Magistério gaúcho perde Zilah Totta
![]() Assembéia geral de 1992: Zilah Totta dedicou a vida inteira à educação |
Nesta edição, excepcionalmente, Coisa de Mestre deixa de ser apenas uma coluna para registrar a morte da educadora Zilah Totta, ocorrida no último dia 21 de dezembro. Liderança histórica do movimento dos professores gaúchos, Zilah Totta foi fundadora do Cpers-Sindicato e responsável pela organização dos núcleos sindicais no interior. Jamais abandonou a luta da categoria e, num de seus últimos depoimentos, conclamou o magistério a resistir e a enfrentar as dificuldades da educação no Rio Grande do Sul. |
Renato Hoffmann
Na semana em que o governo do Estado mandava para a Assembléia o projeto que altera o quadro de carreira do magistério estadual - uma luta histórica -, a categoria perdia uma de suas maiores lideranças. Vítima de um derrame cerebral, morreu no dia 21 de dezembro, aos 80 anos, a fundadora e ex-presidente do Cpers-sindicato, Zilah Mattos Totta.
Zilah presidiu o Centro dos Professores do RS (Cppers), que havia ajudado a fundar, de 1981 a 1984. Na época da fundação, em 1945, o Centro das Professoras Primárias do RS (Cpers) tinha como reivindicações básicas o aumento dos salários e o direito de ingresso das normalistas na Faculdade de Filosofia.
Foi levada para a entidade pela mão da amiga Teresa Noronha. "Eu tinha vontade de freqüentar o Cpers e devo confessar que me encantei", revelou anos depois. Durante sua gestão, conquistou a aposentadoria dos professores aos 25 anos de trabalho, uma das lutas mais antigas da entidade. O Cpers também participou ativamente da Campanha pelas Diretas Já.
Na presidência da entidade contribuiu para a interiorização do movimento, através da criação de núcleos em dezenas de cidades. Zilah ficava irritada quando o Centro dos Professores era criticado. "Passem por lá para entender o que é o Cpers", retrucava.
No livro editado em homenagem aos 50 anos do Cpers/ Sindicato, ela deu o seguinte depoimento: "...gostaria de dizer aos professores que não desistam. O magistério tem momentos de desânimo, de dificuldades, de descumprimento de determinações, anulações (...) coisas que deixam a classe menosprezada e muitos professores têm a tentação de desistir. Mas digo que lutem enquanto puderem..."
Zilah Totta nasceu em Porto Alegre, em 30 de outubro de 1917. Foi criada numa família de seis irmãos, no bairro Menino Deus. Estudou Filosofia e Educação Física. Solteira e sem filhos, dedicou a vida à causa da Educação. Uma de suas maiores preocupações sempre foi a valorização do magistério.
Em 1939, começou a lecionar nas séries iniciais de uma escola primária da colônia alemã de Harmonia, então distrito de Montenegro. Nessa época, morou na casa da mãe do arcebispo D. Cláudio Colling. Para chegar à escolinha, precisava ir a cavalo e atravessar o rio Taquari em uma balsa.
Foi professora das escolas estaduais Júlio de Castilhos e Instituto de Educação Flores da Cunha, e diretora do Paula Soares e Pio XII. Amiga de Paulo Freire, trouxe para o estado as idéias renovadoras do mestre. Em 1978, recebeu do governo do Estado o título de Educadora Emérita.
Convidada pelo governador Ildo Meneghetti, em 1963, assumiu a Secretaria de Educação. Saiu menos de um ano depois, em fevereiro de 1964, demitida porque não aceitava interferências político-partidárias em sua administração.
Em agosto daquele ano, fundou, junto com os professores Lilia Rodrigues Alves, Leda Falcão de Freitas e Frederico Lamachia Filho, o Instituto Educacional João XXIII. O nome é uma homenagem ao Papa falecido um ano antes. A escola surgiu para educar jovens com base em quatro princípios: responsabilidade, solidariedade, trabalho e liberdade.
Zilah dizia que a proposta da instituição era "mostrar aos pais e à sociedade que educar um filho não é apenas matriculá-lo no colégio". Em 1968, a educadora e seus colegas criaram uma fundação e transferiram todo o patrimônio da escola às famílias dos alunos.
Ela definia a concepção pedagógica do João XXIII como crítica e libertadora. "Crítica, porque o aluno é sujeito de sua própria educação; libertadora, porque busca desenvolver a consciência crítica do aluno, ajudando-o a assumir seu papel na sociedade."
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