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Enquanto
a unha não cresce
Mário
Alberto Campos de Morais Prata nascido em Uberaba (MG), no dia
11 de fevereiro de 1946, cronista, dramaturgo, escritor. É
autor da novela Estúpido Cúpido e da peça
de teatro Besame Mucho entre ouras; freqüenta as listas dos
mais vendidos sempre que tem seus livros lançados. Os mais
recentes, Os Anjos de Badaró; Minhas mulheres, meus homens
e Minhas Tudo, não foram exceções. No final
de agosto estará no Rio Grande do Sul, mais precisamente
em Passo Fundo, como painelista da 9ª Jornada de Literatura,
onde falará sobre sua experiência como escritor.
Mário cresceu Lins, interior de São Paulo, onde
começou a escrever aos 10 anos de idade na Remington do
pai. Eram crônicas, as quais ele próprio se refere
como horríveis. Nesse período de sua vida era o
redator do jornalzinho de sua classe na escola. Logo começou
a escrever a coluna social da Gazeta de Lins. Adolescente, devorava
o que lhe caia nas mãos, em especial as principais revistas
da época "O Cruzeiro" e "Manchete",
que tinham um time de cronistas invejáveis como Fernando
Sabino, Paulo Mendes Campos, Henrique Pongetti, Rubem Braga ,
Millôr Fernandes e Stanislaw Ponte Preta, dos quais herdou
estilo e influência.
Aos 16 anos recebeu um convite de Roberto Filipelli, que foi depois
diretor da Globo em Londres, para fazer com ele o "Jornal
do Lar ". Samuel Wainer, logo recrutou Mário para
escrever no jornal "Última Hora". Desde que assumiu
a careira de escritor conheceu o sucesso com diversos livros,
novelas, peças, roteiros, etc., tendo sido agraciado com
vários prêmios nacionais e internacionais. Atualmente
mora em São Paulo e diz que gosta de escrever de manhã
e " careta ", uma herança adquirida nos tempos
em que trabalhou no Banco do Brasil. Escreve, semanalmente, na
revista "ISTOÉ" e no jornal "O Estado de
São Paulo" e prefere as entrevistas por e-mail por
considerar mais divertido.
Extra Classe - No seu livro 100 Crônicas, em um de seus
textos você criou uma etapa da vida chamada envelhescência.
Poderia nos explicar melhor do que se trata. Você é
um envelhescente? Como percebeu isso?
Mário Prata - Eu acho que a própria crônica
se explica. Ou não? Na verdade, a gente fica é adiando
a velhice. Agora, por exemplo, que sou um cinquentão, tudo
bem. Mas daqui a poucos anos serei um sexagenário. Esta
palavra é horrível. Tem alguma coisa com sexo, com
incapacidade sexual. Estou pensando em inventar uma palavra nova
para quando chegar lá. Alguma coisa como sessentão,
sessentinha, por aí. Quando eu era garoto um sujeito da
minha idade era um velhinho. Já era avô. Bem, eu
só não sou avô ainda porque os filhos não
quiseram. Mas falando sério, acho mesmo que existe uma
etapa entre a maturidade e a velhice. Dei o nome de envelhescência.
E, nesta etapa da vida, a gente fica mesmo parecendo adolescente.
Até espinha na bunda, pinta.
EC - Teus
últimos livros partem de uma insólita viagem ao
redor do próprio umbigo para falar de coisas comuns a quase
todo mundo. Como sugiram as idéias destes livros?
Mário - Em primeiro lugar o umbigo é comum a
todos nós. Nunca conheci alguém que não tivesse
pelo menos um umbigo. Estes últimos livros, quase todos
eles de textos curtos, são sobre as bobagens, as banalidades
que estão diante da gente e a gente nem percebe. Quando
eu escrevo algo assim, todo mundo diz: mas é claro. Acho
que todo escritor, enquanto artista, tem a capacidade de enxergar
primeiro. Enxergar o óbvio. E quando eu mostro um negócio
que está na cara dele, ele acho que eu sou um gênio.
Mas o gênio é ele, o leitor. Só ofereço
o espelho.
EC - Teu
trabalho tem boa aceitação no mirrado mercado editorial
brasileiro. Você atribui essa aceitação às
sacadas espertas e o domínio do texto ágil, ou à
identificação das pessoas com um escritor que não
tem vergonha de expor a si e a intimidade do próprio leitor
por tabela?
Mário - Acho que a sua pergunta é a minha resposta.
Sacar, agilizar, identificar e ter intimidade. No caso o mais
difícil é o texto que você chama de ágil.
Não é um trabalho fácil. Levei quarenta anos
para chegar a ele. É cheio de técnicas. E o leitor
fica com a impressão que eu estou falando com ele, no ouvido
dele. Mas isso dá um trabalho desgraçado. Um trabalho
muito gostoso, tenho que acrescentar.
EC - Os
Anjos de Badaró, escrito aos olhos do público via
internet, te proporcionou um contato direto com os leitores. Poderia
explicar para nossos leitores o que foi esta experiência.
No que resultou. Houve interferência do público no
teu processo criativo?
Mário - O que aconteceu de mais interessante na escrita
do Badaró foi os leitores (média de 2.500 por dia)
perceberem que o escritor é um ser normal, igual a eles.
Acho que quebrei - para eles - aquele mito da inspiração,
das musas, de raios saindo pela cabeça. Eles ficavam impressionados
porque todo dia eu me sentava aqui e trabalhava. É incrível,
porque ninguém pergunta para um médico se ele trabalha
todo dia. Acham normal. Não existe inspiração.
Existe idéia. Às vezes uma idéia dá
uma crônica. Ou um livro, uma peça de teatro. É
a melhor parte do trabalho: quando se tem a idéia. E ela
nunca aparece quando eu estou no micro. Aparece sem avisar, me
cutucando, dizendo: olha eu aqui. Dependendo da idéia até
agradeço a ela, pois sei quantos reais ela vai me dar,
quantos leitores ela vai cativar. Escritor também gosta
de viver bem...
Quanto à interferência, houve sim. O livro era para
ser muito mais policial do que romântico. Mas as meninas
que acompanhavam foram forçando a barra e o livro acabou
virando uma história de amor.
EC - Você
pretende repetir este tipo de experiência até certo
ponto interativa com os leitores?
Mário - Não. Dá um trabalho desgraçado.
EC - Como as novas tecnologias podem mudar a nossa cultura
de texto?
Mário - Nunca, em tempo algum, os jovens brasileiros
escreveram e leram tanto como hoje, pela internet. Quando uma
mãe diz que o filho fica o dia inteiro no computador, ele
está lendo ou escrevendo, depois de ver umas mulheres peladas
por dez minutos. Ou seja, os jovens estão exercitando a
nossa língua. Outro dia, num sábado, tinham 200
mil jovens em chats. Você pode ter certeza que um por cento
disto (2.000), se quiserem, serão escritores. E estão
lendo e escrevendo sem ser uma ordem dos pais ou uma obrigação
da escola. Estão descobrindo o texto, a leitura e a escrita.
Vários escritores sairão da internet. E não
o contrário, nós entrarmos lá.
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"Daqui
a poucos anos serei um sexagenário. Esta palavra
é horrível. Tem alguma coisa com sexo, com
incapacidade sexual..."
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EC - Em
que segmento da literatura brasileira você enquadraria o
teu trabalho em livro? Você considera o texto bem humorado
uma boa porta de entrada para novos leitores?
Mário - Não sei em que segmento. Humor, talvez.
É uma boa maneira de se chegar ao leitor. Principalmente
os novos leitores, que possam ter a falsa idéia que ler
é chato.
EC - O
que te motiva a escrever? O compromisso com a editora ou a consciência
de que está diante de uma boa idéia.
Mário - Bem, é a minha profissão. Larguei
tudo há trinta anos, achando que poderia viver disto. E
tem dado para quebrar o galho. Escrever para mim é um prazer
muito grande. Jamais pensei, como outros profissionais, em aposentadoria.
Acho que quanto mais maduros ficamos, nos tornamos mais próximos
dos leitores. E quando vem a famosa boa idéia, paro tudo,
fico tendo quase que um orgasmo com ela. Até ficar bem
íntimo dela, saber tudo dela. Dominar a danada.
EC - Você
já esteve alguma vez na Jornada de Literatura de Passo
Fundo? Que tipo de importância você atribui a esse
tipo de evento, ou melhor, a este evento em si?
Mário - Nunca estive em Passo Fundo, mas é como
se já estivesse. Tenho muitos amigos que já foram
várias vezes. Este foi o terceiro convite. Não pude
ir nos outros. Tenho certeza que é o maior (e melhor) encontro
de escritores do Brasil. Estou curioso.
EC - Sobre
o que você vai falar? Dá para antecipar alguma coisa
do que as pessoas vão ouvir em Passo Fundo?
Mário - Vou falar justamente sobre o ofício
do escritor. Derrubar a idéia antiga que se tem dos escritores.
Quero dizer que somos absolutamente normais, apesar que não
ser qualificados no imposto de renda. Lá, somos assemelhados.
Pode? Talvez eu fale também de um projeto de uma faculdade
de escritor. Uma idéia que venho alimentando com carinho.
E antes que alguém diga que é muita pretensão
minha querer ensinar os outros, já vou avisando que quero
fazer esta faculdade para estudar nela.
EC - Quem foram os autores que mais te influenciaram? De que
forma isso ocorreu?
Mário - Passei toda a minha infância e adolescência
numa pequena cidade do interior paulista, Lins. Não tinha
livros lá. Em compensação chegavam as revistas
Cruzeiro, Manchete e o jornal Ultima Hora. E, para sorte minha,
os maiores cronistas brasileiros chegavm com estas revistas. Paulo
Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, Henrique Pongetti,
Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta.
Foram eles que me fizeram cronistas. Além do Campos de
Carvalho é claro. Que, por sinal, era meu primo.
EC - Tanto
em novelas como Estúpido Cúpido como em tua literatura,
sempre ficamos com a sensação de uma carga autobiográfica
forte. Essa impressão é verdadeira? Se é,
você faz isso de forma consciente desde o início?
Como funciona teu processo de filtragem destas verdades tuas em
um trabalho de ficção?
Mário - Tem muito de autobiográfico, sim. Mas
acho que não é uma autobiografia minha, pessoal,
e sim de toda a minha geração. O pessoal que nasceu
nos anos 40 e entrou na década de sessenta (a que mudou
tudo) com 14 e saiu com 24. Tudo que aconteceu de importante no
século XX, foi nesta década. Em termos artísticos,
científicos e políticos. Religiosos, também.
Isto marcou muito a minha geração.
EC - Tuas
entrevistas e teus textos passam uma idéia de pessoa descontraída
e de bem com vida. De alguém que vê as coisas sem
muita complicação. É assim mesmo, ou essa
é a imagem que você gosta de mostrar? Por outro lado,
também deixa transparecer uma certa "áura"
de operário do texto, de seriedade no trabalho. De alguém
disciplinado e que gosta muito do que faz. É isso mesmo,
ou é tudo bobagem e especulação de entrevistador
babaca?
Mário - Concordo com tudo isso. Sou um cara simples
e sério, quando se trata de trabalho. Tua pergunta é
um resumo de mim mesmo. Nada de babaquice, cara.
EC - Quais
são teus projetos em andamento? Dá para falar?
Mário - Estou participando de um projeto da Editora
Objetiva, chamado Cinco Dedos de Prosa. Com mais Verissimo, Cony,
Fernanda Young e Manoel Carlos. Cada um escreve sobre um dedo.
O meu é o mindinho. Estou sabendo tudo sobre o mindinho.
Você sabe, por exemplo, porque tem uns caras que deixam
a unha da mindinho crescer? Eu sei... E posso te garantir que
não é para limpar nem o nariz nem a orelha. Me aguarde.
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