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O
que há entre o aceitar e o receitar?
Simone
Ourique de Avila*
Nos
espaços escolares, falas inúmeras demonstram a preocupação
dos educadores sobre o que fazer quando as coisas não estão
correndo como o esperado. Esta criança não aprende
pois ... Ou, esta criança aprende mas ... é agitada,
apática, agressiva, distraída, desinteressada, imatura
... Seria por um problema seu? Da família? Do professor?
Ao procurar respostas, os professores podem cair numa armadilha
muito atrativa e muito perversa: fórmulas e receitas que
apresentam uma solução rápida e longe de
sua influência e que, facilmente, possam desconsiderar a
importância de sua intervenção no processo
educativo.
Muitas
situações pedem investigações específicas
e devem ser realizadas por profissionais especializados. Esta
é uma realidade que deve ser reconhecida e devidamente
considerada. Mas mesmo que alunos sejam encaminhados para uma
avaliação diagnóstica, este possível
encaminhamento não deve implicar num desestímulo
no investimento do professor em seu próprio potencial como
educador, nem em buscar através dele a confirmação
de um prévio diagnóstico baseado em pré-conceitos.
Seu papel continua sendo fundamental.
Então,
o que é possível ser feito a respeito disso ainda
dentro do espaço escolar?
Os
professores podem investir no espaço-tempo que lhes pertence,
utilizando-se das ferramentas que possuem, conquistadas através
de sua formação específica, apostando na
relação aluno-professor e nas possibilidades de
ensinar-aprender fruto desta relação. Colocado assim,
a complexidade que envolve o tema nem sempre é percebida
pois está imersa num contexto político-social que
tenta culpabilizar o professor pelos graves e sérios problemas
do sistema educacional brasileiro. Numa auto-defesa do seu trabalho,
o professor pode ser levado a uma explicação acusatória
do outro. Ao tentar escapar deste emaranhado que o enreda, atrapalhando-o
principalmente dentro de sua função específica,
ele pode deixar de investir no âmbito que lhe compete.
Se
não partirmos de imediato patologizando a complexa problemática
do mundo escolar e não buscarmos apressadamente tratar
ou medicalizar, o que pode ser feito pelo processo ensino-aprendizagem?
Que tipo de ação os professores ainda usariam como
recurso? Que questionamentos, críticas e transformações
proporiam às instituições em que trabalham?
Em quais ações coletivas se engajariam para questionar
o atual sistema de ensino?
O
desafio está em poder autorizar-se a pensar, questionar,
sensibilizar-se e criar sem cair nas malhas fáceis e atrativas
da solução está lá fora
e, também, poder buscar auxílio em outros profissionais
sempre que for necessário sem que isto possa significar
aceitar ser desvalorizado e descaracterizado em seu papel de ensinante.
*Socióloga,
especialista em educação e psicopedagoga institucional.
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