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Acerca
de Neobobos, Fracassomaníacos e Professores
Não
é a primeira vez que o Presidente Fernando Henrique Cardoso
faz declarações que provocam a ira de toda a sociedade
brasileira ou de parte dela. Só para recordar, classificou
de neobobos aqueles que se opõem ao neoliberalismo, de
fracassomaníacos aos críticos do modelo econômico,
de Cassandras aos que se fazem previsões nada otimistas
sobre o futuro da nossa economia e de vagabundos aos aposentados.
Agora saiu-se com mais esta pérola a respeito
da greve dos professores federais: Se a pessoa não
consegue produzir, coitada, vai ser professor. Então fica
a angústia se vai ter um nome na praça ou se vai
dar aula a vida inteira e repetir o que os outros fazem.
(F.S.Paulo, 28/11/01). Diante das reações, declarou
que as observações foram feitas em tom simpático.
Que simpatia mais besta essa, exclama Clóvis
Rossi na Folha de S.Paulo. O filósofo Gramsci escreveu
que as grandes descobertas são raras e o importante é
socializar os conhecimentos. Ora, a sala de aula é um dos
lugares apropriados para esta tarefa. Não há, então,
nenhum desdouro em ensinar. Quando Roland Barthes, mesmo sem a
tradicional titulação acadêmica, foi convidado
a dar aula de Semiologia Literária na Universidade da França,
em 1977, afirmou em sua fala inaugural, que há uma idade
em que se ensina o que se sabe, outra em que se ensina o que não
se sabe, ou seja, o que se pesquisou e, finalmente, vem a idade
da experiência, entendida como sapientia, assim
explicada: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de
sabedoria e o máximo de sabor possível. (A
Aula, p.47). Saber e sabor têm, em latim, a mesma etimologia.
Este deslize presidencial, partindo de um antigo professor,
não contribui em nada para a sua biografia, que ele faz
tanta questão em divulgar.
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