Síndrome de Narciso

Além de atuar como médico no Instituto Psiquiátrico Forense, Rogério presta assistência a jovens do interior do Estado, é voluntário da Cruz Vermelha e da Comunidade Marta Maria, uma casa de desintoxicação que atende meninas dependentes químicas no bairro Navegantes. De tanto conviver com as barbaridades sofridas ou cometidas pelos jovens, decidiu especializar-se em sociologia e prepara sua tese de Mestrado sobre a matéria. “Vivemos em uma sociedade narcisista, na qual os valores do indivíduo preponderam sobre qualquer coisa, em que os desejos individuais são mais importantes que o bem-estar coletivo. O trânsito está repleto de gente que tranca o cruzamento porque lhe convém. Essa sociedade narcisista é criadora de psicopatas, pois estimula o consumo pelo consumo, esvazia as pessoas. O ser humano não conta nessa escalada pelo consumo. Isso se manifesta em violência. A sociedade de consumo é geradora dessa violência, independente da desigualdade social, que funciona como terreno fértil para a violência. O jovem é bastante permeável aos modismos e à pressão do consumo. Ele será mais permeável ainda se for jovem e pobre. Se pobre e drogado, tanto pior”, explica Rogério, que relaciona grande parte da violência à pressão da sociedade de consumo em cima dos jovens. “Grande parte dos jovens não tem condições de comprar o que a mídia oferece. Se o acesso à propaganda é gratuito, o acesso aos produtos é muito difícil. Nos jovens, a auto-afirmação muitas vezes se dá por meio dos produtos da moda. É só conferir os quadros da televisão que retratam o adolescente para se verificar que as bolsas, os tênis, as calças que estão na moda custam o seu peso em ouro e quem não pode adquiri-los é excluído. Associe-se tudo isso às drogas. Acrescente a isso uma cultura narcisista, violenta, competitiva e sem regras claras e definidas, em que a lei vale para alguns e para outros não, e teremos uma bomba”, compara.

 Psicopatia, mídia e política
No artigo “O Jornal e o Psicopata”, publicado no site Observatório da Imprensa, o jornalista, escritor e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Muniz Sodré, condena o uso abusivo do conceito de psicopatia pelos meios de comunicação para tentar explicar crimes como o parricídio. “O colunista de um jornal carioca chega a anunciar uma ‘moda de psicopatia na onda de crimes que está rolando no Brasil’”, exemplifica. A onipotência explicativa da grande imprensa, diz Sodré, tende a explicar tudo às pressas, ainda que a partir de uma “douta ignorância” sobre o assunto em pauta, o que não deixa de configurar uma manipulação falseadora de fatos. Psicopata é aquele indivíduo que age de maneira transgressiva sem qualquer consideração a princípios morais ou éticos e sem levar em conta a singularidade de um “outro”. “Em toda essa história de violação de princípios éticos, de atendimento exclusivo a uma razão privada sem respeito à singularidade de outra condição humana, reencontram-se os mesmos traços que nos permitem definir um certo estilo de política e de economia, predominante nos dias que correm. Referimo-nos, claro, ao neoliberalismo. Os jornalistas podem terminar chegando à conclusão de que psicopata e neoliberal sejam a mesma coisa”, ironiza Sodré.
 
 CASOS CONHECIDOS (1999/2002)
Março de 1999
João Olívio Bergotto, 42 anos, fere com um tiro a esposa, Eloá Bergotto, 39, diante dos filhos de 3, 14 e 18 anos, em Carazinho. Tiago Luiz, 18 anos, consegue pegar a arma e mata o pai com três tiros.

Agosto de 1999
Adão de Oliveira, 21, é agredido com uma faca pelo pai, João Tobias de Oliveira, 55, no município gaúcho de Vitória das Missões. Reage matando o pai a golpes de machado.

Outubro de 1999
Embriagado, um jovem de 16 anos mata o pai, Benomar Santos, 47, a tiros, durante uma discussão, em Cruz Alta.

Janeiro de 2001
O zelador Manoel Pereira, 46, é atingido com um tiro e abatido a golpes de tijolo pelo filho de 17 anos, em Tramandaí. Após o crime, o jovem arrasta o corpo até o rio. Alegou que o pai o agredia com freqüência.

Março de 2002
Carlos Fabiano Faccion, 24, mata os pais, os três irmãos e fere gravemente uma sobrinha. Comete os crimes com a ajuda da namorada Edna Milani. Faccion não soube explicar seu comportamento.

Outubro de 2002
O engenheiro Manfred Albert von Richthofen, 49, e sua mulher, a psiquiatra Marísia von Richthofen, 50, são assassinados em casa, no Brooklin, em São Paulo, na madrugada do dia 31. Uma semana depois, Daniel Cravinhos de Paula e Silva, 21, o irmão dele, Christian, 26, e Suzane von Richthofen, 19, filha do casal e namorada de Daniel, são presos e confessam terem planejado o crime para ficar com a herança de US$ 1 milhão.

Dezembro de 2002
O comerciante Celso Cantele, 42 anos, sua mulher, Clarice, 41, e os filhos Giovani, 15, e Mariana, 11, são encontrados mortos no interior da casa da família, no bairro Esperança, em Erechim, na manhã do dia 4.

 

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