|

Wu
Ming
Entre a arte e a guerrilha literária
Ilustração
Eduardo Antunes
Contar
histórias é uma das atividades mais antigas do mundo.
É uma prática fundamental de qualquer comunidade.
Todos nós contamos histórias e gostamos de ouvi-las
também. Sem elas, não estaríamos conscientes
do nosso passado nem das nossas relações com o próximo
ou com o mundo. Mas contar histórias, ao contrário
do que querem alguns, não é uma atividade destinada
a seres iluminados, inspirados por um gênio divino ou algo
do tipo. É sempre um trabalho, que faz parte da vida de uma
comunidade tanto quanto o de apagar incêndios, fabricar cadeiras
ou plantar alfaces. Em outras palavras, o bom contador de histórias
não é um artista, mas sim um artesão da narração.
Essas são algumas idéias do grupo cultural italiano
Wu Ming (expressão chinesa que significa algo como sem
rosto, sem nome, sem autoria definida),
um experimento político-literário que vem causando
grande repercussão na Europa por seus princípios e
práticas em favor da criação de uma nova linguagem
narrativa e contra a transformação da cultura em mercadoria.
Marco Aurélio Weissheimer
s
fundadores do Wu Ming são Roberto Bui, Giovanni Cattabriga,
Luca Di Meo, Federico Guglielmi e Riccardo Pedrini. Todavia, esses
nomes têm pouca importância e talvez sejam eles mesmos
fictícios. Todos os seus trabalhos são assinados
por Wu Ming, expressão chinesa freqüentemente utilizada
para designar publicações dissidentes e clandestinas.
Um dos criadores do Wu Ming esteve recentemente em Porto Alegre.
No dia 15 de novembro, Roberto Bui realizou uma palestra na Casa
de Cultura Mário Quintana, onde falou um pouco sobre a
história e o trabalho do grupo. Embora tenha se apresentado
como Roberto Bui, não há como saber com certeza
se esse é seu nome verdadeiro, ou se designa uma personagem,
alter ego ou pseudômino. Essa proliferação
de identidades fictícias é uma das marcas do grupo.
Em suas aparições públicas, eles não
permitem fotografias ou filmagens. Seu lema é: estar
presente, mas não aparecer; transparência com os
leitores, opacidade para com a mídia. Tudo para não
cair no culto entediante da personagem, um dos traços
fundamentais da indústria cultural contemporânea.
A palestra de Bui serviu também como introdução
oficial do mais novo eixo temático do Fórum Social
Mundial: Cultura, Mídia e Hegemonia.
Formado em 1994, em Bolonha (Itália), o grupo conseguiu
sobreviver até hoje em países como Espanha, França,
Inglaterra e Brasil graças à Internet, instrumento
de disseminação de suas idéias e também
palco de ações políticas e literárias.
Seguindo a lógica da guerrilha semiológica,
o grupo começou a aparecer em diferentes contextos da geografia
global, sempre através de um personagem único, um
ente coletivo que identifica o trabalho de vários escritores
e ativistas políticos. Entre as ações já
realizadas pelo grupo estão manifestos, histórias
em quadrinhos, performances de rua, notícias falsas disseminadas
na mídia, sermões pseudo-religiosos transmitidos
pelo rádio e outras ações que faziam um chamado
permanente: é preciso transformar. Embora pouco conhecido
no Brasil, o trabalho do grupo começa a ganhar simpatizantes
por aqui.
Continua:
- O começo
com Luther Blissett
- Contra a propriedade
privada intelectual
Também:
- Qualquer
nota
|