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Fotos: René
Cabrales
Lilián
Celiberti
A
justiça tarda e, às vezes, não chega
Gilson
Camargo
Estação
rodoviária de Porto Alegre, manhã de 12 de novembro
de 1978. O casal de militantes uruguaios Lilian Celiberti e Universindo
Dias, acompanhado dos filhos Camilo, de oito anos, e Francesca,
3 anos e meio, recém havia chegado de São Paulo,
depois de uma viagem pela Europa onde reuniu documentos que faziam
denúncias sobre prisões ilegais, torturas e desaparecimentos
de militantes de esquerda na América Latina. O alvo eram
os governos militares de todos os países do Cone Sul, organizados
numa ação de cooperação internacional
mais tarde identificada como Operação Condor. O
casal é interpelado por policiais gaúchos do Departamento
de Ordem Política e Social (Dops), e por agentes uruguaios
da Companhia de Contra-informações e do Organismo
Coordenador de Atividades Subversivas (Ocoa). Acusados de tráfico
de armas e contrabando de material subversivo, os uruguaios são
presos e torturados no Palácio da Polícia, bem próximo
do apartamento em que Lilián morava com os filhos, na rua
Botafogo. Antes do seqüestro, Lilián encaminhou para
o Movimento de Justiça e Direitos Humanos um dossiê
com depoimentos de ex-presos políticos em que já
era possível identificar a cooperação dos
governos militares na repressão. Convidada a depor em uma
sessão da Comissão de Justiça e Direitos
Humanos da Câmara dos Deputados, realizada no final de junho
deste ano na Assembléia Legislativa, Lilián Celiberti
falou com exclusividade ao Extra Classe sobre a rede de terror
implantada no Cone Sul e das provas existentes sobre a cooperação
entre os governos militares.
Extra
Classe - As investigações sobre a repressão
conjunta das ditaduras militares do Cone Sul contam com a cooperação
de alguns países, caso do Uruguai. Mas há governos,
como o brasileiro, que, ou se mantêm neutros, ou negam o
envolvimento na Operação Condor. Na sua avaliação,
quais são as evidências mais concretas da existência
dessa cooperação internacional?
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| "O
condor foi concebido pelos adidos militares das embaixadas" |
Lilián
Celiberti - Há um começo, que são os
artigos do Paraguai. Na primeira reunião de trabalho, no
Chile, em 1975, as forças armadas presentes consideravam
que a subversão desenvolvera ações continentais,
regionais e subregionais. E que, diante disso, os países
estavam sendo agredidos política, econômica e militarmente.
Aqui cabe uma primeira interrogação: que agressões
militares existiam em cada um desses países do Cone Sul
em 1975? O Uruguai, o Chile e a Argentina estavam sob ditaduras
militares. Não havia uma situação de guerrilhas
internas, de lutas de expressão armada. Para enfrentar
essa guerra sócio-política, diz o documento,
os países deviam contar não só com um
comando centralizado, interno e nacional, mas com uma coordenação
eficaz que permita o intercâmbio de informações
e experiências, além do mais alto grau de conhecimento
pessoal sobre as pessoas e organizações que ameaçam
a segurança nacional. O Condor, também dizem
os artigos, foi concebido e operado pelos adidos militares nas
embaixadas.
EC - A
senhora fala em sociedade organizada, mas o que se vê são
comissões de defesa dos direitos humanos empenhadas nas
investigações, ou seja, minorias da sociedade estão
mobilizadas. Qual é a expectativa de que os envolvidos
nessa cooperação venham a ser efetivamente responsabilizados?
Celiberti
- Não tenho essa visão. No Uruguai, na Argentina,
no Chile, isso está na agenda pública de cidadania
ao longo desses anos. A situação do Brasil é
um pouco diferente, talvez porque a ditadura no Brasil tenha surgido
em 64. No Uruguai, depois de dez anos sob ditadura militar, falar
do passado é um estigma de quem tem os olhos na nuca. Esse
é um debate que não se encerra, não pode
ser encarcerado. Por isso, hoje, 20 anos depois, aparece a necessidade
de que os governantes tenham algum gesto de vontade política
de pelo menos esclarecer a dor dos familiares que buscam seus
desaparecidos. Até aí há uma luta de gente
que não esquece. Somos atingidos pelo tipo de vida que
levamos, mas eu não atribuiria a isso uma falta de sensibilidade
coletiva.
EC - O
governo do Uruguai tomou iniciativas para elucidar casos de torturas
e desaparecimentos. A senhora acha que o presidente Fernando Henrique
Cardoso devia assumir uma postura semelhante?
Celiberti
- Os caminhos da verdade às vezes são complexos.
No meu país, a verdade apareceu pelo caminho mais institucional
possível. Todos sabemos que, mais além da renovação
das forças militares, eles sabem
de tudo. Isso é como um jogo de espelhos: olhamos mais
adiante quando devíamos olhar aqui. Eu valorizo enormemente
essas iniciativas do presidente Jorge Batlle e acho que essa é
uma obrigação de todos os presidentes. No Chile,
isso aconteceu via Justiça. O compromisso e a vontade política
dos presidentes é muito importante, sem dúvida.
EC - O Paraguai abriu os arquivos, o Chile tirou a imunidade
parlamentar, o Uruguai está colaborando. Na Argentina,
estão ouvindo os militares, ainda que secretamente. O Brasil
está isolado?
Celiberti
- Na realidade está se gerando uma pressão.
Quando Pinochet foi encarcerado em Londres, a pedido do juiz Baltazar
Garzón, todos os governos do Mercosul se pronunciaram,
pois consideravam uma intromissão a condenação
de Pinochet por parte de um país estrangeiro. O governo
chileno afirmou que essa era uma tarefa que lhe correspondia.
Me parece que os governos devem demonstrar que estão em
condições de esclarecer uma verdade e processar
os conhecimentos desses elementos para ter uma credibilidade democrática
institucional. Hoje, no mundo estão em jogo alguns mecanismos
aos quais chegamos porque a justiça tarda em chegar ou
às vezes não chega. Estou pensando na batalha que
viveram as organizações de direitos humanos pela
ratificação de uma corte penal internacional, embasada
no fato de que há crimes que não se castigam nos
lugares em concreto. Portanto, tem que haver uma corte que ampare
o direito dos cidadãos deste mundo quando eles não
encontram Justiça nas fronteiras de seus países.
EC - Ao
longo desses anos, seus torturadores foram promovidos, como Eduardo
Ferro, ou receberam prêmios, caso de Janoni, que foi homenageado
da ONU e teve seu nome associado ao Prêmio Nobel. Como a
senhora reage a isso?
Celiberti
- É uma ofensa para todos. Eu não me coloco
como
uma vítima isolada. Eles têm de ser julgados, porque
creio na Justiça igual para todos. Quando penso que há
alguns cidadãos de primeira que não
estão submetidos à Justiça, como podemos
depois encabeçar toda a Justiça, as leis e os regulamentos
sobre um homem ou uma mulher pobres que cometem um crime? A Justiça
se baseia em um princípio universal, de que tem que ter
a mesma regra para medir todos os atos de todas as pessoas em
um território. A entrega do Prêmio Nobel a esse capitão,
agora major Janoni, que esteve aqui em Porto Alegre trabalhando
previamente ao nosso seqüestro, é uma bofetada em
todas as forças democráticas do meu país.
Na realidade, em meu país, a democracia foi conquistada
e durante muitos anos houve muita dor, não só de
quem esteve preso ou torturado, mas também de gente que
viveu no Uruguai no período mais triste e tremendo, porque
foi uma ditadura inoperante, que gerou pobreza e deixou um país
em ruínas. Não só teriam que responder pelos
crimes de lesa-humanidade, mas pelos crimes econômicos e
sociais e de gestão pública que cometeram durante
esses anos.
EC - Antes de ser seqüestrada por policiais do Dops e
da Ocoa, a senhora entregou para o Movimento de Justiça
e Direitos Humanos um dossiê com relatos de vítimas
das ditaduras que denunciavam a existência de uma cooperação
entre os governos militares na repressão. Quem eram os
inimigos da ditadura afinal?
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| "Os
militares consideravam inimigos todos os opositores" |
Celiberti
- No ano de 1978, já tínhamos bem claro que
havia uma coordenação repressiva dos países
do Cone Sul, que estava amparada na doutrina da segurança
nacional. Em função dessa doutrina, os militares
estabeleciam que tudo que não fosse sua luta era comunismo
internacional e consideravam que todos os opositores eram inimigos.
A doutrina estabelecia que as fronteiras não estavam ameaçadas
em termos de exércitos, não era um enfrentamento
de militares. O combate ao comunismo internacional era uma luta
ideológica. Esse inimigo trabalhava questionando e denunciando
as ditaduras no exterior. As forças democráticas,
os militantes, setores políticos ou simplesmente sindicalistas
que estavam no exterior da Argentina, Chile, Uruguai, Brasil,
sempre encontravam aliados no parlamento, nas organizações
de direitos humanos, nos advogados. Essas organizações
acabam fazendo parte desse complexo internacional que era combatido
pelos governos militares.
EC - O
dossiê era uma prova da cooperação entre as
ditaduras?
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| "O
dossiê era composto de depoimentos de gente que conseguiu
fugir". |
Celiberti
- As provas que tínhamos eram denúncias de perseguição
política, prisões arbitrárias, tortura e
desaparecimento de militantes. O dossiê era uma compilação
de depoimentos dados por gente que conseguiu fugir da sala da
morte e exilar-se em países europeus através das
embaixadas. A partir desses depoimentos, reunidos no documento
que entregamos ao MJDH em Porto Alegre, as embaixadas elaboravam
as listas de desaparecidos. As perseguições políticas
também são relatadas pelos artigos do Paraguai,
que são documentos gerados pelos próprios militares,
com atas de reuniões e relatos sobre prisões políticas,
uma prova muito concreta da execução de ações
conjuntas entre governos militares de países do Cone Sul.
Comunicam, por exemplo, as prisões e traslados de pessoas
de um país para o outro. São relatórios que
militares fazem a seus superiores sobre a detenção
de dois argentinos, informando a data em que essas pessoas foram
trasladadas e identificando o avião que as transportou,
quem comandava a operação. Essas quatro pessoas
figuram nas listas de desaparecidos: são dois uruguaios
e dois argentinos. Então, esses artigos do Paraguai, que
agora estão sendo microfilmados e enviados ao Brasil, têm
muitos elementos para dar a conhecer as operações,
porque são dos próprios militares. Há a afirmação
de um funcionário do FBI de que esta coordenação
começa em 1975 e que se chama Plano Condor, depois aparecem
atas de reuniões realizadas no Chile.
EC - A
senhora disse que sobreviveu ao seqüestro graças à
abertura política que se ensaiava no Brasil à época,
o que permitiu que a opinião pública tomasse conhecimento
do seqüestro em função da liberdade de imprensa...
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| "O
comportamento das autoridades brasileiras não foi ético" |
Celiberti
- No caso do Brasil, o comportamento das autoridades não
foi ético, foi político. No traslado, o Dops atuava
sob ordens. Havia um acordo que, sem dúvida, transcendia
as pessoas que estavam diretamente envolvidas no seqüestro.
Ninguém vá pensar que esse delegado (Pedro Selig)
tomou sozinho a decisão. Na realidade ele era um funcionário
subordinado e simplesmente atuou, mostrou sua cara. O Brasil estava
sob pressão dos Estados Unidos, em função
do Plano Carter. Jimmy Carter tinha como meta democratizar
o Cone Sul. O Brasil era um dos países nos quais se considerava
que a subversão não existia mais e, por isso, teria
melhores condições para chegar a um processo de
democratização - ainda que fosse um processo de
fachada. Esse seqüestro aguçou as contradições
entre aqueles setores que queriam dar por finalizado um período
de arbitrariedades e que de certa forma já havia aberto
um processo democrático, com liberdade de imprensa, coisa
que não existia nos outros países. Em 1978, havia
um movimento sindical organizado fundamentalmente em São
Paulo. Havia um processo contraditório que tinha a ver
com a própria modernização do Brasil e sua
inserção no sistema internacional como um país
produtor de matérias-primas, sua inserção
comercial e produtiva. Para isso, o Brasil precisava assumir certos
processos de modernização política. Era como
dizer: as ditaduras militares já cumpriram
seu ciclo, agora o país já pode voltar a uma etapa
democrática.
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