Especiais da Jornada de Literatura 2001:
 

 


Mona Gagnon: o Alca deveria diminuir o poder dos EUA

* Fabiana Mendonça

Para a socióloga Mona Gagnon, a realidade da América do Norte é um pouco diferente. Ela revela que no Canadá, dependendo da província, há maior ou menor facilidade para a sindicalização dos trabalhadores. “Quando há sindicalização, pode haver burocratização no setor. Há reuniões em que tudo já está preparado antes mesmo de acontecer”, explica Mona. Veja abaixo entrevista concedida ao Extra Classe.

Extra Classe – Como são as relações de trabalho no Canadá?
Mona
– As relações de trabalho nos Estados Unidos e no Canadá são muito parecidas e são enquadradas dentro de leis que as garantem. A ação do sindicato acontece muito mais na negociação. Mas existem diferenças importantes entre esses dois países. Nos Estados Unidos, a taxa de sindicalização é apenas de 15% e, no Canadá, é de 30%. No Quebec, que é onde moro, a taxa é de 40%.

EC – Como são as leis trabalhistas no Canadá? Disseste que a economia do Canadá é muito dependente dos EUA. O que poderia ser destacado para explicar essa dependência?
Mona
– As legislações se parecem muito, mas a administração delas não é necessariamente a mesma, pois elas permitem ou não que o sindicalismo possa funcionar. Pode-se dizer que no Canadá essas modalidades administrativas são mais favoráveis ao sindicalismo, mas isso varia de província para província. Por exemplo, em Ontário o governo é de direita e muito mais anti-sindicalização. Já no Quebec, a situação é diferente e a sindicalização é muito mais fácil de acontecer. Já a dependência vem lá do século XIX, com a Revolução Industrial. E o Canadá é uma espécie de anexo econômico das empresas americanas. A partir de 1960 é que aconteceram movimentos nacionalistas para que o Canadá tivesse mais autonomia. Um movimento nacionalista canadense, especialmente no Quebec, nacionalizou instituições financeiras e também recursos naturais para que esse controle americano fosse menor.

EC – O Canadá é muito dependente dos EUA?
Mona
– Sim, as exportações são muito dirigidas aos Estados Unidos. A política monetária canadense é muito dependente da norte-americana. E são as relações entre essas duas moedas que vão determinar o dólar canadense. É por isso que muita gente da própria esquerda acredita que esse livre mercado - a ALCA - esse acordo de relações econômicas vai evitar um pouco a dominação dos Estados Unidos. É uma questão crucial e muitos políticos pensam que o Canadá deveria adotar a mesma moeda americana.

             Foto: René Cabrales
As legislações se parecem muito, mas a administração delas não é necessariamente a mesma, pois permitem ou não que o sindicalismo possa funcionar

EC – E em termos de sindicalismo, o modelo adotado é o norte-americano. Como é este modelo? Ele se encaixa nos padrões canadenses?
Mona
– Antes dos anos 30, as leis de trabalho canadenses eram baseadas nas leis de trabalho britânicas. Nos anos 30, com a crise econômica e o New Deal, do presidente Franklin Roosevelt, houve uma sorte de compromissos entre trabalho e capital, e, se as pessoas desejavam que houvesse sindicalização, isso podia acontecer. Em seguida, o sindicato se transformou num porta voz dos trabalhadores. Ninguém podia falar em nome dos trabalhadores sem ser o sindicato. Não se tem o direito de fazer greve todo o tempo, tem um prazo determinado para fazer greve. Depois disto entra num estado de negociação. Isso pode ter como conseqüência a burocratização das relações de trabalho. Existem reuniões coletivas em que tudo já está previsto. Mas também existem sindicatos que fazem greves ou movimentos ilegais, fora do determinado e que são ações diretas. Isso quer dizer, a ação sindical não é totalmente burocratizada.

EC – Quais as diferenças entre o setor público e o setor privado na relação com os trabalhadores?
Mona
– No Quebec o setor público é sindicalizado em 90% e o privado em 28%. As relações de trabalho no setor público são muito centralizadas, enquanto no setor privado são descentralizadas. No setor público existem 40% de trabalhadores temporários e isso é mais que os trabalhadores efetivos no setor privado. O sindicalismo no Quebec representa muito mais os empregados do setor público do que os empregados do setor privado.

EC – O que seriam essas vantagens sociais que o empregado estável ganha, às quais a senhora se referiu na palestra?
Mona
– Tanto no setor privado quanto no público, as vantagens sociais são superiores para os trabalhadores que são estáveis. No setor privado, o trabalhador temporário não tem nenhuma vantagem social, enquanto que os trabalhadores estáveis têm direitos que garantem estabilidade no emprego, promoção na medida em que o tempo for passando e melhores salários, por exemplo. Os temporários não têm esses direitos. Eu posso falar, por exemplo, nas escolas que seriam de segundo grau aqui - os secundários - 40% dos empregados nesse tipo de escola são temporários, são trabalhos precários. Eles sabem, três dias antes do início das aulas, se vão ser contratados ou não. O sistema funciona como rede, então os professores estáveis podem ser deslocados de um lado para outro o tempo todo. Mas para os precários essa regra não vale, têm que ficar praticamente na mesma escola. E os temporários, são temporários há mais de dez anos - um estágio que não termina nunca. É uma situação dramática.

EC – Por que há muito mais trabalhadores na faixa dos 50 anos, do que na faixa dos 30? Explica este conflito de gerações existentes no Canadá.
Mona
– No meio sindical norte-americano, a velhice é muito respeitada. A geração do pós-guerra conviveu com uma situação muito vantajosa economicamente, em que todo mundo conseguia trabalho e tinha estabilidade. Há cinco ou seis anos, tanto o setor público quanto o privado têm transformado os empregos que eram permanentes em temporários. Isso faz com que os jovens de hoje tenham muita dificuldade de conseguir um emprego permanente. O trabalho oferecido para os jovens são os piores, o que faz com que haja uma grande rotatividade, às vezes até porque o próprio jovem tem esperança de um trabalho melhor e acaba saindo para procurar outras coisas. Tudo caminha no sentido de que ele fique mais tempo desempregado. Os bons trabalhos estáveis são raríssimos. Com a recessão que já vinha desde o início do ano nos Estados Unidos, o turismo caiu violentamente e um setor importante no Canadá é o setor de aviação. Com o principal setor atingido pela recessão, os jovens são os primeiros a caírem fora. A estabilidade (para alguns) acaba prejudicando, especialmente, os jovens que não conseguem entrar no mercado.


(* colaboração César Fraga)



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