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A prova
dos nove
Denúncias
da oposição não alteram experiência
do Orçamento Participativo, que migrou de porto Alegre
para todo o estado
Márcia
Camarano
Carro-chefe
da Prefeitura de Porto Alegre desde que a Frente Popular - capitaneada
pelo PT - assumiu o poder há dez anos, o orçamento participativo
tem sido alvo de estudos em vários países do mundo. O processo
na verdade nunca foi visto com bons olhos pela oposição mas, se
antes os opositores ignoravam o OP insistindo na tese de que ele
passava por cima da democracia representativa, hoje o discurso
é diferente. O orçamento participativo ganhou status de realidade.
Não importa mais saber se ele é legítimo ou não, mas se está sendo
cumprido de acordo com a vontade das comunidades.
O
deputado estadual Berfran Rosado (PMDB), por exemplo, começou
e estudar o OP em 1996, quando era secretário-geral do partido
e integrante do primeiro escalão do governo de Antônio Britto.
Ele sustenta que não tem nada contra a participação popular. “Ao
contrário, sou até a favor”. O deputado não entra na discussão
sobre a legitimidade do processo. “Se ele existe, que bom. Mas
então vamos ver como ele funciona”, desafia.
Berfran
e mais dois colegas de bancada (os deputados Cézar Busatto e
Mário Bernd) elaboraram um estudo baseado na prestação de contas
do orçamento participativo do ano passado. O resultado, um livro
de 68 páginas chamado “Orçamento Participativo 98 - a Manipulação
da Vontade Popular”, se transformou no mais novo antídoto para
o principal projeto petista que, além da capital gaúcha, passou
a se estruturar em todo o Rio Grande do Sul.
O
peemedebista lembra que há três anos recebeu reclamações sobre
obras priorizadas nas runiões do OP que não estavam sendo cumpridas.
“Comecei a acompanhar a prestação de contas analisando as 16
regiões onde a comunidade participa de forma direta”, conta.
O parlamentar detectou que, em 1996, 30% das obras foram executadas
e 44% não haviam sido iniciadas; em 1997, o desempenho caiu:
22% foram feitas e 40% nem começaram. Em 1998, o PMDB decidiu
colocar seus parlamentares e assessores
em campo para acompanhar todas as reuniões de prestação de contas.
“Detectamos
percentuais ainda mais assustadores, já que o desempenho foi
piorando até chegar a 9,52% das obras executadas no ano”, assegura.
Berfran argumenta que a prefeitura divulgou um superávit nas
contas de 1998 de R$ 24,4 milhões, valor que, conforme ele, corresponde
a 57% das obras do OP que não foram iniciadas. “Concluímos que
a prefeitura tinha dinheiro, mas não executou as obras”, diz.
Para
se chegar a esse desempenho, segundo o deputado, restam duas
alternativas: “ou o objetivo do OP não é fazer obras e sim servir
para propaganda política ou falta competência mesmo”, ataca. O
peemedebista acha que o processo não tem transparência e diz
que seu partido quer mobilizar a sociedade para cobrar a realização
das obras. “Queremos que as obras sejam feitas e que eles (a prefeitura)
se sintam mais comprometidos com a execução dos cronogramas”,
explica.
Luciano
Brunet, coordenador em exercício da CRC (Coordenação das Relações
da Comunidade) de Porto Alegre, acha um progresso o fato de a
oposição não estar mais questionando a existência e legitimidade
do orçamento participativo. “Nós também vemos falhas na aplicação,
já que não se trata de um projeto acabado”, ressalva. Brunet
reconhece que há atraso em algumas obras, mas a própria população
está cobrando isso da prefeitura.
O
coordenador ainda esclarece que a administração municipal sofreu
cortes do governo federal este ano, especialmente nos quesitos
moradia e saneamento. Justamente os setores que lideram as listas
de prioridades. Para o dirigente, a oposição não se conforma
com o espaço aberto para a participação popular. “Trata-se de
um trabalho com um alto grau de democracia direta”, sustenta,
acrescentando que as regras de funcionamento são pensadas por
quem participa.
O
OP foi constituído no primeiro ano de Olívio Dutra na prefeitura
(em 1989), começando com cerca de 300 pessoas das lideranças
comunitárias. Ao longo dos anos, o processo foi se moldando
até chegar à fórmula atual, que discute todo o orçamento a partirda
divisão da cidade em 16 regiões e das discussões temáticas.
Segundo avaliação de Brunet, atualmente 40 mil pessoas participam
das reuniõesdo OP em Porto Alegre. “Trata-se de uma experiência
popular que está se multiplicando em diversos cantos do planeta”,
reforça.
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Quem
participa, defende
A Frente
Popular acredita tanto no processo do orçamento participativo
que aposta no seu sucesso também em nível estadual. A Justiça
gaúcha proibiu o governo do Estado de usar a estrutura pública
para sua realização, mas a engrenagem já tomou conta de
muitos municípios.
Íria
Charão, coordenadora de Relações Comunitárias do estado,
órgão ligado ao gabinete do governador Olívio Dutra, conhece
bem o OP pois participou de seu nascimento em Porto Alegre,
há exatos dez anos. “Naquela época, não tivemos uma fórmula
pronta assim como não temos agora. O OP é um processo de
construção e participação popular”, define. Íria trouxe
para o governo gaúcho a experiência vivida em Porto Alegre,
mas salienta que agora a complexidade é muito maior. “Estamos
começando tudo de novo”. O Rio Grande do Sul é dividido
em 22 regiões, conforme a organização dos Coredes (Conselhos
Regionais de Desenvolvimento). A dirigente tem percorrido
todo o estado para acompanhar as assembléias e, desde a
proibição da Justiça, tira o dinheiro para as passagens
de seu próprio bolso. A partir de março foram realizadas
assembléias nos 467 municípios gaúchos.
Quem
participa do processo sente orgulho do papel que está exercendo.
É o caso de Urbano Soares Vaz, um aposentado da construção
civil de 70 anos. Em Alvorada, ele é conselheiroda região
2 (leva as reivindicações da comunidade para a Prefeitura)
e delegado da micro-região 4, que congrega três bairros:
Passo do Feijó, Santa Clara e Germânia. “O Brasil vai fazer
500 anos só de promessa, mas nós aprendemos aqui que, para
mudar, só com a participação de todo o mundo”, ensina.
Urbano
diz que o problema mais sério de seu município são as construções
irregulares, sem qualquer infra-estrutura. Alvorada possui
36 vilas clandestinas. “Os moradores vieram do interior
em busca de trabalho e moradia e foram construindo de qualquer
jeito”, atesta. Em razão desses problemas, nas reuniões
de OP o pessoal pede muito saneamento básico. “Sempre foi
nossa grande luta conseguir isso e o Orçamento Participativo
abriu uma brecha”, diz Urbano, que tem três filhos e seis
netos. Além do OP, ele também aprendeu que é importante
também participar de entidades como a Associação de Moradores
e o Conselho de Pais e Mestres da escola.
Urbano,
um dos primeiros moradores da antiga Vila Dona Teodora,
conhecida por suas “malocas”, ele acredita que para melhorar
as condições de vida da população os moradores precisam
somar esforços. “Para mim, o Orçamento Participativo é
da maior importância, não teve nada melhor inventado até
agora”, testemunha.
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