Museu e educação

A preocupação dos museus com o público visitante e com seus diferentes níveis de extensão tem como resultado a busca de estratégias de compreensão do que é exposto ou das diferentes temáticas com as quais os mesmos trabalham.

Três questões articulam a idéia de museu e educação: Qual o papel dos museus neste momento em que passamos por uma crise da memória e que conseqüências têm na institucionalização dessa memória? Quais as contribuições que o museu pode aportar para o processo educacional? Quais as tensões referentes a essa aproximação Cultura e Educação?

José do Nascimento Junior *

Inicio explorando duas definições conceituais do que seja museu: O museu como fenômeno cultural, ou seja, como representação de uma cultura e como expressão da cultura ocidental. Como afirma Mário Chagas (1996), o museu “é um espaço de trocas, de relação e de preservação de documentos, que só possuem sentido se para eles houver um uso social”.

A partir desta definição, podemos dizer que o museu não é um espaço acabado, restrito a quatro paredes para existir. Ele vem buscando cumprir seu papel social, muito embora em sua maioria ainda restrito ao plano conceitual.


Devemos então pensar novos paradigmas da museologia, uma vez que a metodologia tradicional pensa o museu como gabinete de curiosidades ou como, apenas, expositor de belas-artes.

Pensar os museus nos marcos da nova museologia, construir um museu dialógico significa deixar cada vez mais em aberto as possibilidades de interpretação do público em relação ao que está exposto, criando assim um espaço para o pensamento crítico e criativo, capaz de motivar os visitantes.

Nesse sentido, é preciso repensar o conceito de museu e as possibilidades cognitivas de seu espaço. A busca de novas técnicas museográficas e expositivas, em interlocução com as Ciências da Informação, colocadas ao estímulo do pensamento crítico, poderá romper com a pasteurização ou mesmo com a espetacularização das exposições, onde o valor dos cenários torna-se maior que o dos objetos a serem expostos, que o discurso museológico e que a importância do público.

O que está em questão, quando fazemos essa proposta de um museu dialógico, é refletir sobre essas instituições, num momento de crise da memória, a partir do ‘dilema de Hermes’, da tradução, da interpretação, da construção da alteridade, da compreensão do ‘Outro’. Trata-se de um dilema de como transformar os museus em verdadeiros “espaços de mediação cultural”, da “fusão de horizontes”, conforme nos colocam os hermeneutas. Essas são tarefas daqueles que atuam nessas instituições – trabalhar criativamente para a construção de uma nova visão na qual o espaço constitua a dialética entre o interior e o exterior, no sentido bachelariano de uma “imaginação poética”.

Mudanças na linguagem também implicam outra noção de espaço e tempo. Adaptar a ação dos museus na lógica atual da cultura de massa significa sempre pensar o sucesso ou não de uma exposição, mais pela quantidade de público do que pelas questões que ela nos coloca. O tempo a ser vivenciado nos museus não pode ser o tempo fugidio da sociedade do capital, “na qual tudo que é sólido desmancha no ar”,como nos diz Marshal Berman, parafraseando Marx. Devemos buscar o tempo do Fleuners de Bauldelaire: caminhar como um passante pelo museu, sem a noção do relógio. Apenas com a noção do tempo da memória, relativizado pelo olhar poético do que está exposto, ou seja, o tempo de cada um de nós. Essa referência anterior aponta para pensar o museu como espaço de educação não-formal, rompendo com uma visão de museu apenas como um recurso pedagógico a mais para professores e alunos. Significa dizer que tanto os museus quanto a escola têm que mudar radicalmente sua visão frente a essa problemática. É colocada para os museus a tarefa de ampliar e renovar seus serviços pedagógicos, oferecendo um conjunto de ações que abarque todos os públicos, do infantil ao dos especialistas e professores. Os estudos de perfil dos públicos freqüentadores de museus indicam para a seguinte estratificação (dados do Setor Pedagógico do Museu Nacional Rainha Sofia, Madri, Espanha): os especialistas; os assíduos; os esporádicos; os cativos; os coletivos; os que vão. Para cada um desses devemos pensar uma política pedagógica, à luz das suas expectativas:

Os especialistas – esses muito pouco participam das atividades educativas e não necessitam de mediadores entre eles e o que está exposto.

Os assíduos – são aqueles usuários cotidianos do museu e seus serviços, têm um bom nível de conhecimento e sempre procuram ampliá-lo.

Os esporádicos – vão uma vez que outra, muito espaçadamente, como, por exemplo, os turistas.

Os cativos – públicos escolares em geral e crianças que vão ao museu não por sua própria decisão, mas conduzidos por adultos.

Os coletivos – estão entre os esporádicos e os cativos, são aqueles que vão empurrados por outros, não iriam sozinhos.

Os que vão – é a grande maioria da população – público em potencial dos museus.

Isso significa dizer que não é possível pensar como tarefas educativas, apenas a superficialidade das visitas guiadas. A relação do museu com a escola não pode ser apenas de caráter eventual, mas sim de estabelecer programas educativos permanentes, que busquem dar historicidade aos objetos expostos, e não a reificação dos mesmos em uma relação apenas de contemplação. Esta realidade, não proporciona uma visão crítica e nem coloca à disposição do público as diferentes possibilidades interpretativas.

Na caminhada de mudança da escola contemporânea, devemos articular a idéia de cultura como elo entre a mesma e o museu. E, todos nós – educadores, artistas, museólogos e trabalhadores em museus em geral – devemos buscar as respostas, mesmo que sejam parciais, que tenham a gênese da mudança na direção da construção de uma sociedade mais fraterna, mais humana e mais democrática.


Referências Bibliográficas: Chagas,
Mário – Museália, RJ, JC Editora, 1996

* Antropólogo, Diretor do Museu
Antropológico do RS, Diretor do Memorial do RS e Coordenador do Sistema Estadual de Museus SEM/RS



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