Reveillón
de 1988. Porto Alegre é surpreendida por uma festa inusitada no Gigantinho, com milhares
de pessoas comemorando a entrada no novo ano e a posse de Olívio Dutra prefeito no dia
seguinte, o primeiro representante das forças de esquerda e populares a assumir a
Prefeitura. Exatamente dez anos depois, outra festa para comemorar uma posse de Olívio
Dutra, desta vez para o Governo do Estado.
Mas até a festividade terá um caráter diferente. Será uma festa popular, em
Frente ao Palácio Piratini, que acontecerá, faça chuva ou faça sol, a partir das 17
horas do dia 1º de janeiro, tão logo se encerrem as solenidades - 15 horas na
Assembléia Legislativa e 16 horas, transmissão de cargos no Palácio Piratini.
A Rua Duque de Caxias será fechada para abrigar as mais de 20 mil pessoas
esperadas e um palco por onde passarão músicos e políticos de todo o Brasil e
estrangeiros. "Cerca de 60 artistas foram contatados ou nos contataram, querendo
participar de forma gratuita", revela Jairo Carneiro, da executiva regional do PT
que, junto com o secretário de Comunicação do Governo Olívio Dutra, Guaracy Cunha, e
quatro relações públicas, finaliza os preparativos para a posse do novo governador.
Até o momento, não está definido se Antônio Britto passará o cargo para
Olívio Dutra. "Eles mudaram o centro das tensões da transição para a
transmissão", denuncia Guaracy Cunha. Segundo ele, os representantes do governo que
sai alegam que não vão expor Britto numa festa dos adversários em frente ao Palácio.
TRANSMISSÃO - Alegando constrangimento, Antônio Britto decidiu
romper com a tradição e se recusa a comparecer à serimônia oficial de transmissão de
cargo para Olívio Dutra. "Eles querem fazer uma festa no mesmo lugar para despedida
do Britto. Então, ficou acordado entre os comandantes da Brigada Militar dos dois
governos que fiscalizem as duas torcidas porque, se eles querem uma festa, que
façam". Guaracy acredita que a estratégia do grupo que sai é levar a dúvida sobre
a participação de Britto até o último momento, que é a posse no dia 1º de janeiro.
Outra má notícia é que, ao contrário do esperado, Chico Buarque não
comparecerá, devido a compromissos previamente assumidos. Mas a equipe está em
tratativas com Paulinho da Viola e Martinho da Vila. E, já que um galo missioneiro
assumirá o governo, nada mais natural que a parte artística dedique um bloco inteiro
para músicas nativistas, onde se apresentarão Leonardo, Pedro Ortaça, entre outros.
Quem gosta de música clássica terá sua vez com a participação da Orquestra e
Coral Amigos do Olívio, que já deu uma canja no último comício do então candidato ao
governo. Rubens Santos não sente o peso de seus 89 anos recém completados e faz questão
de se apresentar na festa, ao lado de Lourdes Rodrigues, outro grande nome da música
gaúcha.
LULA - "Será uma grande confraternização e quem vier
participará de uma posse realmente popular", diz Carneiro. Junto às apresentações
artísticas, as pessoas vão acompanhar as manifestações dos líderes nacionais do PT,
Luís Inácio Lula da Silva, e do PDT, Leonel Brizola. Pela manhã, Lula e Brizola
participarão da transmissão de cargo no Rio de Janeiro, onde Anthony Garotinho (PDT)
tomará posse, juntamente com sua vice, Benedita da Silva (PT).
Entre as representações estrangeiras, estarão a Frente Ampla, do Uruguai, além
de deputados daquele país e da Argentina; o prefeito de Montevidéu, Mariano Arana, e o
intendente da Cidade do México, Guauthémoc Cárdenas. Também virão integrantes do
grupo Mães da Praça de Mayo.
PILCHA - Outra atração será a participação de 150 gaúchos
pilchados que deixarão o Parque da Harmonia a cavalo e chegarão ao Palácio Piratini
para entregar uma bandeira do Rio Grande do Sul para o governador empossado.
Enquanto acontece a festa, todos os secretários tomarão posse às 20h30min, numa
única solenidade, no Centro Administrativo, ato decidido há bem pouco tempo com os
representantes do governo que sai. "Está muito difícil trabalhar as solenidades de
posse com os atuais inquilinos do Piratini. Por exemplo, os convites estão prontos há
vários dias e, até hoje não nos passaram, só vão nos enviar na semana das
atividades", reclama Carneiro.
Guaracy Cunha informa que sua equipe confeccionou, por conta própria, 450
convites. Isso quer dizer que, se a equipe de Britto não fornecer os convites em tempo
hábil, os relações públicas de Olívio enviarão os seus próprios.
O grupo do novo governador só conseguiu se reunir com a equipe de Antônio Britto
para discutir os detalhes da transmissão de cargos no dia 18 de dezembro, quando houve a
primeira reunião conjunta. "Nós tivemos que pressionar bastante para que houvesse
uma reunião a fim de acertarmos os detalhes", conta.
Porém, no final das contas, o dirigente petista promete uma festa inovadora,
significativa não só em termos do número de participantes, mas quanto ao caráter
popular que será dado a uma posse para governador. "Semelhante a isso, que eu me
lembre, só quando Alceu Collares assumiu, em 1990, quando estiveram presentes cerca de
mil pessoas, mas nada parecido com as cerca de 20 mil pessoas que estamos esperando".
O caráter popular, garante Carneiro, não será dado somente pelas pessoas que
espontaneamente, participarão da festa. Mas pelas entidades organizadas - sindicatos,
movimentos populares - que os organizadores pretendem que dêem a posse informal a Olívio
Dutra. No fechamento desta edição o impasse ainda continuava e os assessores de Britto
mandaram imprimir outro convite, com um texto genérico, sem explicitar se o atual
governador transmitirá pessoalmente ou não o cargo a Olívio Dutra.
[Declaração Universal
faz 50 anos]
[A Declaração dos Direitos Humanos]
[Nova lei entrará em vigor no dia 1º de janeiro]
[Notas...]