive, as experiências). Do outro lado está o processo de escolarização e o ambiente de trabalho. No que concerne à escolarização, sabe-se que a discriminação racial é manifestada na escola na medida em que os agentes pedagógicos não reconhecem o direito à diferença. Quanto ao ambiente de trabalho, tanto por verbalizações dos narradores quanto da própria literatura, o professor negro é continuamente colocado à prova (Lopes, 1987).

Hoje em dia, apesar de todo o processo científico e tecnológico, ainda não aprendemos a coexistir e viver com as diferenças. Há e certamente por muito tempo haverá preconceitos e discriminação contra civilizações, povos, raças, pessoas, ideologias, religiões... No Brasil, apesar de todo o crescimento econômico e mudanças paradigmáticas, o hiato entre raças persiste. Teremos que encontrar alternativas para reverter o quadro, pois enquanto estivermos discriminando, estamos perdendo o referencial para construirmos uma sociedade melhor.

* Ernâni Lampert é doutor em Educação, professor adjunto do Departamento de Educação e Ciências do Comportamento da Fundação Universidade de Rio Grande.