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A história
cantada
Foto:René
Cabrales
Bota
o retrato do velho outra vez. Bota no mesmo lugar. O sorriso do
velhinho faz a gente trabalhar. A letra da canção
Retrato do Velho composta no início dos anos 50 por Haroldo
Lobo e Marino Pinto, que comemorava a volta de Getúlio Vargas
ao poder, é uma das evidências de que sempre a música
ilustrou, seja por meio de ironia, poesia ou metáfora, alguma
fase da nossa historiografia. Partindo desse princípio é
que surgiu o livro Brasil Século XX Ao pé da
letra da Canção Popular ( Ed. Nova Didática,
200 páginas), lançado recentemente pela professora
de geopolítica Luciana Salles Worms e pelo professor de português
Wellington Borges Costa, o Wella, ambos de cursos pré-universitários
de Curitiba. Trata-se de um livro de História do Brasil
do século XX, no qual a narrativa utiliza como prova documental
uma das mais expressivas manifestações culturais da
nação brasileira: a sua música, explica
Wella.
Ana Esteves
e
acordo com Wella, o livro é fruto de experiências
em sala de aula. Há alguns anos, passou a constar,
no programa da prova de história dos grandes vestibulares,
a cultura popular brasileira dos anos 50, 60 e 70. Em função
disso, começamos a ministrar palestras recheadas por imagens
e farto material fonográfico, e foi justamente a eficiência
e a aceitação de nossa abordagem que nos levou a
transformá-la em livro, relembra o professor.
Brasil Século XX está dividido em cinco períodos,
sendo que o primeiro tem como centro a Revolução
de 1930. Explicamos os trinta primeiros anos do século,
auge e decadência do governo das oligarquias e os 15 anos
subseqüentes até o fim da Segunda Guerra Mundial e
do Estado Novo, quando se solidifica a nacionalidade brasileira
com importante contribuição do rádio de uma
maneira geral e da música de modo especial, explica
Luciana. O nome do capítulo, Maldito Violão,
surgiu inspirado na época, em que portar o instrumento
dava cadeia, pois o samba era marginalizado. Poderíamos
dividir o livro de várias maneiras, mas resolvemos recorrer
a metonímias e criamos os títulos dos capítulos
subordinados à estética do período em questão.
O segundo período compreende os anos de 1945 a 1961
da renúncia de Getúlio Vargas à de Jânio
Quadros. O centro estético aqui é o movimento da
Bossa Nova, seus antecedentes e seu apogeu, durante o governo
de Juscelino Kubitschek. É Bendito Violão,
pois a Bossa Nova conferiu um status de elegância ao instrumento,
diz a professora.
Mas, em nenhum outro período da história, a música
foi tão determinante para a definição de
posturas ideológicas, como no que vai da renúncia
de Jânio Quadros (1961) ao decreto de anistia aos exilados
políticos (1979). Estudamos a década de 60
com o cenário musical dividido em três: a música
de protesto, a Jovem Guarda e o Tropicalismo. E na década
de 70, a Contracultura e a resistência à censura,
diz Wella. É a fase Maldita Guitarra, já
que o instrumento era considerado pelos adeptos da música
de protesto, símbolo de alienação e subserviência
ao imperialismo norte-americano.
A partir de 1980, quando inicia o capítulo Bendita
Guitarra em função da explosão
do rock nacional , são abordados temas como o pluripartidarismo,
o movimento pelas eleições diretas, em 1984, até
a eleição de Fernando Collor em 1989. O quinto
e último capítulo vai do impeachment de Collor,
às duas eleições de Fernando Henrique Cardoso,
momento de muitas tendências musicais, em que muito se tem
falado em Globalização. O capítulo
é intitulado Videoclipe e MP3.
O livro conta com inúmeras canções. Entre
elas, Wella destacou O Bonde São Januário (Ataulfo
Alves e Wilson Baptista), Presidente Bossa Nova (Juca Chaves),
Ouro de tolo (Raul Seixas), Brasil (Cazuza, George Israel e Nilo
Romero) e Pela internet (Gilberto Gil), que fecha o ciclo do século,
estabelecendo intertextualidade com a canção Pelo
telefone, que também aparece no primeiro capítulo.
| Arte
como recurso didático |
Em
função dos temas trabalhados no livro - cultura,
música e história os autores o qualificam
como uma obra que pode ser apreciada pelo público em
geral. Não tivemos a preocupação
e nem mesmo o interesse de que fosse uma linguagem acadêmica.
Pelo contrário. Nossa militância pedagógica
sempre se deu em função do vestibular. Sempre
trabalhamos em cursinhos, e buscamos uma linguagem bastante
descontraída.
Os autores revelam ainda já terem estudado algumas
possibilidades de dar prosseguimento à idéia.
Uma delas seria amplificar a pesquisa de algum capítulo
do livro em volume único. Outra, seria a História
temática, tão em voga hoje em dia. Um exemplo
que nos ocorreu à época da Copa do Mundo foi
elaborar alguma coisa unindo música e futebol, mas
tudo é muito incipiente ainda e preferimos esperar
para conferir a aceitação desse livro,
afirma Luciana. A professora conta que a idéia de usar
a arte para ilustrar disciplinas escolares tem feito muitos
adeptos. Temos conhecimento, por exemplo, de professores
de Física que utilizaram a letra da canção
Índios, do Legião Urbana, para tratar
de ótica e reflexão no espelho. Ou professores
de Geometria que se servem de telas de Picasso. Há
ainda professores de Português, que lançam mão
de sinfonias para demonstrar a recorrência de um tema
em uma redação, ou de pinturas para ilustrar
a estética de um período literário que
se está estudando. O fato é que a arte e a ciência
não se excluem, podendo uma estar a serviço
da outra, completa. |
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