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Comunicação
em matemática: instrumento de ensino e aprendizagem
Kátia
Cristina Stocco Smole
e Maria Ignez Diniz
A palavra comunicação esteve presente durante muito
tempo ligada a áreas curriculares que não incluíam
a matemática. Pesquisas recentes afirmam que, em todos
os níveis, alunos devem aprender a se comunicar matematicamente
e que os educadores devem estimular o espírito de questionamento
e levar os seus educadandos a pensar e comunicar idéias.
A predominância do silêncio, no sentido de ausência
de comunicação, é ainda comum em matemática.
O excesso de cálculos mecânicos, a ênfase em
procedimentos e a linguagem usada para ensinar matemática
são alguns dos fatores que tornam a comunicação
pouco freqüente ou quase inexistente.
Se os educandos são encorajados a se comunicar matematicamente
com seus colegas, com o educador ou com os pais, eles têm
oportunidade para explorar, organizar e conectar seus pensamentos,
novos conhecimentos e diferentes pontos de vista sobre um mesmo
assunto.
Assim, aprender matemática exige comunicação,
no sentido de que é através dos recursos de comunicação
que as informações, conceitos e representações
são veiculados entre as pessoas. A comunicação
do significado é a raiz da aprendizagem.
Promover comunicação em matemática é
dar aos alunos a possibilidade de organizar, explorar e esclarecer
seus pensamentos. O nível ou grau de compreensão
de um conceito ou idéia está intimamente relacionado
à comunicação bem-sucedida deste conceito
ou idéia.
Dessa forma, quanto mais os alunos têm oportunidade de refletir
sobre um determinado assunto, falando, escrevendo ou representando,
mais eles compreendem o mesmo.
Somente trocando experiências em grupo, comunicando suas
descobertas e dúvidas e ouvindo, lendo e analisando as
idéias do outro é que o aluno interiorizará
os conceitos e significados envolvidos nessa linguagem de forma
a conectá-los com suas próprias idéias.
A capacidade para dizer o que se deseja e entender o que se ouve
ou lê deve ser um dos resultados de um bom ensino de matemática.
Essa capacidade desenvolve-se quando há oportunidades para
explicar e discutir os resultados obtidos e para testar conjecturas.
A oralidade em matemática
Em toda nossa vida de falantes, a oralidade é o recurso
de comunicação mais acessível, que todos
podem utilizar, seja em matemática ou em qualquer outra
área do conhecimento. É um recurso simples, ágil
e direto de comunicação que permite revisões
quase que instantaneamente, que pode ser truncada e reiniciada,
assim que se percebe uma falha ou inadequação, independentemente
da idade e série escolar.
Oportunidade para os alunos falarem nas aulas ftorna-os capazes
de conectar sua linguagem, seu conhecimento, suas experiências
pessoais com a linguagem da classe e da área do conhecimento
que se está trabalhando. É preciso promover a comunicação
pedindo que esclareçam e justifiquem suas respostas, que
reajam frente ás idéias dos outros, que considerem
pontos de vista alternativos.
Na essência, o diálogo capacita os alunos a falar
de modo significativo, conhecer outras experiências, testar
novas idéias, conhecer o que eles realmente sabem e o que
mais precisam aprender.
A partir da discussão estabelecida, das diferentes respostas
obtidas, o educador é capaz de aprender mais sobre o raciocínio
de cada aluno e pode perceber a natureza das respostas, realizando
assim intervenções apropriadas.
A comunicação oral favorece também a percepção
das diferenças, a convivência dos alunos entre si,
o exercício de escutar um ao outro numa aprendizagem coletiva.
Isto possibilita também aos alunos terem mais confiança
em si mesmos, se sentirem mais acolhidos e sem medo de se exporem
publicamente.
A comunicação escrita
A escrita é o enquadramento da realidade. Quando escrevermos
não podemos ir para tantos lados como no oral, ela prevê
um planejar, esse planejar não é necessariamente
escrito, mas auxilia na escrita. Portanto, o oral antecede a escrita
e nesse sentido a escrita pode ser usada como mais um recurso
de representação das idéias dos alunos.
Temos observado que escrever sobre matemática ajuda a aprendizagem
dos alunos de muitas formas, encorajando reflexão, clareando
idéias, e agindo como um catalisador para as discussões
em grupo. Escrever em matemática ajuda o aluno a aprender
o que está sendo estudado.
Além disso, a escrita auxilia o resgate da memória,
e muitas discussões orais poderiam ficar perdidas se não
as tivéssemos registrado em forma de texto. A História,
como disciplina, originou-se graças a esse recurso - escrita
de recuperação da memória.
Trabalhar essas diferentes funções da escrita em
sala de aula leva o aluno a procurar descobrir a importância
da língua escrita e seus múltiplos usos.
Os textos servem para informar alguma coisa ou para dar ao outro
o prazer de ler. Nesse sentido os alunos precisam entender que,
ao produzir um texto, é preciso se preocupar com as informações,
com as impressões e se necessário com as instruções.
A escrita também sofre evolução à
medida que o educador tiver o cuidado, nos momentos de correção,
de não usar um modelo único, mas diversificá-lo,
tendo a preocupação de escrever o melhor possível
para que a sua comunicação seja o mais eficiente
possível.
Sugestões para auxiliar a melhoria dos processos de
comunicação nas aulas de matemática:
Explorar
interações nas quais os alunos expressem idéias
através da discussão oral, da escrita, do desenho
de diagramas, da realização de pequenos filmes,
do uso de programas de computador; da elaboração
e da resolução de problemas.
Pedir
aos alunos que expliquem seu raciocínio ou suas descobertas
por escrito.
Promover
discussões em pequenos grupos ou com a classe toda sobre
um tema.
Valorizar
a leitura em duplas dos textos no livro didático.
Propor
situações problema nas quais os alunos sejam levados
a fazer conjecturas a partir de um problema e procurar argumentos
para validá-las.
Com esse
trabalho nossos objetivos são levar os alunos a:
Relacionar
materiais, desenhos, diagramas, palavras e expressões matemáticas
com idéias matemáticas.
Refletir
e explicar o seu pensamento sobre situações e idéias
matemáticas.
Relacionar
a linguagem de todos os dias com a linguagem e os símbolos
matemáticos.
Compreender
que representar, discutir, ler, escrever e ouvir Matemática
são uma parte vital da aprendizagem e da utilização
da Matemática.
Desenvolver
compreensões comuns sobre as idéias matemáticas,
incluindo o papel das definições.
Desenvolver
conjecturas e argumentos convincentes.
Compreender
o valor da notação matemática e o seu papel
no desenvolvimento das idéias matemáticas.
A avaliação
A avaliação tem a função de permitir
que educador e educando detectem pontos frágeis, certezas
e que extraiam as conseqüências pertinentes sobre para
onde direcionar posteriormente a ênfase no ensino e na aprendizagem.
Ou seja, a avaliação tem caráter diagnóstico,
de acompanhamento em processo e formativo.
Nesta proposta a avaliação é concebida como
instrumento para ajudar o aluno a aprender. Assim o educador revê
os procedimentos que vem adotando e replaneja sua atuação,
enquanto o educando vai continuamente se dando conta de seus avanços
e dificuldades.
A avaliação só é instrumento de aprendizagem
quando o educador utiliza as informações conseguidas
para planejar suas intervenções, propondo procedimentos
que levem o educando a atingir novos patamares de conhecimento.
O recurso da comunicação, nesse sentido, é
essencial. No processo de comunicar, o educando nos mostra ou
fornece indícios sobre quais habilidades ou atitudes está
desenvolvendo e que conceitos ou fatos domina, e se apresenta
dificuldades ou incompreensões. Propondo-se outras perguntas,
mudando-se a forma de abordagem, verifica-se que os recursos da
comunicação são novamente valiosos para interferir
nas dificuldades encontradas ou para permitir que o educando avance
mais.
Referências
bibliográficas:
Lerma, Inés S. Comunicacion, lenguaje y matematicas. In:
Teoria y practica in educacion matemática. Sevilla: Linares,
Sánchez y García, 1990.
MILLER, L. Diane. Fazendo a conexão com a linguagem. Arithmetic
Teacher, nº 6, pag. 311-316, fev. 1993.
NILSON, José M. Matemática e língua materna:
a análise de uma impregnação mútua.
São Paulo: Cortez, 1990.
SMOLE, K. S. e Diniz. M. I. Ler, escrever e resolver problemas:
habilidades básicas para aprender matemática. Porto
Alegre: Artmed, 2001.
Kátia
Cristina Stocco Smole é doutora em
ensino de matemática pela FEUP
Maria Ignez de Souza Vieira Diniz é doutora
em Matemática pelo IME USP
Ambas coordenam o grupo Mathema de S.P.
mathema@mathema.com.br
e mathema@uol.com.br
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