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Fotos: René
Cabrales
Carlos
Gerbase
Professor
aloprado
Titular
da área de cinema na PUC, cinesta e astro de rock, o diretor
de Tolerância consegue fazer tudo sem "pirar na batatinha"
Extra
Classe – Como você consegue conciliar tantas atividades ao mesmo
tempo?
Carlos Gerbase – Bom, eu não faço ao mesmo tempo. Faço uma de
cada vez.
EC
– Mas como é pra organizar esse tempo na tua cabeça?
Gerbase
– Eu organizo na agenda. (risos) Não, falando sério: eu sou um
anti-especialista. Certamente tem gente melhor que eu, que faz
muito melhor as coisas que eu faço nos diversos planos em que
trabalho. Mas eu não consigo me especializar. Na verdade, eu planejava
ser jornalista. Comecei na extinta Folha da Tarde. Naquela época,
quando eu estava saindo da faculdade de comunicação, o meu projeto
de vida era ser jornalista.
EC
– Aquela época era o quê?
Gerbase
– 1980. O problema é que quando eu comecei a fazer jornalismo,
eu descobri que não era nada daquilo... Eu aprendi como é que
se faz e vi que, realmente, aquilo ali não era o que eu queria
fazer. E na época eu já fazia cinema. Eu comecei a fazer cinema
na faculdade com meu amigo Nelson Nadotti, que está no Rio hoje.
E eram atividades absolutamente amadoras, nunca pensei em fazer
cinema assim, não era um projeto de vida.
EC
– Era a fase do super-8...
Gerbase
– A fase do super-8. A gente fez um monte de super-8, um atrás
do outro, e eu acabei gostando do negócio. Então eu conciliei
durante um certo tempo jornalismo com cinema e depois, neste ano,
eu saí da Folha da Tarde, pedi as contas e disse que ia pro Coojornal,
um veículo alternativo. Só que o Coojornal, exatamente naquela
época, soçobrou, acabou e de repente não tinha o que fazer. Daí,
coincidentemente, um professor de cinema da PUC, Marcelo Souza,
filho do Paulo Renato Souza, atual ministro da Educação, saiu
e o Antoninho Gonzales me convidou pra dar aula. Isso eu tendo
saído da faculdade seis meses antes, mas fazia super-8. Então
como era uma disciplina de prática ficou aquela coisa de “não,
Gerbase, você vai lá é pra fazer filme com os alunos”, quer dizer,
eu não tinha nenhuma experiência como professor.
EC
– Nenhuma experiência didática...
Gerbase
– Nenhuma experiência didática, nunca fiz pedagogia, nenhuma cadeira
de didática, nada, e de repente eu voltei à PUC como professor.
Estou lá até hoje. Então, na verdade, essas atividades todas foram
meio que caindo na minha cabeça. E eu acabei gostando de dar aula.
Hoje eu dou aulas há quase 20 anos, 19 anos de PUC, estou fazendo
pós-graduação porque se eu não fizesse eu provavelmente iria “dançar”
porque tem uma procura muito grande por professores com títulos...
EC
– A própria lei de educação exige isso...
Gerbase
– É, exatamente. O que eu acho uma sacanagem porque eu acho que
professor não se faz com título. Acho que título é uma das coisas
que deve avaliar se o camarada é bom professor ou não. Tem gente
que não tem título e dá aula muito melhor. E tem a indústria da
titulação. Eu tive de me curvar e entrar nessa indústria. Estou
fazendo mestrado, pretendo fazer doutorado, porque senão eu ia
parar de dar aula.
EC
– A pergunta é redundante: tu gostas de dar aula?
Gerbase
– Eu gosto de dar aula. Eventualmente tem aulas chatas, tem coisas
chatas de fazer, mas, na média, é uma atividade interessante.
O salário na PUC melhorou, era bastante ruim. Quando eu comecei
a dar aula, a Federal pagava muito mais, mas nesses 20 anos ouve
aí um retrocesso muito grande da educação pública e a PUC, com
altos e baixos, hoje está com um salário razoável que eu acho
que vale a pena. Eu sou horista ainda. Eles não fazem contrato
por tempo determinado se tu não tens título nenhum. Mas, enfim,
fechando o parêntese, comecei a fazer cinema porque tinha um amigo
meu que fazia, comecei a dar aula porque me convidaram... Os Replicantes,
então, eu queria aprender música, os vagabundos lá, amigos meus,
também queriam, começamos a tocar pra aprender, batendo na bateria
e daí fizemos umas músicas e aí estamos até hoje tocando.
EC
– Músicas que se tornaram clássicos do rock brasileiro recente...
Gerbase
– Pois é. Enfim, são coisas que eu gostava de fazer e acabaram
tendo algum significado. Claro, não adianta gostar de fazer uma
coisa e essa coisa não significar nada pra ti, ou seja, se é uma
atividade prazerosa mas que não gera nada. E essas coisas todas
acabaram gerando. Os Replicantes geraram disco, geraram shows,
até hoje me divirto fazendo shows. Dar aula é bom, é legal, faço
filmes. Então são coisas que vão se somando.
EC
– Essa diversidade profissional não tira o foco de alguma atividade
em favor de outra?
Gerbase
– Com certeza. Várias pessoas me disseram isso. Mas a questão
é a seguinte: por exemplo, cinema. Quando eu estava fazendo Tolerância,
eu fiquei um tempo, foram sete semanas, em que eu só fiz cinema.
Aí não tem como. Tem momentos na vida em que se faz aquilo e apenas
aquilo. Outro exemplo: gravando um disco dos Replicantes. A gente
ia pra São Paulo dois meses, pára o resto, dá um jeito, engaveta,
enrola e tu acabas te dedicando muito aquilo naquele período.
Mas não é um negócio que tem de fazer o tempo, ficar sempre pensando
na banda. É ensaiar e se faz dois, três shows seguidos nem precisa
ensaio. Então não é uma coisa que tu fiques pirando na batatinha.
A não ser uma pessoa que queira isso: “olha, o projeto de vida
é minha banda” . Na verdade, eu me concentro e quando estou fazendo
uma coisa, estou fazendo só aquilo. Eu não piro com isso, vou
fazendo as coisas. Eu faço crítica de cinema pro Terra, é um negócio
que me toma pelo menos duas tardes por semana. É uma atividade
que volta e meia eu penso “pelo salário que estou ganhando, essa
trabalheira toda, será que vale a pena?” Então tem coisas que
tu, às vezes, pensa em largar, questiona, mas acaba não largando...
EC
– Essa coisa de tu fazeres crítica de cinema, sendo um cineasta,
não gera nenhum prurido ético ou algo assim?
Gerbase
– Na verdade tem um problema, não na minha cabeça, mas na cabeça
de muita gente. Eu separo completamente as coisas. Eu sou jornalista,
formado, gosto de cinema, conheço razoavelmente cinema e como
se faz cinema. Eu estou habilitado a fazer crítica de cinema tanto
quanto muitos outros. Gosto de fazer e escrevo. Isso não tem nada
a ver com os filmes que eu faço.
EC
– Tu consegues ser crítico com teu próprio trabalho?
Gerbase
– Consigo. Sou sempre muito crítico com meu trabalho, só não vou
escrever uma crítica sobre meu filme. Mas eu respondo as críticas.
Eu estou há mais de dois anos fazendo essas crítica pro Terra
e é um trabalho que eu só continuo porque criei um negócio interessante:
eu publico a crítica e até uma semana depois, os caras que leram
a crítica, e que obviamente viram o filme, podem fazer uma meta
crítica, ou seja, podem meter o pau em mim, na minha crítica.
E eu respondo. E termina aí. Vai e volta e vai. Mas é legal porque
estabelece um diálogo com meus leitores. E daí quando os caras
souberam que eu ia fazer um filme, pegaram no meu pé: “Agora tu
vais ver, seu filho da mãe. Fica aí falando mal dos filmes de
todo mundo, quero ver, quando teu filme estrear, se tu não tens
medo...” e tal.
EC
– Vamos falar do teu filme então. Foi um projeto que levou muito
tempo entre a idéia inicial e a estréia nas telas.
Gerbase
– Se contar do início da escritura do roteiro até agora, são cinco
anos.
EC
– Por que essa demora? No Brasil ainda é aventura fazer cinema?
Gerbase
- Pela grana. A gente terminou o primeiro tratamento do roteiro
no começo de 1996. Daí se increveu na Lei do Audiovisual, tem
toda uma burocracia que tomou seis, sete meses. Em meados da 1996
começou a captação. Isso é quando tu dizes “olha, estamos vendendo”.
Só que não significa que tu vais vender. Aí começam os contatos
com as empresas e isso foi, foi... Entrou dinheiro daqui, dinheiro
dali, a Copesul foi a primeira empresa a botar um dinheiro significativo,
apostou no nosso projeto, e até final de 98 nós tínhamos captado,
mais ou menos, 60% do dinheiro. Aí teve aquele concurso, RGE e
Governo do Estado, veio mais um milhão e aí fechou o orçamento.
Então no final de 98, dissemos: “Temos dinheiro pra fazer o filme”.
E até o fim. Porque essa é uma diferença: tem muita gente que
capta o suficiente pra filmar e diz “depois que eu filmar, dou
um jeito, vou atrás de mais dinheiro”. Na Casa de Cinema, estabelecemos
uma regra: a gente só trabalha quando tem dinheiro pra ir até
o final porque senão é uma angústia terrível. A gente prefere
se angustiar na espera maior da captação. Então do final de 98
até maio de 99 foi a pré-produção, daí normal, cinco meses de
pré, o que é normal pra um longa. Daí se filou maio, junho e julho,
sete semanas, e a finalização foi mais demorada do que a gente
pensava porque a gente comprou uma ilha de edição digital e até
essa ilha chegar, ser configurada e começar a operar sem problemas,
levou um bom tempo. Mas o normal para um longa seria dois anos
de produção.
EC
– Quando o processo de produção de cinema no Brasil vai ser um
processo normal, uma atividade cotidiana?
Gerbase
– Acho um pouco romântico isso. Acho que isso não vai acontecer
tão cedo, nem sei se algum dia isso vai acontecer. Se tu pensares
só no cinema enquanto mercado de cinema, ou seja, vou fazer longas-metragens
pra colocar no cinema e ganhar minha vida com isso, considerando
as leis que existem hoje, ainda é muito complicado. E quando não
tinha essas leis de proteção nem existia filme nenhum. A Casa
de Cinema, por exemplo, tem como perspectiva principal fazer filmes
mas a gente olha o audiovisual como um todo. Então fazer televisão
tem muito a ver com fazer cinema. Publicidade, tem uma regra,
não escrita, que a gente não faz publicidade tradicional. Essa
publicidade de 30 segundos que vai ao ar normalmente a gente não
faz porque é um mercado muito específico, tem de entrar de cabeça
e a concorrência é muito grande. Então a gente faz documentários,
faz audiovisuais eventualmente, fazemos campanhas políticas mas
aí por uma questão ideológica, a gente faz campanhas para o PT,
não faz campanha para nenhum outro partido.
EC – Essa questão ideológica, a coisa de fazer campanhas
para o PT, não estigmatiza a Casa de Cinema de alguma maneira?
Gerbase–
Tem uma postura política, pode prejudicar eventualmente, mas o
próprio fato do Tolerância existir, de certo modo, comprova que
não é um impeditivo. Porque o Tolerância foi gerado durante o
governo Britto. Nós captamos da Copesul que é uma empresa que
tem gente de todos os matizes ideológicos lá dentro, tu não podes
dizer que é uma empresa de esquerda, certo? O prêmio RGE/Governo
do Estado foi gerado no governo Britto e nós entramos lá, havia
um concurso, havia jurados, e Tolerância foi um dos projetos escolhidos.
Então o próprio fato do filme existir é uma prova de que tu podes
ter, claramente, uma postura política mesmo. O Giba (Assis Brasil)
é filiado ao PT. O resto não é filiado mas todos se confessam
simpatizantes do PT. E críticos do PT. Mas isso não impediu que
a gente fizesse nosso filme durante um governo que não era do
PT.
EC
– Falando em ideologia, talvez cinismo não seja a definição exata,
mas o tratamento irônico dado às questões políticas, à questão
agrária em Tolerância, tem a ver com essa convivência próxima
com a classe política, um pouco uma alfinetada na questão da verdade?
Gerbase
– Eu te diria que jamais eu teria feito Tolerância com 20 anos
de idade porque com 20 anos de idade a tua noção de verdade é
outra, a tua noção de liberdade é outra. E o filme é exatamente
sobre isso. O filme trata de como os conceitos mudam na vida da
gente, como coisas que a gente acreditava serem absolutamente
claras ou normativas, depois de um tempo, tudo isso se relativiza
bastante. Tu perdes algumas e ganhas outras coisas. Ganha experiência.
Mas eu não acho que Tolerância seja cínico. É um filme triste,
isso eu admito. É um filme que constata que as coisas não estão
do jeito que a gente gostaria que elas estivessem por “n” razões.
Mas é um filme que trata de pessoas cínicas, sem dúvida.
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