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Augusto
Boal
O
mercantilismo é o fim da arte
Augusto
Boal é conhecido em todo o mundo como um ator e diretor de um
teatro radical. Daqueles que vai ao fundo das coisas, que faz
experiências, que não tem medo de transformar o estabelecido.
E é conhecido também, principalmente, por ser o criador do chamado
Teatro do Oprimido. A fama e o reconhecimento são atestados pelas
dezenas de publicações internacionais e páginas na Internet que
fazem referência a Boal, um dos convidados da 8ª Jornada de Literatura
de Passo Fundo. Lá, ele apresentará uma de suas famosas aula-espetáculo.
Nesta entrevista exclusiva ao Extra Classe, o diretor fala de
censura, do comércio na arte, da sua experiência em teatro e do
sucesso da sua última montagem, Carmen (em cartaz no Rio de Janeiro)
César
Fraga
Extra
Classe - O senhor estará presente na Jornada Nacional de Literatura
de Passo Fundo com uma aula-espetáculo. O que vem a ser isto?
Augusto Boal - É uma coisa que faço muito na Europa e Estados
Unidos e que tem dado bastante certo. É uma experiência bem divertida,
tanto para mim como para o público. Nela eu tenho condições de
externar a visão que tenho de teatro e de falar do Teatro do Oprimido
por meio de fatos reais, que ocorreram comigo ou que presenciei.
É uma maneira de contar histórias, todas relacionadas com o ‘fazer
teatro’. É o Augusto Boal imbuído da função de conferencista,
utilizando o recurso teatral para se fazer entendido. De certa
forma, é o homem utilizando a linguagem dramática para se fazer
compreender.
EC
- Além da sua participação na Jornada de Literatura, a temporada
da ópera Carmen (de Bizet) é um sucesso no Rio de Janeiro. Como
foi produzir um clássico depois de tantas experiências radicais?
Boal - O que nós fizemos foi manter fielmente as melodias
e harmonias originais adaptadas para ritmos e instrumentos brasileiros,
como o samba. O resultado, na minha opinião, ficou fantástico.
Outra transformação fundamental é que a ópera tornou- se muito
mais dramática do que lírica. E, com isso, foram suprimidos ou
encurtados alguns trechos musicais. Bem, o resultado com o público
foi sensacional e gostaríamos de mostrar isso para o resto do
Brasil.
EC
- O que é o Teatro do Oprimido?
Boal - Em si, o Teatro do Oprimido é um teatro sem dogmas
e realizado por meio de um conjunto de exercícios que ensinam
o ser humano a utilizar uma ferramenta que ele já possui e não
sabe. O homem traz esta característica teatral dentro de si. O
que este tipo de teatro faz é liberar esta capacidade e ensinar
à pessoa como dominá-la.
EC
- Esta ausência de dogmas o torna mais universal?
Boal - Universal não diria, mas possível de ser realizado
em qualquer parte do planeta visto
que em toda parte há seres humanos e também há opressão. Por
isso, o Teatro do Oprimido, assim como a pedagogia, filosofia,
psicoterapia e a política, pode ser praticado em culturas totalmente
diferentes, tanto no Brasil como na África. Já existem grupos
que o praticam na África, no Japão, em Hong Kong, na Coréia e
em praticamente todos os países da Europa. A própria cultura
brasileira é especialmente promissora para esta prática, já que
não pode ser caracterizada como uma, mas na verdade milhares de
culturas.
EC
- E o que se quer dizer com esse teatro?
Boal - Não existe isso. O teatro do oprimido não tem uma mensagem
específica. Nunca dizemos faça assim ou faça assado. É um método
de descoberta do desejo e de ensaio de realização deste desejo.
EC
- Como ele surgiu?
Boal - Ele surgiu em São Paulo, no início dos anos 70. Em
sua primeira forma chamava-se Teatro Jornal. Foi quando pela primeira
vez eu trabalhei com um grupo no Núcleo 2 do Teatro de Arena.
Era um espetáculo que ao mesmo tempo ensinava a fazer teatro a
partir de jornal e que procurava dar ao espectador não um produto
acabado, mas os meios de produção. Depois tive uma experiência
na Argentina, com o Teatro Invisível, que é uma forma de utilizar
o teatro dentro da realidade sem revelar que é teatro. Ou seja,
os espectadores intervêm na cena como se ela fosse um fato real.
EC
- Esta proposta de teatro lhe trouxe problemas com o regime militar
logo em seguida. Como fica a relação do artista que se pretende
manter consciente dentro de uma estrutura repressora?
Boal - Só para situar, fui preso em 1971, logo no início do
Teatro do Oprimido. Mas o que deve ser analisado não é o fato
em si, mas como se dá esta relação. Quando se está inserido em
uma estrutura convencional de teatro, a censura se dá de duas
formas. Uma delas é a policial, característica do regime autoritário
que o Brasil viveu a partir de 1964 até a Constituição de 1986.
Bem, esta censura praticamente já não existe e quando surge é
esporádica, um fato aqui ou ali. Aoutra forma existente, e esta
é tão ruim quanto a outra, é aquela que se dá na forma da sedução.
EC
- Como assim?
Boal - O sujeito te diz: se você fizer o que eu quero, ganha
o dinheiro para fazer a produção. Se não fizer, não tem. Este,
infelizmente, é o padrão de censura dominante no Brasil. É a
coerção pelo poder econômico. São as empresas que determinam
o que pode ser feito e o artista não está livre para fazer suas
experiências, ele perdeu este direito.
EC
- O governo chama isso de parceria, não é?
Boal - O governo chama desta forma, mas esta parceria não
existe de fato. É mentira. Uma parceria de fato ocorre quando
os parceiros possuem o mesmo objetivo e força semelhante. Quando
um dos lados é o “todo poderoso” e ao outro não resta opção, fica
difícil.
EC
- O que é isso, então?
Boal - O que está ocorrendo no Brasil é a privatização da
cultura. Os artistas correm atrás de quem quer patrocinar, este
é o normal. Já o patrocinador encara a produção artística como
parte de seu projeto de marketing. Ele nunca vai dar dinheiro
para um projeto de dança, teatro, música, que não seja assemelhado
aos produtos que ele vende, ou que compartilhe da mesma ideologia.
Continua
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