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Sobrevivendo
no inferno
AE
Em São
Paulo, conseguimos entrevistar via fax, com consentimento do diretor
da Penitenciária Estadual de São Paulo, Jorge Luiz
Gonçalves, cujo pseudônimo é Luiz Alberto Mendes,
autor de Memórias de um Sobrevivente - Editora Companhia
das Letras. Cumpre pena há 29 anos. Como no Brasil o tempo
limite de reclusão é 30 anos, deve sair em condicional
no próximo ano. Sua trajetória não é
diferente: ingressou na criminalidade ainda criança e de
lá saiu para as grades. Porém seu livro não
tenta explicar os motivos que o colocaram na vida do crime. Tenta
não ser auto indulgente. Busca entender por que se deixou
seduzir pela atraente vida criminosa enquanto outros tiveram opções
diferentes. Na mesma semana em que nos concedeu esta entrevista,
havia dado outra para um grande jornal da capital paulista. Desta
vez, Mendes não estava mais nas páginas policiais.
Tratava-se de uma matéria de cultura, por conta do lançamento
de seu livro. Conquistara o status de autor, mesmo preso já
não era mais tratado apenas com um marginal. Mas o que o
distingue dos demais? A capacidade de se comunicar. Assim como Félix,
Heloísa e Marli, Mendes foi cativado pela literatura. Infelizmente,
só tem contato com jornais via fotocópias enviadas
por carta. Aqui não entra jornal, explica.
Extra Classe - A que você atribui a motivação
de escrever, apesar de estar preso?
Mendes - Os livros me salvaram e salvam diariamente de muitas
angústias, depressões e desesperos cotidianos. Escrever
foi uma conseqüência e saída para tudo o que acumulei
de dor, sofrimento e conhecimento. Humanizo-me escrevendo, entendo-me
escrevendo.
EC - Se você fosse um homem livre teria este mesmo interesse
pela literatura e pela escrita?
Mendes - Como praticamente nunca fui livre, é difícil
responder. Talvez escrevesse mesmo assim.
EC - Você considera seu estilo direto e seco uma conseqüência
das condições em que desenvolveu suas habilidades?
Mendes - Sem dúvida é uma questão de estilo.
Gosto de minha literatura nua, despudorada até, com pouca
adjetivação e períodos curtos. Trabalhei este
estilo por longos anos escrevendo cartas. Na verdade, considero
meu texto limpo e não seco como o de Graciliano Ramos. Há
quem identifique doçura no meu texto.
EC - Como surgiu teu interesse pela leitura?
Mendes - Cumprindo sanção disciplinar na cela-forte
desta penitenciária.
EC - E em publicar o que escrevia?
Mendes - Em 1989, quando escrevi a primeira versão de
Memórias de Um Sobrevivente.
EC - Qual o maior problema da cadeia hoje?
Mendes - A explosão demográfica nas prisões,
se é que se pode dizer assim, completou o quadro de abandono
a que foram relegadas as penitenciárias em São Paulo,
que é o que conheço. Hoje, são meros depósitos
em que as pessoas são enterradas de pé. Não
há o mínimo investimento na ressocialização
do preso. A cultura desapareceu das prisões. Restou a cultura
do crime, em que o livro tem pouca penetração, já
que é clandestina, marginal.
EC - Como foi teu processo de inclusão na literatura?
Mendes - Primeiro foram os romances, depois fui reunindo condições
de entendimento para livros mais complexos. Hoje leio tudo, mas
seleciono pela qualidade. Dou preferência à literatura
atual, moderna. Conheço os clássicos, mas como leio
somente por prazer, fico com o que me agrada. Sou apaixonado por
filosofia principalmente dos existencialistas e do Grupo de Frankfurt.
EC - Que livros te cativaram?
Mendes - Escuta Zé Ninguém, do Reich;
Ode à Liberdade, de Fromm; Eros e Civilização,
de Marcuse; Um Homem, de Oriana Falacci; Os Mandarins,
de Simone de Beavoir; A Peste, do Camus; Metamorfose,
do Kafka; República, de Platão e O Pequeno
Príncipe, do Exupéry.
EC - É possível, mesmo preso, abstrair totalmente
da própria realidade e produzir uma obra que não faça
referência ou carregue o peso da condição vivida
pelo autor?
Mendes - Creio que sim. Escrevi muitos contos que nada tinham
a ver com a minha condição. Faço ensaios, tentativas
filosóficas. escrevo textos sobre rock, blues. Escrevo sobre
tudo o que a leitura do mundo me sugere. Mas por outro lado, me
fundamentei para discutir o tema sobre o qual conheço mais
e minha condição está ligada a isso. Li tudo
que pude sobre criminologia, penso e questiono sobre tudo o que
vivi. O Memórias de um Sobrevivente foi um exame de
profundidade que realizei em meu passado. Somente depois é
que foi colocado de uma forma literária. Reescrevi três
vezes. Mas acredito, sim, que é possível abstrair.
Escrevi até contos infantis que um colega aqui da penitenciária
ilustrou. O que acontece é que no momento não quero
essa abstração. Sinto-me compromissado com a tragédia
carcerária e com a gurizada da Febem.Olho para as janelas,
grades; olho para a porta, ferro bruto com trancas. Como vou abstrair?
Agora mesmo passou um guarda me contando como se fosse gado.
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A
rotina da prisão é como a de um
formigueiro. Restringe, atrofia e
reduz a vida a um espaço
comprimido. Ler mexe com a
sensibilidade, aguça o raciocínio,
alimenta a alma e a vida
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EC - Quando você escreve, existe um sentimento de liberdade?
Mendes - De certo modo, sim. Criar é maravilhoso, particularmente
no terreno da ficção total, invenção,
dar asas à imaginação. Iniciei uma história
esta semana que simplesmente está me eletrizando, me enchendo
de motivação pela vida. Sinto-me em febre criativa,
realizando-me no que escrevo. Se liberdade tem a ver com isso, então
sim. Mas há muito mais que isso. Filhos, por exemplo.
EC - A literatura te faz um homem livre?
Mendes - Não. Até para receber meus direitos autorais
está difícil, pois é extremamente dificultoso
tirar o meu CPF. Viajo no que crio, mas é só no momento
da invenção.
EC - Você considera importante que se façam oficinas
e concursos literários entre a população carcerária?
Mendes - Mais que importante. É necessária a interação
do preso com a comunidade e a arte enseja isso.
EC - A literatura liberta? Como?
Mendes - Liberta no sentido que amplia horizontes. A rotina
da prisão é como a de um formigueiro. Restringe, atrofia
e reduz a vida a um espaço comprimido. Ler mexe com a sensibilidade,
aguça o raciocínio, alimenta a alma e a vida. É
uma higiene mental para manter os canais mentais limpos e em funcionamento
para desenvolvimento natural da inteligência. Minha vida tem
sido meus livros, meus textos.
EC - Quais os teus planos?
Mendes - Agora, por exemplo estou em uma fase criativa. Ontem
comecei mais uma história. Minha primeira ficção
total e estou febril por definir personagens, espaços, pensamentos
e ações. É meu quarto livro. O segundo já
está digitado e na mão da editora para avaliação.
O terceiro é de contos e está em fase de revisão
e seleção de textos para a montagem. Passo o tempo
todo lendo ou escrevendo, aguardando o domingo para ver meus filhos.
Planejo uma carreira de escritor e professor. Quero escrever com
profundidade. Defender teses. Investir todo o meu ser no que vier
a escrever. Quero poder ensinar e participar de movimentos sociais,
particularmente os que dizem respeito aos menores de rua.
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