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Barbárie
em família
Os
assassinatos do engenheiro Manfred von Richthofen, 49 anos, e de
sua mulher, a psiquiatra Marísia, 50 anos, durante a madrugada
de 31 de outubro deste ano, no Brooklin, bairro nobre de São
Paulo, suscitaram todo tipo de teses para enquadrar o comportamento
de jovens que matam os pais. Concebido pela filha do casal, Suzane
Louise, 19 anos, o crime foi executado pelos irmãos Daniel
Cravinhos de Paula e Silva, 21, namorado de Suzane, e pelo irmão
dele, Christian, de 26 anos. Planejado em detalhes e concretizado
com frieza, o crime chocou menos pela violência do que pela
motivação alegada pela jovem: Suzane decidiu eliminar
os pais porque eles eram contra seu namoro com Daniel. Livre dos
pais, ficaria com o namorado, com a casa da família e a herança
estimada em US$ 1 milhão. Em sua confissão, perguntou
ao delegado como poderia vender a casa dos pais e deixou escapar
a sentença que, para alguns especialistas, pode ser o fio
da meada: Matei por amor.
Gilson
Camargo
ssassinatos
em família sempre foram um prato cheio para a psiquiatria
e para os meios de comunicação. A cada barbárie
cometida na sala de jantar, especialistas são desafiados
a estabelecer o que acontece na cabeça de um jovem, pobre
ou de classe média, para que ele concretize o impulso de
exterminar pais, irmãos, ou avós, como quem remove
um obstáculo que se interpôs entre ele e o objeto do
seu desejo ou do seu desejo de consumo. Transtorno de personalidade
ou psicopatia são os conceitos mais citados pelos médicos
para definir os assassinos de pai e mãe. Para alguns especialistas,
no entanto, é preciso retroceder um pouco mais no histórico
de violências cometidas todos os dias contra crianças
e adolescentes no âmbito de famílias desestruturadas
para tentar entender o fenômeno.
O psiquiatra forense e professor do curso de especialização
da Faculdade de Ciências Médicas de Porto Alegre, Rogério
Alves da Paz, afirma que o comportamento de Suzane nos dias que
se seguiram ao crime é sintomático: Enquanto
os pais viajavam, ela vivera um período de liberdade. Após
o crime, disse que matou por amor. Se queria se libertar da censura
dos pais e ficar com o namorado, por que não fugiu com ele?
Porque tinha o ganho da herança. Segundo o psiquiatra,
um dos traços de comportamento que caracteriza a psicopatia
é a ação em favor de um objetivo,
ao contrário da psicose (loucura), que não tem ganho
na realidade. Quanto mais psicopata o sujeito é, menos
os outros percebem. Isso porque a pessoa que desenvolve esse comportamento,
que não é uma doença, joga areia nos olhos
dos outros, usa a lábia e a sedução para atingir
seus objetivos e age de forma dissimulada. Ela tem noção
da realidade, do certo e do errado, embora seja incapaz de formular
juízo moral. Não tem limites sociais, ultrapassa todas
as barreiras. Mas como tem noção de que isso é
errado, age de forma dissimulada, define. O médico
assinala que, depois de chorar no velório dos pais, Suzane
promoveu uma festa de aniversário junto à piscina
da casa onde os pais foram assassinados.
| René
Cabrales
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| Psiquiatra
Rogério Alves da Paz com o grupo de adolescentes dependentes
químicos do bairro navegantes em Porto Alegre |
O
gatilho da violência
Analisar o comportamento da jovem de forma isolada, na opinião
do médico, ajuda a entender o caso von Richthofen. Ele adverte,
porém, que é impossível enquadrar os assassinos
de pai e mãe em um único perfil. Cada caso tem
o seu contexto e pode ter sido motivado por diversos fatores como
dependência química, doença mental, traumas
psíquicos, depressão, psicose, embora esses crimes
comumente estejam associados a algum grau de desestrutura familiar.
Rogério lembra que abusos cometidos contra crianças
e adolescentes, em alguns casos, podem ter sido muito maior do que
a violência desencadeada contra os pais. Funciona como um
dispositivo que é armado durante a infância e que vai
explodir durante a adolescência. A violência é
disseminada. Vai da violação sexual ao abuso de autoridade
em defesa de conceitos como educação e
limites. A intensa rigidez afetiva e o amor opressivo
dos pais pode levar os filhos à perda da capacidade crítica,
ao distanciamento da realidade e à total ausência de
afeto. O amor opressivo dos pais, na verdade, é um desamor,
pois leva ao embotamento dos sentidos, alerta. As fantasias
de morte em relação aos pais são comuns em
determinado período da vida de qualquer pessoa. Trata-se
de um impulso inconsciente que tende a desaparecer ao longo da vida
para a maioria saudável. A saúde mental faz
com que isso permaneça somente como fantasia. Mas, em alguns
casos, esse desejo não é refreado.
| CASOS
CONHECIDOS (1970/1997) |
Março
de 1970
O estudante Marcelino Souto Maia Neto, 20 anos, mata
o pai, a mãe, um de seus irmãos e a avó,
em Salvador, para receber a herança da família.
Janeiro de 1985
O estudante Roberto Peukert Valente, 18, mata a tiros
e facadas os pais e os três irmãos em São
Paulo, depois que a mãe reclama do volume muito
alto do aparelho de som.
Dezembro de 1988
O estudante Jorge Delmanto Bouchabki, 19, é apontado
como suspeito do assassinato dos pais, o advogado Jorge
Toufic Bouchabki e a professora Márcia Cecília
Bouchabki. Os corpos são encontrados na véspera
de Natal, no sobrado 109 da rua Cuba, bairros nobre
de São Paulo. O crime da rua Cuba nunca foi solucionado.
Jorge chegou a ser acusado duas vezes pelo Ministério
Público, mas a Justiça decide pelo arquivamento
do processo por falta de provas contra o estudante.
Janeiro de 1993
Depois de uma discussão com a namorada, o comerciante
Constantino Cheretis, 20, mata os pais a golpes de faca
e punhal, em São Paulo. Alega que sofria agressões
do pai e era desrespeitado pela família.
Março de 1994
A estudante de Direito Andréia Gomes Pereira
do Amaral, 20, convence seu ex-namorado, de 17, a assassinar
os pais dela, em Santos, no litoral paulista. Os corpos
foram seccionados com uma serra e enterrados. Andréia
alega à polícia ter planejado o crime
por vingança: o pai a violentava.
Setembro de 1994
O estudante Gustavo Pissardo, 22, mata o pai, a mãe
e a irmã em São José dos Campos,
no interior de São Paulo. Após os crimes,
dirige o próprio carro até a casa dos
avós, em Campinas. Relata o que aconteceu e também
os mata. Não soube explicar seu comportamento.
Outubro de 1996
Com a ajuda de dois amigos, o estudante de medicina
Haroldo Alves de Andrade Filho, 22, degola o pai e a
mãe dentro da própria casa, na cidade
de Marília, interior paulista. Queria ficar com
o dinheiro do seguro de vida da família.
Junho de 1997
O vigilante Daniel Penteado, 23 anos, mata com três
tiros o pai, Ênio, 47 que, embriagado, havia ferido
a facadas a mãe e dois irmãos. Na casa
localizada na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, havia
três crianças, de 12, 10 e 7 anos, no momento
do crime.
Agosto de 1997
Jurandir Noronha, 20, mata a mãe, Eva Noronha,
41, acidentalmente ao manusear uma espingarda, em Bento
Gonçalves, na Serra gaúcha. |
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Continua:
- Síndrome
de Narciso
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