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Qual é o sexo das letras?
Jacira
Cabral da Silveira
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| Foto:
René Cabrales |
Iletrados,
ininteligíveis, engessados e midiáticos são
alguns dos adjetivos que
qualificam os textos produzidos na atualidade. Entretanto, Ana
Maria Netto Machado, psicanalista que desenvolveu pesquisas de
mestrado e doutorado sobre o tema, não encara que estejamos
vivendo numa cultura que abandonou a escrita, uma tecnologia que
está na base de todas as outras, conforme avalia a pesquisadora.
Segundo ela, se existe precariedade e pânico na hora de
escrever é porque na escola aprende-se alguma coisa parecida
com o escrever, nada criativo e muita cópia. Essa constatação
levou Ana a criar o Laboratório de Escrita, onde trabalha
a autoria no ato de escrever.
A um simples
convite, quatro adolescentes em frente à sua escola aceitam
falar sobre o texto escolar, o pânico de escrever e a utilidade
de saber escrever. Logo de começo são unânimes
em afirmar que os assuntos propostos pelos professores são
desinteressantes e muitas vezes não sabem o suficiente
para preencher o número x de linhas exigidas.
Juliana, uma garota de 16 anos e que está no segundo ano,
diz que nessas horas o remédio é enrolar e escrever
o que o professor pede.
Rodrigo, de
15 anos é aluno do primeiro ano, confessa ficar apavorado
em ter que cumprir a tarefa. Para ele, é sempre confuso
compreender o que a professora quer dizer quando comenta que sua
redação não dá para entender ou tem
problemas de estrutura. Só que ela não explica
o que isso quer dizer!, desabafa o estudante.
Esse desconforto
estende-se ao desafio que representa a redação do
vestibular: se agora não sei fazer o que a professora
está querendo, quando for para o vestibular não
vou saber o que estou errando. Sempre ansioso em falar,
Rodrigo gagueja suas impressões numa avalanche e lamenta:
a gente tem uma idéia boa e não pode botar
no papel. Ele critica a atitude do professor que estimula
os alunos a escreverem o que pensam, mas que considera erradas
as opiniões quando emitidas.
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O
pânico na hora de escrever vem da escola, onde se ensina
muita cópia e pouca criatividade
Foto: René Cabrales |
Quanto ao
texto usado nos bate-papos da Internet, Juliana é a única
que demonstra alguma familiaridade. Depois de citar alguns exemplos
como tb para dizer tudo bem, blz no lugar de beleza, ela comenta
que num papo desses, tanto como na redação da escola,
o ato de escrever pode ser perigoso e comprometedor. Ela conta
que, logo no início de suas incursões nas salas
de conversa, quando escreveu sem qualquer preocupação
de censura, foi mal interpretada e até chamada de vagabunda.
Indignada, disse ser impossível alguém falar isso
dela sem ao menos conhecê-la. Mesmo assim, afirma gostar
muito dos papos virtuais onde vai para se divertir, enquanto,
na escola, a gente vai para aprender.
Ana Maria
Netto Machado quer, ao publicar o texto O sexo das letras,
destinado aos participantes do 1° Laboratório de Escrita
do estado - existem experiências semelhantes em Campinas/SP
- justamente resgatar a ludicidade do ato de escrever que, assim
como o sexo, pode representar momentos de prazer.
Ao analisar
comentários como os de Juliana e Rodrigo que dizem tentar
ludibriar ou compreender o que a professora quer, Ana Maria fala
da moral escolar identificável nestes depoimentos. Segundo
ela, há, na escola, uma série de mensagens contraditórias
e enlouquecedoras e que têm como conseqüência
o aprendizado da tapeação. Ela dá
como exemplo a questão da cópia. Comenta que nas
séries iniciais a criança aprende que fazer pesquisa
é copiar, quando chega no segundo grau o aluno deve escrever
com as suas palavras e, na pós-graduação,
deve voltar às citações. Mas, para Ana Maria,
quando o propósito é construir conhecimento, escrever
não é uma questão de copiar ou criar, e sim
de exercitar os dois. E de um exercício volumoso, diz a
psicanalista. Afinal não tens como aprimorar uma
página em branco, argumenta.
A escola,
para ela, deveria incentivar o aluno a preencher muitas páginas
de onde virão articulações interessantes
e uma série de associações possíveis.
Embora não proponha o espontaneísmos, Ana Maria
acredita que se a criança pudesse escrever mais na escola,
sem a preocupação com o erro, a poderia chegar à
auto-correção mais naturalmente. Não
podemos escrever corretamente se não escrevemos bastante,
alerta.
Outro mito
que Ana Maria aponta no trabalho escolar de produção
de texto é a questão do conteúdo. Segundo
ela, a cultura escolar tem como uma de suas verdades o indispensável
acúmulo de informações que o aluno precisa
para abordar o assunto proposto na redação. Lembrando
um dos fatos que a motivaram a criar o Laboratório de Escrita,
Ana Maria contesta o dito escolar. Por várias vezes, quando
escutava seus pacientes, tinha a impressão de que estava
lendo um romance, por existirem momentos estéticos belíssimos
nas falas das pessoas. Neste sentido, ela afirma que há
uma via direta do cérebro à mão, que dispensa
passar pela oralidade, pois a escrita serve para descobrir como
pensamos, para descobrir coisas novas. É uma pescaria
no mar interior, conclui Ana Maria.
| Desde
os primórdios da humanindade... |
Essa expressão
é uma das mais freqüentes nas redações
do vestibular da UFRGS. Quem afirma é a professora
com formação em Letras e Jornalismo e doutora
em Educação, Rosa Maria Bueno Fischer, que há
nove anos integra a comissão de correção
de redações da UFRGS, tendo corrigido cerca
de cinco mil textos, como revisora e coordenadora de equipe.
Para ela, essa incidência deve-se à idéia
generalizada de que qualquer tema a ser abordado em uma redação
precisa retornar aos primórdios da humanidade.
Segundo a professora, os candidatos dominam cada vez mais
uma estrutura padronizada de texto. Entretanto, quanto
ao conteúdo, não se pode dizer o mesmo,
avalia Rosa Fischer. Ela exemplifica como o uso mecânico
de tais regras nem sempre dá certo: é comum
as redações concluírem a partir do elemento
de ligação portanto, mas na verdade não
estão concluindo nada, diz a especialista.
Por outro lado, a professora reconhece que essa gurizada
tem muita noção do que o interlocutor quer,
daí produzirem textos politicamente corretos. Tal aprendizado
não se restringe ao ambiente escolar. Conforme as constatações
de Rosa Fischer, as redações demonstram o quanto
o jovem aprende o que circula na mídia e o que pode
ser dito em nossa sociedade. Eles pensam o que aparece na
mídia. |
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