Mariza Romão

Uma testemunha sob risco de vida

Corrupção, crime e abuso de poder deveriam constituir itens de insalubridade nos dissídios de trabalho dos jornalistas de todo o mundo. Apesar da idéia de liberdade de imprensa ser expressão de senso comum na opinião pública, este princípio da função social da profissão rotineiramente é transgredido. Ações judiciais sem fundamento legal, constrangimentos, pressões dos e sobre os donos dos veículos de comunicação, constrangimentos e até ameaças de morte continuam a pairar sobre os jornalistas.
Mariza Romão: "...não se deve temer. Se eles estão ameaçando é porque você oferece perigo... Nós temos de denunciar mesmo."

Um dos casos mais recentes, no Brasil, é o da jornalista Mariza Romão, repórter da TV Liberal, emissora do Pará filiada à Rede Globo. No exercício da profissão, ela testemunhou o massagre de 19 agricultores sem-terra em Eldorado dos Carajás, em 17 de abril de 1996.

Por conta disso, passou a receber telefonemas ameaçadores desde 12 de novembro, quando o juiz Otávio Marcelino Maciel, de Marabá, mandou a júri popular os 153 policiais militares envolvidos no episódio. O depoimento de Mariza Romão será decisivo no julgamento, marcado para fevereiro de 1998, e poderá levar os PMs à condenação. Nesta entrevista, originalmente publicada no Jornal dos Jornalistas, da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), cedida ao Extra Classe, ela relata a situação de terror que tem vivido com seus dois filhos e da operação montada pela Fenaj, com o acompanhamento da Polícia Federal, para retirá-la de Marabá.

Elizangela Dezincourt

Foi preciso uma operação policial digna do cinema para assegurar a integridade física e a vida da jornalista Mariza Romão e de seus dois filhos. Para criar uma rede de proteção à jornalista, a Fenaj solicitou audiências com diversas autoridades. Mariza foi recebida pelo presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, que prometeu interferir para que o Ministério da Justiça mantenha a proteção federal à repórter. Também foi discutida a responsabilidade da TV Liberal e da Rede Globo na segurança da jornalista. O presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, comprometeu-se com Mariza Romão e o presidente da Fenaj, Américo Antunes, a acelerar a votação do projeto de lei de proteção às testemunhas da Justiça. Uma maratona de audiências terminou no Ministério da Justiça. Mariza e diretores da Fenaj foram recebidos pelo presidente do Conselho dos Direitos da Pessoa Humana, Humberto Spíndola. Na ocasião, a entidade nacional dos jornalistas solicitou que seja dada proteção federal à repórter e aos seus dois filhos em qualquer lugar do país.

Marcada para morrer

A única repórter que testemunhou o massacre de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás, no Pará, está sendo ameaçada de morte. O depoimento de Mariza Romão foi fundamental para mandar a júri popular 153 PMs envolvidos no massacre. Para impedir que ela repita no julgamento o que viu, uma voz sinistra ameaça: "Se você falar, vai morrer".

Jornal do Jornalista - Quando começaram as ameaças?
Mariza Romão -
No dia 12 de novembro, dia do pronunciamento do juiz sobre o julgamento dos 153 PMs por homicídio doloso e dos três trabalhadores rurais julgados por lesões corporais. Nesse dia saiu a matéria no jornal O Liberal, um jornal importante do Pará, e recebi a primeira ligação. Logo depois, após a matéria ser exibida no Jornal Nacional, outra ligação. Até hoje foram seis ligações. Mudei minha rotina, mas com o tempo ele dava detalhes da minha vida.

JJ-Como foi sua vida nesse período?
MR -
Um terrorismo, muita tensão. Minha grande preocupação é com os meus filhos. Eu passava a noite acordada, olhando para eles, vigiando, com medo de alguém invadir minha casa e fazer alguma coisa com eles. Tocava o telefone e eu saía correndo. Sempre ouvia a mesma frase nas ligações: "se você falar vai morrer mais cedo. Eles não vão deixar que você prejudique mais do que já foram prejudicados".

JJ - Nas ligações eles dizem como pretendem cumprir essas ameaças?
MR -
A pessoa diz que não participou do massacre, mas que sabe que um grupo de policiais está armando para calar minha boca, me tirar de circulação, tudo de uma forma acidental. Pode ser um acidente de carro, um assalto, coisas que acontecem com pessoas que incomodam o interesse de outras.

Indignação, revolta e desespero no enterro dos agricultores sem-terra assassinados no Pará.

Eu não quis esperar, denunciei. A Fenaj me orientou a denunciar e a direção da empresa também. Fiz ocorrência policial, mas nada aconteceu.

JJ - O que foi feito depois da ocorrência?
MR -
Nada. Existe um círculo fechado em Marabá, as pessoas não têm interesse em resolver as coisas. Quem manda na cidade é quem tem muito dinheiro. Na prática a Fenaj fez, me tirou de lá, vim para Brasília, conscientizamos as pessoas do que está havendo, daí serão tomadas providências, mas lá ninguém mais me ajudou. Hoje eu me sinto mais segura.

JJ - Quando você denunciou tinha idéia do perigo e das conseqüências?
MR -
Não. Dirigentes da Fenaj e da FIJ que foram a Marabá logo após o massacre, me alertaram que a partir daquele momento eu não era uma jornalista comum. Era uma testemunha, mas eu não vi nenhum risco. Com o pronunciamento do juiz, acho que essa situação mudou na cabeça dos PMs, pois eles sabem o que eu vi. No dia do massacre um PM me falou que nunca nenhuma câmara filmou uma operação dessas e que eu era a primeira. Isso já foi uma ameaça. Com as ameaças, a Fenaj comunicou ao Ministério da Justiça e à comissão de Direitos Humanos e consegui proteção policial.

JJ - O que você disse nos depoimentos?
MR -
A verdade. Contei o que aconteceu. Eu sempre fui imparcial e me mantenho até hoje. Em momento algum eu acusei alguém, apenas relatei os fatos.

JJ - Como está a sua vida hoje?
MR -
Minha vida virou de cabeça para baixo. Eu não tenho condições de ficar em Marabá ou mesmo no estado. Lá a violência é comum. Lidamos com pistolagem, assassinatos sem soluções, os mandantes nunca são descobertos. Eu não quis esperar para ver o que ia acontecer.

JJ - Qual o resultado das visitas que você fez em Brasília?
MR -
Fiz uma maratona, mas com sucesso. As pessoas foram sensibilizadas, se interessaram pela questão e se colocaram à disposição. Acho que a impunidade deve ser combatida e deve-se dar mais atenção para a questão da garantia de vida à testemunhas de Justiça, como é o meu caso, do cinegrafista e do motorista que conduziu os PMs de volta a Marabá depois do episódio. Eles também foram ameaçados. Eu sei que eles também não estão mais na cidade. A Justiça tem que tomar uma providência com suas testemunhas, pois ficamos à mercê dos bandidos. Você fica encurralado, com medo de ser morto.

JJ - Você desconfia de alguém?
MR -
Não. Já pedi muitas vezes para a pessoa que me liga dizer um nome, mas ele não diz nada. A única coisa que me disse é que ele é um PM e que os 153 PMs vão ser prejudicados. Eu acredito que não é uma ameaça generalizada. Existem policiais bons e ruins. Acho que é um grupo que quer me calar. Eles estão usando os meios que conhecem – a violência – para impor medo. Eu não tenho medo deles. O que temo é que façam alguma coisa com meus filhos.

JJ - Você se arrependeu de ter feito a denúncia?
MR -
Em momento algum. Acho que outros jornalistas que trabalham em áreas de risco também sofrem esse tipo de pressão dos poderes. Isso tem que ser repensado. Nós temos que ser respeitados. Não cabe a eles decidir quando eu devo morrer, não cabe a eles dizer que eu tenho de calar a boca. Isso é um direito meu como cidadã, como jornalista, como repórter. Eu tenho obrigação de informar. Eu cumpri minha obrigação como jornalista de informar, de mostrar um fato, de mostrar o que foi Eldorado do Carajás. Até então nenhuma câmara de TV mostrou um massacre. Acho que está em jogo a liberdade de imprensa, porque eles querem me calar, porque eu fui testemunha, mas lá eu estava na condição de repórter, estava cumprindo com minha obrigação de informar. Se morreram 19 pessoas não é culpa minha, se eles se excederam não é culpa minha. Eu cumpri minha obrigação como repórter. Hoje, como cidadã, eu peço para a Justiça que me dê garantia de vida.

JJ - Você teve apoio da empresa onde trabalha?
MR -
Acredito que os donos da empresa não tenham conhecimento do que está acontecendo, pois eles não tomaram nenhuma atitude como fez a Fenaj, que me tirou do Pará e fez toda essa procissão para conscientizar o governo de que uma testemunha de Justiça está sendo ameaçada, independentemente de ser jornalista ou não. Eu sou uma cidadã e mereço respeito. No mínimo, eu tenho que ter segurança. A Justiça depende de mim, do meu depoimento para esse julgamento, então que me dê condições de chegar viva até lá. O gerente da empresa em Marabá me acompanhou no momento de registrar a ocorrência policial, mas ele não pôde fazer muita coisa. Não sei até que ponto a empresa está se preocupando com isso, mas graças a Deus existe uma federação. Hoje, dou graças por ter conhecido o Américo Antunes e o Beto Almeida. Não estou preocupada com o que a empresa vai fazer. Quando a vida da gente está em jogo essas coisas perdem o valor.

JJ - O que você diria a outros jornalistas que se calam e deixam de denunciar?
MR -
Não devem se calar. Uma das coisas que o homem que me ameaça dizia todas as vezes era: "não divulgue na imprensa". Ele sabe que nós temos poder. As vezes um jornalista que deixa de denunciar desconhece esse poder que tem de inibir, de chegar aos autores de uma ameaça. Ninguém tem o direito de tirar tua vida. Ninguém pode chegar e dizer: "você não vai mais falar disso, cale a boca pois está ferindo meus interesses ou de outros". Nós vivemos em uma democracia.

JJ - Qual o conselho para quem sofre ameaças desse tipo?
MR -
Que denuncie. Não se deve temer. Se eles estão ameaçando é porque você oferece perigo. Se você é uma ameaça é porque você tem peso. Nós temos que denunciar mesmo.

* Esta entrevista realizada pela jornalista Elizangela Dezincourt foi veiculada no Jornal do Jornalista, publicação da Federação Nacional dos Jornalistas, na edição número 58, de dezembro de 1997, na página 11.