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Mona
Gagnon: o Alca deveria diminuir o poder dos EUA
* Fabiana Mendonça
Para a socióloga Mona Gagnon, a realidade da América
do Norte é um pouco diferente. Ela revela que no Canadá,
dependendo da província, há maior ou menor facilidade
para a sindicalização dos trabalhadores. Quando
há sindicalização, pode haver burocratização
no setor. Há reuniões em que tudo já está
preparado antes mesmo de acontecer, explica Mona. Veja abaixo
entrevista concedida ao Extra Classe.
Extra Classe
Como são as relações de trabalho no
Canadá?
Mona As relações de trabalho nos Estados
Unidos e no Canadá são muito parecidas e são
enquadradas dentro de leis que as garantem. A ação
do sindicato acontece muito mais na negociação.
Mas existem diferenças importantes entre esses dois países.
Nos Estados Unidos, a taxa de sindicalização é
apenas de 15% e, no Canadá, é de 30%. No Quebec,
que é onde moro, a taxa é de 40%.
EC Como são as leis trabalhistas no Canadá?
Disseste que a economia do Canadá é muito dependente
dos EUA. O que poderia ser destacado para explicar essa dependência?
Mona As legislações se parecem muito,
mas a administração delas não é necessariamente
a mesma, pois elas permitem ou não que o sindicalismo possa
funcionar. Pode-se dizer que no Canadá essas modalidades
administrativas são mais favoráveis ao sindicalismo,
mas isso varia de província para província. Por
exemplo, em Ontário o governo é de direita e muito
mais anti-sindicalização. Já no Quebec, a
situação é diferente e a sindicalização
é muito mais fácil de acontecer. Já a dependência
vem lá do século XIX, com a Revolução
Industrial. E o Canadá é uma espécie de anexo
econômico das empresas americanas. A partir de 1960 é
que aconteceram movimentos nacionalistas para que o Canadá
tivesse mais autonomia. Um movimento nacionalista canadense, especialmente
no Quebec, nacionalizou instituições financeiras
e também recursos naturais para que esse controle americano
fosse menor.
EC O Canadá é muito dependente dos EUA?
Mona Sim, as exportações são muito
dirigidas aos Estados Unidos. A política monetária
canadense é muito dependente da norte-americana. E são
as relações entre essas duas moedas que vão
determinar o dólar canadense. É por isso que muita
gente da própria esquerda acredita que esse livre mercado
- a ALCA - esse acordo de relações econômicas
vai evitar um pouco a dominação dos Estados Unidos.
É uma questão crucial e muitos políticos
pensam que o Canadá deveria adotar a mesma moeda americana.
| Foto:
René Cabrales |
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| As
legislações se parecem muito, mas a administração
delas não é necessariamente a mesma, pois permitem
ou não que o sindicalismo possa funcionar |
EC
E em termos de sindicalismo, o modelo adotado é o norte-americano.
Como é este modelo? Ele se encaixa nos padrões canadenses?
Mona Antes dos anos 30, as leis de trabalho canadenses
eram baseadas nas leis de trabalho britânicas. Nos anos
30, com a crise econômica e o New Deal, do presidente Franklin
Roosevelt, houve uma sorte de compromissos entre trabalho e capital,
e, se as pessoas desejavam que houvesse sindicalização,
isso podia acontecer. Em seguida, o sindicato se transformou num
porta voz dos trabalhadores. Ninguém podia falar em nome
dos trabalhadores sem ser o sindicato. Não se tem o direito
de fazer greve todo o tempo, tem um prazo determinado para fazer
greve. Depois disto entra num estado de negociação.
Isso pode ter como conseqüência a burocratização
das relações de trabalho. Existem reuniões
coletivas em que tudo já está previsto. Mas também
existem sindicatos que fazem greves ou movimentos ilegais, fora
do determinado e que são ações diretas. Isso
quer dizer, a ação sindical não é
totalmente burocratizada.
EC Quais as diferenças entre o setor público
e o setor privado na relação com os trabalhadores?
Mona No Quebec o setor público é sindicalizado
em 90% e o privado em 28%. As relações de trabalho
no setor público são muito centralizadas, enquanto
no setor privado são descentralizadas. No setor público
existem 40% de trabalhadores temporários e isso é
mais que os trabalhadores efetivos no setor privado. O sindicalismo
no Quebec representa muito mais os empregados do setor público
do que os empregados do setor privado.
EC O que seriam essas vantagens sociais que o empregado
estável ganha, às quais a senhora se referiu na
palestra?
Mona Tanto no setor privado quanto no público,
as vantagens sociais são superiores para os trabalhadores
que são estáveis. No setor privado, o trabalhador
temporário não tem nenhuma vantagem social, enquanto
que os trabalhadores estáveis têm direitos que garantem
estabilidade no emprego, promoção na medida em que
o tempo for passando e melhores salários, por exemplo.
Os temporários não têm esses direitos. Eu
posso falar, por exemplo, nas escolas que seriam de segundo grau
aqui - os secundários - 40% dos empregados nesse tipo de
escola são temporários, são trabalhos precários.
Eles sabem, três dias antes do início das aulas,
se vão ser contratados ou não. O sistema funciona
como rede, então os professores estáveis podem ser
deslocados de um lado para outro o tempo todo. Mas para os precários
essa regra não vale, têm que ficar praticamente na
mesma escola. E os temporários, são temporários
há mais de dez anos - um estágio que não
termina nunca. É uma situação dramática.
EC Por que há muito mais trabalhadores na faixa
dos 50 anos, do que na faixa dos 30? Explica este conflito de
gerações existentes no Canadá.
Mona No meio sindical norte-americano, a velhice é
muito respeitada. A geração do pós-guerra
conviveu com uma situação muito vantajosa economicamente,
em que todo mundo conseguia trabalho e tinha estabilidade. Há
cinco ou seis anos, tanto o setor público quanto o privado
têm transformado os empregos que eram permanentes em temporários.
Isso faz com que os jovens de hoje tenham muita dificuldade de
conseguir um emprego permanente. O trabalho oferecido para os
jovens são os piores, o que faz com que haja uma grande
rotatividade, às vezes até porque o próprio
jovem tem esperança de um trabalho melhor e acaba saindo
para procurar outras coisas. Tudo caminha no sentido de que ele
fique mais tempo desempregado. Os bons trabalhos estáveis
são raríssimos. Com a recessão que já
vinha desde o início do ano nos Estados Unidos, o turismo
caiu violentamente e um setor importante no Canadá é
o setor de aviação. Com o principal setor atingido
pela recessão, os jovens são os primeiros a caírem
fora. A estabilidade (para alguns) acaba prejudicando, especialmente,
os jovens que não conseguem entrar no mercado.
(* colaboração César Fraga)
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