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Imperialismo
voluntário
O
que se precisa hoje é de um novo tipo de imperialismo,
que seja aceitável ao mundo dos direitos humanos
e dos valores cosmopolitas, o imperialismo pós-moderno
voluntário da economia global. No passado,
os impérios, impuseram suas leis e seus sistemas
de governo. Hoje, trata-se de um movimento voluntário
de auto-ajuda.
Robert Cooper, O novo Império
não ataca?, Carta Capital, 1º de maio
de 2002 |
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José
Luis Fiori *
ma
incógnita ficou no ar, há muitos anos, quando
Tony Blair comunicou em Washington, ao lado de Bill Clinton,
no dia 5 de fevereiro de 1998, a criação da sua
Terceira Via. O anúncio foi feito na mesma entrevista
coletiva em que os dois tornaram pública sua decisão
de começar uma segunda guerra contra o Iraque (que acabou
sendo transferida), e de aprovar um Acordo Multilateral de Investimento
(o que ainda não ocorreu) regulando a soberania do capital
financeiro internacional, frente ao poder dos estados nacionais
e dos seus sistemas jurídicos locais. Na época,
muitos consideraram este anúncio conjunto, uma mera coincidência
ou fruto da rapidez e teatralidade própria destes encontros
presidenciais bilaterais. Quatro anos depois, o senhor Richard
Cooper - conselheiro político internacional do primeiro-ministro
Tony Blair se encarregou de explicar em poucas palavras,
num trabalho recém-publicado no The Observer
e também no Brasil a relação congênita
entre a Terceira Via, a globalização financeira
e o projeto de construção de um novo tipo
de imperialismo aceitável ao mundo dos direitos humanos
e dos valores cosmopolitas. Sua publicação
provocou enorme polêmica entre os trabalhistas ingleses,
por causa de sua natureza normativa. Mas a verdade é
que o artigo de Cooper não inventa nem propõe
nada de novo, apenas racionaliza e justifica, do ponto de vista
moral e estratégico, uma ordenação hierárquica
e uma ação disciplinar do poder mundial que já
existe e vem sendo praticada há muito tempo, de forma
explícita, e às vezes truculenta, por parte dos
Estados Unidos e seus principais aliados.
Richard
Cooper, como todo bom inglês, poupa palavras e vai direto
ao ponto, sem receios nem subterfúgios. Para ele, as
Grandes Potências se tornaram honestas e não
querem mais lutar entre si. Compõem agora um novo
clube, dos estados pós-modernos, pacíficos
e colaboradores, mas que são uma minoria obrigada a
exportar estabilidade e liberdade para os demais estados
que nasceram da decomposição do velho imperialismo,
e onde reina quase sempre a barbárie, o clube dos estados
que ele chama de pré-modernos. Na relação
entre estes dois mundos, Robert Cooper vê a origem e a
necessidade de três novas formas de imperialismo no mundo:
um primeiro imperialismo cooperativo, entre as nações
pós-modernas, que já foram chamadas, no século
XIX, de civilizadas; um segundo imperialismo
baseado na lei das selvas, que rege as relações
entre os estados civilizados e os estados pré-modernos
ou fracassados, incapazes de assegurar os seus próprios
territórios nacionais; e finalmente, um terceiro tipo
de imperialismo, que Cooper chama de voluntário
da economia global, gerido por um consórcio
internacional de instituições financeiras como
o FMI e o Banco Mundial e apoiado na aceitação
por parte dos subordinados deuma nova teologia da ajuda
que enfatiza a governança e defende o apoio aos estados
para que se abram e aceitem pacificamente a interferência
das organizações internacionais e dos Estados
estrangeiros. Depois disto, ficou mais fácil compreender
hoje que, naquele fevereiro de 1998, Tony Blair e Bill Clinton
estavam de fato anunciando o nascimento da Terceira Via, e,
ao mesmo tempo, defendendo as duas novas formas de imperialismo
de que nos fala Cooper: o da lei da selva na relação
com os estados pré-modernos e o da lei
do mercadocom relação aos estados e governos
bem comportados, como foi o caso da América Latina nos
anos 90. Nada que seja novo ou surpreendente para qualquer latino-americano
menos desavisado. Mas, apesar disto, esta nova realidade descrita
por Cooper foi objeto de uma permanente negação
por parte dos intelectuais e políticos social-democratas
brasileiros que conceberam e comandaram, nestes últimos
oito anos, a política internacional de inserção
econômica e diplomática do país. Por isto
soaria divertido, se não fosse lamentável, assistir
a um teórico e estrategista inglês da Terceira
Via, ensinando aos seus colegas, social-democratas brasileiros,
o que eles nunca quiseram ouvir nem entender: o bê-á-bá
do novo imperialismo que acompanhou a globalização
capitalista destas últimas décadas.
Este tema ocupou um lugar central na crítica intelectual
e política ao projeto internacional do governo Cardoso.
Ele mesmo participou desta discussão, em vários
momentos, durante a década de 1990, denunciando a visão
conspiratória dos críticos que sublinharam
a dimensão política e imperial do processo de
globalização e defenderam a necessidade de estratégias
nacionais diferenciadas e ativas de inserção no
processo da globalização econômica. Exatamente
o que seu governo não fez, submetendo-se a uma terapia
indiferenciada e transformando-se num caso paradigmático
de auto-imposição voluntária
da teologia da ajuda recomendada pelos organismos
multilaterais e pelos governos dos estados pós-modernos.
Nestes oito anos, o presidente brasileiro não perdeu
oportunidade de denunciar a ignorância dos seus críticos,
incapazes de entenderem a nova economia, a sociedade em redes,
a globalização e as oportunidades abertas pelo
avanço tecnológico pela expansão dos mercados
desregulados e pelas novas formas de governança global.
Com a ascensão de Bush e os atentados de 11 de setembro,
os fatos se precipitaram e a história real jogou rapidamente,
na lata do lixo, artigos e mais artigos, livros e mais livros
sobre o fim do interesse nacional, das fronteiras, dos estados,
da política, da velhas formas de exercício do
poder militar, e sobre o anacronismo das visões conspiratórias
e imperialistas do mundo. Foi quando os intelectuais tucanos
começaram a relembrar velhas lições que
haviam esquecido nos seus momentos de maior ingenuidade e embevecimento
com o renascimento globalitário e com a força
incontrolável dos mercados e das redes. Bastou uma rápida
retomada militar americana do comando político mundial
e uma crise generalizada da nova economia, para
que se confirmasse a impressão de que estes intelectuais
perderam uma década falando bobagem e fazendo digressões
sobre fantasias. Hoje despertam do seu mundo de ilusões
atordoados com a volta da guerra, das armas e do poder político
ao epicentro da ordem mundial e assustados com as novas diretrizes
da política internacional norte-americana. E é
neste estado de torpor mental que foram obrigados a ouvir um
inglês intelectual orgânico da Terceira Via
defendendo o rigor ético e a necessidade prática
de um novo tipo de imperialismo pós-moderno,
seja na sua versão mais suave e consentida, seja numa
versão mais selvagem e violenta. Consciente ou inconscientemente,
estes intelectuais sempre quiseram diluir ou esconder a importância
dos conflitos de interesses entre estados e classe sociais na
explicação da ordem mundial pós-guerra
fria. Erraram redondamente e hoje estão sendo obrigados
a refazer seus conceitos e suas análises. Nesse sentido,
se tudo fossem só idéias e papéis, o mais
fácil, rápido e indolor seria esquecer todas as
bobagens globalitárias que foram ditas na década
de 90, para não perder mais tempo do que já se
perdeu lendo o palavreado utópico e as reflexões
ingênuas dos nosso porta-vozes locais desta auto-imposição
suave defendida pelo senhor Cooper.
Mas esta não é uma questão meramente acadêmica
ou teórica, trata-se de um erro político e econômico
que teve conseqüências trágicas em quase toda
a América Latina. Basta olhar, neste momento, para a
Argentina, sem esquecer que, nestes últimos oito anos,
apesar da sua obediência cega, o Brasil se transformou
numa economia praticamente estagnada, do ponto de vista do crescimento
da renda per capita da sua população. Mas agora
não bastam discursos contra as agências internacionais
nem nariz torcido contra a Administração Bush,
sobretudo partindo de um governo que seguiu fielmente suas recomendações
durante seus oito anos de mandato, e que foi salvo pelo FMI
e pelo governo norte-americano, na hora da quebra, em 1998.
Neste momento, não é elegante e nem basta cuspir
no prato em que se comeu, é necessário rever toda
a teoria equivocada em que se sustentou a política econômica
e a política externa brasileira, durante este período
de dócil aceitação da teologia da
ajudae de suas rigorosas prescrições monetárias
e fiscais - passo prévio a uma reavaliação
das políticas, das reformas liberais, e do lugar e papel
cumprido, nesta última década, pelos governos
latino-americanos, dentro deste projeto imperial anglo-saxão
e social-democrata de que nos dá notícia o senhor
Robert Cooper.
Hoje as instituições financeiras e o governo norte-americano
culpam a corrupção argentina e o gasto público
das províncias, pelo fracasso das políticas e
reformas liberais que eles mesmos patrocinaram e apoiaram durante
toda a década de 90. Como relembra Joseph Stiglitz, em
artigo publicado no Washington Post do dia 12 de maio recém-passado,
durante todo este período, a Argentina foi classificada
pelos analistas dos bancos de investimento e dos organismos
multilaterais como uma economia A-Plus, por haver
cumprido religiosamente todas as recomendações
que lhe foram feitas, sem que jamais alguém tenha falado
em corrupção ou lassidão fiscal. Como não
é crível que estes pecados tenham sido cometidos
da noite para o dia, é mais do que hora de reavaliar
os princípios teológicos que destruíram
completamente a sociedade e a economia Argentina, para não
falar dos demais milagres latino-americanos da década
passada.
O que espanta, nesta situação, é ver o
Ministro da Fazenda brasileiro cobrar dos candidatos às
eleições presidenciais uma declaração
conjunta de lealdade incondicional à mesma teologia
que destruiu a Argentina. Para o Ministro só existe esta
política econômica e ela não pode nem deve
ser objeto de uma discussão democrática, porque
pertence ao campo das verdades teologais. Mas isto não
é uma novidade, pois já faz anos que o Ministro
repete monotonamente esse mesmo sermão. O que assusta
é quando ele sai do seu normal e se exalta, brandindo
sua bíblia como se fosse inquisidor, uma espécie
de Torquemada da teologia da ajuda.
* Cientista
Político
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