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A zona cinzenta
Nei
Lisboa

Dediquei a coluna do mês passado a um tema - as denúncias
na área da cultura - que me parecia importante que viesse
à público e que, ao mesmo tempo em que o Extra Classe
saía, explodiu e tornou-se o assunto da hora na cobertura
política local. Gostaria de ser profeta e muito lido, mas
a realidade me chama a quase lamentar a escolha ao perceber que
a questão estava destinada a ir ao ar de qualquer jeito.
É claro que é ótimo que tudo venha à
tona e seja investigado, mas também dói na alma
(ou será na vesícula?) ver gente com os dois pés
enterrados na ditadura vampirizando o PT num tom de porta-voz
de convento. O PT, quando contradiz a idéia propagada de
não ser um partido igual aos outros, arrisca um passado
de honestidade e idealismo - que não é mentira.
Mais ridícula me parece a posição de alguns
plantonistas ansiosos por um indício de que o partido seja
corrupto como eles próprios o foram a vida inteira.
Desde que deixou, e já faz tempo, de ser uma causa e tornou-se
um dos grandes partidos políticos brasileiros, estava obviamente
escrito que o PT passaria a sofrer dos males e dos vícios
que o poder propicia. Não há surpresa nenhuma em
encontrar desvios e irregularidades entre um contingente de seres
humanos encarregados da administração pública,
e o único problema da infeliz tese do Giannotti sobre uma
zona cinzenta de amoralidade na política é que ela
não é um diagnóstico - é uma prescrição.
Também não custa lembrar que, ao menos enquanto
não descobrirem que o Em Cena alimentava contas de milhões
de dólares nas Ilhas Cayman, os escândalos do governo
federal e do congresso continuam a merecer destaque e cobranças
de explicações.
De mais a mais, ruim mesmo é assistir à conversão
do Paulo Betti ao teatrólogo Fernando Henrique, com um
cheque numa mão e a outra esgrimindo uma argumentação
de moça ofendida, a de que o Lula não vai ao teatro,
ou melhor, não vai ao teatro dele. Uma boa resposta do
Lula teria sido a de que não é teatro, é
cinema, esse filme eu já vi muitas vezes e tem um nome
feio pra caramba. E, pra terminar, uma boa notícia: custei
a entender o que o Caetano Veloso queria dizer com "a verdadeira
Bahia é o Rio Grande do Sul", até que li, na
entrevista para o Arthur de Faria, a declaração
dele de que nunca simpatizou com o comunismo por não concordar
com a idéia do poder centralizado e monopolizador dos meios
de comunicação. E aí... pimba, eureka! Ele
quer se mudar de Salvador - e pode vir morar aqui!
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