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Augusto
Boal
O
mercantilismo é o fim da arte
EC
- Esta promiscuidade causada pela mercantilização da cultura,
que resultados pode nos trazer a curto e longo prazo?
Boal - A conseqüência é que isso vai tornando a arte ascéptica,
pouco a pouco transformando nossa cultura em matéria plástica,
sem cor, sem cheiro, sem sabor e sem sentido. O que os patrocinadores
geralmente querem é reproduzir um mundo velho, já conhecido e
aprovado. Não se propõe nada. É o fim da arte.
EC
- Se não é arte, como conceituar então este tipo de manifestação
que já está bem arraigado no dia-a-dia das pessoas?
Boal - Não podemos confundir arte com artesanato. Este exemplo
que eu dei está mais para a artesania, que é a reprodução de um
mesmo modelo. Uma vez que estes pseudo-artistas trabalham para
a reprodução do mundo que seus patrocinadores acham viável, e
reprodução não é arte, está explicado. Além disso, existe uma
ironia nisto tudo, que é o fato de muitas vezes se dar o status
de artista às pessoas que perpetuam este tipo de reprodução a
que me referi anteriormente, e se chamar de artesãos os artistas
populares maravilhosos que realizam obras totalmente originais
simplesmente por ser consideradas folclóricas. Mas, só para não
fugir do assunto, queria dizer que a curto, médio ou longo prazo,
a pior conseqüência deste processo é o da esterilização da arte
por meio da reprodução de modelos já consagrados pelo marketing.
EC
- Existe perspectiva para o teatro no Brasil?
Boal - É claro que sim. A gente sempre fica sabendo de grupos
que, mesmo sem auxílio da iniciativa privada ou verbas públicas,
realizam trabalhos com perspectiva semelhante à do Teatro do Oprimido.
Está certo que muitas vezes são estruturas amadoras, mas o importante
é que se faça para que haja alguma espécie de resistência a este
modelo imposto pela globalização. Ela sempre pressupõe que cultura
tem de dar lucro.
EC
- E não deve dar lucro?
Boal - Este pressuposto é dos neoliberais. A cultura, assim
como os bombeiros e os hospitais, tem de ser subsidiada. Senão,
a gente vai acabar como aquelas freiras em Viena, na Áustria,
que matavam os pacientes terminais em um hospital por julgarem
que eles seriam deficitários do ponto de vista econômico. Existem
atividades que são deficitárias por natureza e precisam de subvenção.
O teatro que dá lucro é aquele que é ancorado por uma estrela
ou vedete de televisão, e que geralmente está dentro de uma norma
de sucesso em que tudo gira em torno da estrela. Este teatro
geralmente dá muito dinheiro. Mas é preciso que se garanta condições
para que certas experiências, fora destes padrões, possam ser
desenvolvidas sem esta preocupação.
EC
- O que está ocorrendo não seria uma transferência do raciocínio
neoliberal e globalizante para a cultura?
Boal - É evidente que esta mentalidade se instituiu no meio.
Assim como é evidente que o lucro proporcionado pela arte se dá
de outra forma. Por exemplo: se você enriquecer um produção teatral
expondo a platéia a estímulos plásticos, estará enriquecendo
a forma de pensar do espectador e conseqüentemente gerando um
lucro. Mas um lucro de crescimento humano, de um valor muito
difícil de ser medido já que não se trata de uma mercadoria vulgar.
Neste caso, não se trata de um lucro financeiro, mas humano.
Este lucro existe em qualquer atividade verdadeiramente artística,
em que a estética tem esta capacidade de alargar a capacidade
de percepção do seres humanos. A arte faz o homem mais rico,
mas não de dinheiro.
EC
- Então o êxito comercial desses espetáculos, digamos alternativos,
já é limitado por natureza?
Boal - As chances destes espetáculos obterem sucesso pelo Brasil
afora são reduzidas muito mais pela concentração da mídia no
eixo Rio e São Paulo do que por sua qualidade. O público das
demais localidades é muito influenciado pelos gostos e padrões
reproduzidos por esta cultura televisiva. Temos basicamente dois
pólos centralizadores da informação e da produção em televisão.
Você não vê em rede nacional o evento de Passo Fundo ou de Manaus.
É como se não existisse nada ao sul de São Paulo ou ao norte do
Rio de Janeiro. Não se vê elencos do Rio Grande do Sul ou do
Amazonas na telinha. O que se vê são atores que vêm para Rio e
São Paulo e fazem carreira. É muito difícil até mesmo repercutir
peças de autores que não sejam destes dois centros.
EC
- O senhor poderia antecipar algumas das histórias que vai contar
em Passo Fundo para nossos leitores?
Boal - De forma alguma. Perderia a graça (risos). Só mesmo
lá para saberem do que eu estou falando.
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