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A major
da PM que tirou a farda
César
Fraga
| Divulgação |
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A
major Míriam acredita que a relação
da polícia com as comunidades
pode ser melhorada
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O que
você fez pela cultura da paz, hoje? Não precisa
responder agora. Mas, pasme. A pergunta é de uma major
da Brigada Militar mineira. Trata-se de Míriam Assumpção
e Lima, que lançou em outubro seu livro A major da PM que
tirou a farda. Ela esteve divulgando seus escritos em Porto Alegre,
na Feira do Livro, antes mesmo do lançamento oficial no
último dia 15/11, em Belo Horizonte, cidade onde vive.
Além de oficial, ela é pós-graduada em administração
pública e mestranda em Ciências Sociais. Até
o final do ano passado dava aulas para os cursos de graduação
e pós-graduação da Academia de Polícia
Militar e na Fundação João Pinheiro, em Minas
Gerais. Mãe de dois filhos, gosta de valorizar o ser humano
que está dentro da farda. Este gênero chamado
gente, vem antes de qualquer coisa, inclusive da farda,
afirma com voz calma e contundente, a mulher que tem sob seu comando
vários soldados e não hesitou em tirar suas roupas
de soldado para poder se aproximar de jovens de periferia disputando-os
com o apelo sedutor do tráfico, da violência e da
criminalidade.
Veja alguns trechos da conversa da autora com o Extra Classe:
Extra Classe
Qual a intenção do seu livro?
Mirian A. Lima Em primeiro lugar, mostrar que antes
de mais anda, nós policiais também somos humanos.
Daí o ato simbólico de tirar a farda nas atividades
que realizamos na periferia. De certa forma, estávamos
dizendo: Olha, não somos diferentes de vocês, também
somos gente.
EC - Que tipo de atividades foram desenvolvidas?
Mirian - Em setembro de 2000, começamos a realizar
atividades nas localidades mais carentes com o objetivo de afastar
os jovens da criminalidade e da violência com música
e teatro.
EC - Você teve problemas na caserna por causa disso?
Mirian - Inicialmente sim. Até porque saiu nos jornal
Estado de Minas assim: Major da PM despe a farda para alunos.
Bom, isso caiu como uma bomba. É óbvio que tive
de cumprir algumas punições, mas já é
algo superado. Mas o saldo é positivo. O legal deste trabalho
é que no início trabalhávamos apenas com
jovens carentes, agora já estamos alcançando também
alunos da rede privada com enfoques diferentes.
EC - Que tipo de consciência vocês tentam despertar
nesses jovens?
Mirian - Na periferia, principalmente, tentamos lutar contra
a síndrome do fracasso de que o destino deles está
traçado para a derrota, o que não é verdade.
Tentamos mostrar perspectivas dentro do universo de dificuldades
em que vivem, com enfoque nas potencialidades e não nas
carências. Dentro do que é possível.
EC - Como vocês lidam com criminalidade e violência?
Mirian - Em primeiro lugar, tentamos desfazer uma grande confusão
que a maioria das pessoas fazem em considerar que as duas coisas
são a mesma. O mais comum é considerar que a prática
de um ato infracional é violência, o que não
é. Muitas vezes a violência não assume a forma
de um crime, pode ser psicológica, na forma de discriminação,
preconceito.
EC - Como a senhora situa a iniciativa de vocês dentro
de um contexto geral da polícia militar no país?
Mirian - Eu acredito que este processo de aproximar-se do
povo, deve ser tarefa de todas as instituições,
não apenas da polícia. Historicamente as polícias
têm funcionado pelas elites e para as elites. Particularmente,
eu quero uma polícia que atue para o povo, de forma humana,
menos repressora. Mas este é um processo cultural, as coisas
não vão mudar da noite para o dia. Nossa iniciava
não reflete o pensamento da polícia como um todo,
mas fazemos parte deste todo e estamos, de alguma forma propondo
mudanças.
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