Especiais da Jornada de Literatura 2001:
 

Um grande negócio chamado educação


No cenário da educação superior do Rio Grande do Sul, aparece um novo personagem. É a figura do empresário que encara a educação como um negócio, sem se preocupar com os aspectos sociais do ensino ou com a formação humanista dos estudantes. Para ele, importa apenas obter o lucro. Quem o colocou em cena foi o MEC, ao facilitar ao máximo o credenciamento de faculdades isoladas, tendo como justificativa a ampliação da oferta de vagas.


Paulo Cesar Teixeira


e 1999 para cá, pelo menos dez novas IES (Instituições de Ensino Superior) foram autorizadas a abrir suas portas em território gaúcho (veja quadro na pg. 9) – outras sete estão na fila aguardando o sinal verde do governo federal.

Trata-se de um fenômeno recente. Até a década de 90, o avanço da educação superior privada no Estado obedeceu à outra lógica - as universidades comunitárias, já consolidadas e com tradição no ensino, encampavam instituições de menor porte. A URCAMP (Universidade da Região da Campanha), de Bagé, por exemplo, absorveu institutos de São Gabriel, Livramento, Alegrete e São Borja. Mais tarde, abriu novas frentes em Dom Pedrito e Itaqui. Outro caso é o da URI (Universidade Regional Integrada), de Santo Ângelo, que se juntou a instituições já existentes de Erechim e Frederico Westphalen e, depois, expandiu-se para Santiago, São Luís Gonzaga e Cerro Largo. A UNIJUÍ (Universidade de Ijuí), por sua vez, multiplicou sua presença no interior do Estado atuando também em Santa Rosa, Panambi e Três Passos. A UCS (Universidade de Caxias do Sul) não fugiu à regra: após encampar instituições de Bento Gonçalves e Vacaria, se fez presente em Farroupilha, Veranópolis, Guaporé e Canela, entre outros municípios. Vale lembrar ainda que a UPF (Universidade de Passo Fundo) atua hoje também em Lagoa Vermelha, Soledade e Palmeira das Missões e que a UNISC (Universidade de Santa Cruz do Sul) fincou âncora em Capão da Canoa.

Uma portaria publicada no Diário Oficial da União, no último dia 13 de novembro, ratificou a intenção do MEC de alterar o perfil do mercado da educação superior. A medida permitiu que as faculdades isoladas aumentem em até 50% o número de vagas a partir do próximo vestibular. Estima-se que, preenchidas, estas vagas renderão R$ 1 milhão aos empresários do setor. “No afã de demonstrar o crescimento da oferta, o governo torna-se permissivo. Esta atitude terá conseqüências graves no que diz respeito à qualidade do ensino e às condições de trabalho dos professores”, afirma Marcos Fuhr, diretor do Sinpro-RS e integrante do Conselho Estadual de Educação.

A legislação atual também privilegia os novos empresários do setor. Ela exige, por exemplo, que as universidades mantenham dois terços do corpo docente com horário integral, dedicando-se às atividades de pesquisa e extensão. Cobra também do mesmo percentual de professores a titulação de mestre ou doutor. No caso de centros universitários, a exigência de titulação é mantida, mas não há a obrigatoriedade da pesquisa. Para institutos e faculdades isoladas, nenhum dos itens é exigido. “Há uma concorrência predatória que conduz à antropofagia. Embora necessária, a expansão do ensino superior se dá de forma desordenada. Em alguns casos, a educação está nas mãos de aventureiros que a vêem apenas como um negócio, e não se importam com a formação integral do ser humano”, afirma o vice-reitor e pró-reitor de Ensino e Pesquisa da Unisinos, Pedro Gilberto Gomes. “A qualificação tem um preço. Preocupa a oferta de um ensino de qualidade duvidosa”, ratifica o reitor da PUC/RS, Norberto Francisco Rauch. “Algumas novas instituições não têm responsabilidade com a comunidade. Não têm um projeto para a sociedade e não consideram prioridade formar novos professores de História e Filosofia, por exemplo”, questiona a vice-reitora da UPF, Telisa Graeff.

Número de alunos
Aumento na Educação superior 1992 - 1999

BRASIL
51,43% (TOTAL)
60,31% (SETOR PRIVADO)

RS
54,85% (TOTAL)
67,33% (SETOR PRIVADO)


Instituições de Educação Superior Credenciadas no MEC
1999/2000
Faculdade Luterana São Marcos
Município: Alvorada. Mantenedora: Comunidade Evangelista Luterana São Marcos
Faculdade de Administração do Instituto Metodista de Educação e Cultura
Município: Porto Alegre. Mantenedora: Instituto Metodista de Educação e Cultura
Faculdade da Serra Gaúcha
Município: Caxias do Sul. Mantenedora: Associação Educacional Santa Rita
Escola Superior de Propaganda e Marketing
Município: Porto Alegre. Mantenedora: Associação Escola Sup. De Prop. e Marketing
Escola Superior de Teologia
Município: São Leopoldo. Mantenedora: Instituto Sinodal de Assistência, Educação e Cultura

Em 2001
Faculdade Horizontina
Município: São Leopoldo. Mantenedora: Instituto Sinodal de Assistência, Educação e Cultura
Faculdade de Informática de Taquara
Município: Taquara. Mantenedora: Fundação Educacional Encosta Inferior do Nordeste
Faculdade de Administração do Planalto (Faplan)
Município: Passo Fundo. Mantenedora: Sociedade Educacional Garra Ltda.
Faculdade de Administração da Associação Brasiliense de Educação
Município: Marau. Mantenedora: Associação Brasiliense de Educação
Faculdade de Educação Ciências e Letras São Judas Tadeu
Município: Porto Alegre. Mantenedora: Instituto Educacional São Judas Tadeu



Leia também:

 - Ensino não é prioridade
 - Quando os cursinhos viram faculdades

 - Governo favorece o setor privado
 - Encerram eleições nas comunitárias
 - Forumzinho da Educação - Promover debate entre os pequenos

 

Fale com o Extra Classe