Neltair Rebés Abreu
Santiago de traço e dignidade

Márcia Camarano

Quando entrou para a Faculdade de Arquitetura da UFRGS, em 1973, três anos depois de chegar de Santiago do Boqueirão, foi rebatizado. Santiago veio para Porto Alegre seguindo os passos dos irmãos mais velhos que, terminando o secundário no interior, viram como única saída para trabalhar e estudar a mudança para a capital. De forma que, em poucos anos, os cinco filhos, todos homens, de seu Augusto e dona Ema viviam em Porto Alegre, restando aos pais tomar o mesmo rumo da prole.

Ele já desenhava desde os tempos de guri, antes mesmo de aprender a ler. Na escola, caricaturava colegas e professores. Ao chegar em Porto Alegre, seu primeiro emprego foi de desenhista técnico em uma indústria. "Eu trabalhei como desenhista de letras numa firma de anúncio luminoso", lembra. O talento foi percebido na faculdade, quando ilustrava jornaizinhos estudantis e dava vazão à sua vertente de chargista político.

Por falar em política, Santiago sempre foi de questionar as coisas, tomar posição, de ser oposição ao estabelecido. Deve ser por causa de seu nome Rebés (revés), herdado de uma combinação explosiva de basco com catalão. "Acho que o jornalismo e o humor são oposição por natureza. É preciso revolver o fundo da panela para não deixar queimar o doce".

Uma das primeiras pessoas a perceber a arte de Santiago foi o grafista Edgar Vasques, também da Faculdade de Arquitetura, mas não da mesma turma, por ser um pouco mais velho. Vasques trabalhava na Folha da Manhã. Era o ano de 1974 e recém tinha sido criada a página "O Quadrão", para novos desenhistas. Santiago foi convidado a mostrar seu trabalho e impressionou.

Em 1975, apareceu uma vaga na Folha da Tarde. Era o começo oficial de uma carreira das mais premiadas do humor gráfico em todo o mundo. Em 1978, veio o casamento com Olga, o jornal já lhe tomava muito tempo e ele desistiu da Arquitetura, antes de terminar o curso. Como, aliás, também acabou acontecendo com Edgar Vasques.

Na época do jornal, fez amizade com Guaraci Fraga, que fazia textos de humor, organizava exposições e hoje é publicitário em São Paulo. Santiago ficou na Caldas Júnior até 1983, quando a Folha da Tarde fechou. A partir daí, começou a trabalhar como free-lancer. A sua combatente veia basca e catalã nunca permitiu que ele aceitasse o monopólio como algo natural, de forma que passou a colaborar com pequenos jornais. Os donos de periódicos de grande porte talvez até não achassem de bom tom que ele fosse para lá, para que seu caráter contestador não provocasse choques e perturbações.

Mas, enquanto o monopólio gaúcho esnoba Santiago, jornais e jornalistas do mundo inteiro louvam sua arte. É um dos humoristas mais premiados de todos os continentes. Entre os anos de 1993 e 1994, a Revista Witty World, dos Estados Unidos, publicou em livro um ranking com os dez melhores humoristas do mundo, em diversas categorias. Santiago, está lá, catalogado entre os dez maiores desenhistas de humor do planeta.

BONEQUINHOS - No estado, coleciona mais de uma dezena de Prêmios ARI. Foi premiado cinco vezes pelo Salão de Humor de Piracicaba e pelo Salão de Quadrinhos da Universidade Mackenzie, em São Paulo. Já expôs, como convidado, no Salão dedicado ao Quadrinho Brasileiro em Prato, na Itália. Primeiro lugar na Exposição "Guerra à Guerra", em Sofia, na Bulgária, em 1987, ganhou uma viagem de 20 dias pela Bulgária. Também foi premiado com o 4º lugar no Salão Internacional de Cartuns em Montreal, no Canadá. Expôs no Clube dos Diretores de Arte, de Nova Iorque, e na Mostra da Revista Print, dedicada às artes gráficas no Brasil. Menção Honrosa do Júri no Concurso Internacional de Cartuns, em Instambul, Turquia, ainda foi premiado no Concurso de Cartum Anti-Racista, em Duisburg, Alemanha. E é bom parar por aqui porque a lista não acaba mais.

No entanto, a mais importante distinção talvez seja o "Grand Prix", o prêmio máximo do Concurso Internacional de Cartum do jornal Yomiuri Shinbum, de Tóquio, em 1989. Além de 11 mil dólares de prêmio, Santiago viajou à capital do Japão, em janeiro de 1990, com todas as despesas pagas e foi tratado como um lorde inglês.

O Yomiuri Shinbum, um jornal com mais de oito milhões de exemplares diários em circulação, já concedeu ao humorista gaúcho outros títulos, como "Prêmio Por Excelência", em 1980, "Menção Honrosa do Júri", em 1983, e "Medalha de Ouro", em 1987. Agora em 97, ele recebeu nova distinção do periódico japonês. Embora tenha seu trabalho inserido entre as vinhetas da Globo, ele diz que é mais fácil publicar no Japão do que no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Quem imagina que tanto título e condecoração encharcou Santiago de empáfia está, digamos assim, estupidamente enganado. Ele é uma pessoa amável, receptiva e muito sincera, "daqueles que mora onde alega", interpreta Edgar Vasques, no vocabulário que Santiago usaria.

Pois lá no Japão, numa conversa descontraída com um magnata da comunicação, uma espécie de Roberto Marinho do Oriente, o proprietário do Yomiuri Shinbum, Santiago lhe contou uma observação que seu pai, Augusto, falecido ano passado, aos 90 anos lhe fez: "Quer dizer que te pagam para tu fazeres esses bonequinhos?". O dono do jornal japonês teve uma reação tão simples quanto a história que ouviu: "Gostei do teu pai. Vou mandar um presente para ele". E mandou.

Por conta de suas peripécias humorísticas, Santiago tem vários livros publicados, a maioria retratando seu personagem mais famoso, um tal de Macanudo Taurino Fagunde, inspirado no típico gaúcho do pampa. "Macanudo é um produto de minha vivência, dos tipos que vi e conheci. Esse ano, ele publicou "O Melhor do Macanudo Taurino".

CARÁTER - Santiago é tão sincero e original que afirma com toda certeza que nunca deveria ter trabalhado dentro das redações. "Eu termino arranjando problemas porque sempre me posiciono contra as sacanagens. O cara que lê o jornal, pensa que ele tá cheio de boas intenções, porque fala em ética e moral. Mas dentro do jornal não existe nada disso, há a sacanagem do dono para defender seus negócios, um cara querendo o cargo do outro. Eu me revolto contra essas coisas e fico sendo visto como alguém problemático".

Por esse motivo, o humorista prefere trabalhar em casa. "Para não viver a pequenez do dia-a-dia". Em casa, onde mora com Olga, o filho Bernardo, de 17 anos e Cátia, de 20, ele trabalha, atende os amigos... se diverte. É onde se sente bem. "Quando canso da rotina, gosto de viajar". Esse ano, aproveitou que Bernardo tinha juntado umas economias e foi com o filho para Nova Iorque.

Foi a segunda vez que ele visitou a cidade norte-americana. A primeira foi junto com Edgar Vasques, quando os dois participavam de um intercâmbio cultural e seguiam para Paris. Como o vôo era triangular, eles ficaram alguns dias em Nova Iorque. "Foi muito divertido. Dois caipiras no Times Square. Tudo o que fazíamos era a perfeita mambiragem. A gente se atrapalhava na porta do banco, do metrô". Os dois matam os amigos de rir quando lembram que ficaram com dor no pescoço, ao olharem meio de lado, de baixo para cima, os arranhacéus da metrópole.

Como se achavam perfeitos mambiras, inventaram a brincadeira dos "adoradores de deus mamba", a cada mambiragem feita. Santiago acha que a maior delas foi a tentativa de fritar um ovo no quarto do hotel. "A gente não sabia que tinha que acionar o exaustor. Soou o alarme contra incêndio, era gente correndo só de cueca pelos corredores, uma coisa doida".

É só ficar ao lado de Santiago por alguns instantes que já vem alguma coisa engraçada pela frente. Porque ele é assim, engraçado, brincalhão e amigo. Nos seus 47 anos de idade, o humorista costuma dizer que tem dois lados bem definidos. Um, o da indignação política, que ele mesmo acredita ter sido o motivo para que as portas do mercado gaúcho se fechassem para ele. E o outro, brincalhão. "Gosto de fazer cartuns. Me divirto e divirto o leitor. É minha forma de desopilar. Humor é a necessidade do ser humano de fazer graça".

O trabalho para ele não é um fardo e talvez seja difícil entender como ele, ao mesmo tempo em que desenha, orienta Bernardo e determina as tarefas de Terezinha Rodrigues Vieira, a empregada doméstica, que gosta tanto do patrão que deu a filha Ana Carolina para que ele a batizasse. "A gente brinca todo o tempo, dá risadas. Eu gosto muito de contar causos para ele. Às vezes ele me corre, por que tem que trabalhar e eu digo, 'só mais uma'. A gente passa todo o dia foliando".

Tudo é feito com muito bom humor e disposição na casa do humorista. "Gosto do meu trabalho. Estou bastante à vontade. O lado econômico é que é problemático na vida do humorista. Acho que gente como eu, com mais de 20 anos de carreira, deveria ter uma tranqüilidade maior. Os desenhistas são pessoas modestas, sem grandes pretensões. Isso é uma coisa que angustia a gente: falta de perspectiva, de não ter uma aposentadoria. Nós sabemos que vamos trabalhar até morrer. Acho que na virada dos meus 50, eu deveria ter uma vida tranqüila".

COMPADRE - O jornalista e professor universitário Marques Leonam conheceu Santiago quando trabalhava como repórter na Folha da Tarde. "Eu era amigo do Luiz Abreu, fotógrafo da Caldas Júnior, irmão dele. Um dia me aparece o Santiago. Vi aquela figura e fui me informar. 'É irmão do Luiz', me disseram. Fui lá falar com ele: "Não brinca que tu é irmão do Luiz". A amizade nasceu naquele instante. Era a década de 70 e até hoje não se largam mais.

São amigos e compadres. Leonam é padrinho de Bernardo. São dois grandes talentos que se encontraram na amizade. É com carinho que Leonam fala no amigo. "O Santiago é uma figura alegre, um tipo que não existe mais, está em desuso. É aquela figura com caráter, princípio e lealdade, quando tinha tudo para ser um sujeito metido a besta". O jornalista também conta que, juntos, dão muitas risadas. "A gente se encontra na sexta-feira, eu vou na casa dele, almoçamos e depois vamos para o centro e passamos a tarde dando risada".

Como professor de faculdade, Leonam costuma terminar seus semestres "no bagaço", como diz. Aí, ele pega o telefone e liga para Santiago e outros amigos, dizendo "alô, aqui é Leonam em crise, quero gandaia, não suporto mais falar sério". Por conta desses encontros, acabaram fundando uma entidade, o Simtupe (Simpósio da Estupidez). "Já realizamos dois simpósios internacionais, porque o Rio Grande do Sul está inserido no Mercosul, não é?". Segundo Leonam, Santiago é general no Simtupe, "porque ele é um ordinário incrível".

O forte do Simtupe é o trocadilho, mas aquele imperfeito (a graça está no pé quebrado). Os dois costumam ficar ainda duas horas no telefone falando bobagem. "A família toda dele é maravilhosa, eu costumo dizer que sou um dos Abreu, que sou da família", brinca. Para ele, a graça do amigo está no fato de ser um cara sério, preocupado com o mundo, "mas, ao mesmo tempo, ser um moleque. O trabalho dele é único. Tu botou os olhos e já sabe: aqui é Santiago".

O grafista Edgar Vasques, 48 anos, lembra do jovem Santiago na Faculdade de Arquitetura, um pouco mais moço que ele, desenhando nos jornaizinhos estudantis. "Achava legal a economia e a simplicidade do traço dele, o que é um indicativo de qualidade". Foi por seu intermédio que Santiago foi parar na Caldas Júnior, debutando na grande imprensa. "Ele apareceu com seus desenhos e eu disse, 'pô, é alta qualidade'. A gente se antenou nele. Santiago impressionou, foi contratado e começou uma carreira brilhante".

Para Vasques, o colega é o que os gaúchos costumam batizar de autenticidade. "Ele é franco, evidente. Além de bom desenhista, é excelente pessoa. Tu não te engana com ele. Tem um trabalho de sutileza que chama a atenção. A gente se identificou muito, pelo respeito de um pelo outro, com relação ao trabalho".

Outro jornalista, Walter Galvani, que exerceu cargos de chefia na Folha da Tarde, Folha da Manhã e Correio do Povo, das décadas de 60 a 80, recorda a preocupação que o Grupo tinha com o desenho de humor. A abertura se deu com a publicação dos trabalhos do argentino Epstin, que sempre fazia um comentário bem humorado dos acontecimentos. Xico Stockinger, antes de se tornar o escultor famoso, também deu sua contribuição na área para a Caldas Júnior. Depois, vieram os dois irmãos, Sampaio e Sampaulo.

"Aos poucos, foi se tornando uma necessidade para nós ter um chargista, nós queríamos buscar os bons profissionais. Aí apareceu o Santiago, com uma simplicidade enorme, descontraído. Ele era um interiorano vendo o mundo da capital. Isso era importante: com a visão do colono. O grande acontecimento dele foi seu personagem Macanudo Taurino".