O vestibular dos vigários

Barbosa Lessa*
Além dos desafios habituais de qualquer sistema de ensino básico, no século XVIII os professores jesuítas tiveram de enfrentar dois outros percalços em suas paróquias de Itatins, Guairá e Missões do Uruguai: transmitir às crianças guaranis - e na língua delas! - o novo conceito de Rei e o novo conceito de Deus.
No ensino da Organização Social e Política, até que não tiveram maior dificuldade. Pois, previamente autorizadas pela Audiência Real de Charcas, no Vice-Reinado do Peru, chegavam prontinhas as lições cívicas sobre a família real, o trono, a nobreza, etc. Mas, no tocante à Religião, os Curas (vigários) das paróquias missioneiras precisavam se valer de variadas fontes, nem sempre concordes, tais como as preces e credos elaborados pelo P. Anchieta em São Paulo, pelo P. Montoya no Guairá e pelo P. Roque Gonzáles no Paraguai.
E eis que, em 1655, levantou-se furioso o Bispo de Assunción, D. Bernardino de Cárdenas, bradando contra as "monstruosas e gravíssimas heresias", que vinham sendo cometidas pelos vigários missioneiros de sua diocese. Principal acusação: a de terem promovido à condição de Deus Supremo um dos quatro demônios subalternos da mitologia nativa: Caapora, Yara, Tupã e Ceucy. No caso, Tupã. Vade retro, satanás! E D. Cárdenas já tomava as providências para que, em Charcas, o Tribunal da Inquisição excomungasse, sem dó nem piedade, os Curas recalcitrantes no pecado da heresia.
Então o Ouvidor da Real Audiência de Charcas e Governador do Paraguai, D. Juan Blásquez de Valverde, entrou na contenda constituindo uma Junta de dez ilustres membros, para que em tempo hábil estudassem o caso e se reunissem para proferir parecer. A reunião decisória veio a ocorrer em 31 de outubro de 1656. Ao final predominou o depoimento de que os catecúmenos pronunciavam com a maior deferência o nome de "Tupã" mas não tinham vergonha de tomar em vão o nome de "Diós". Era válido, sim, o catecismo elaborado pelo P. Roque Gonzáles!
Daí para frente, porém, para evitar confusões semelhantes, ficou determinado que qualquer nomeação para Cura, nas paróquias missioneiras, fosse precedida de uma espécie de "vestibular" - diante de banca especializada - para que o sacerdote comprovasse estar habilitado a conversar com os guaranis no mais alto grau de Conhecimento e Fé.
*Luiz Carlos Barbosa Lessa
é historiador, folclorista e escritor