A verdadeira história da expedição de Cabral

CÁSSIO GLAVÃO BESSA *

Comprei na Feira do Livro o grande sucesso de vendas desta, que é o primeiro livro da Coleção Terra Brasilis, da Editora Objetiva, escrito pelo jornalista Eduardo Bueno, mais conhecido como Peninha. Fiz a leitura e escrevi este comentário crítico a respeito da obra, que agora exponho neste espaço. Começo dizendo que o autor pretende vender uma ilusão ao leitor, quando apresenta o seu título, estampado na bela capa da obra, "A viagem do descobrimento - a verdadeira história da expedição de Cabral". Creio que o Peninha apresenta uma versão da viagem deste navegador até a "Terra de Vera Cruz", apresentando detalhes e curiosidades até muito interessantes. Agora, acho que é muita pretensão deste querer afirmar que a "verdadeira história" será apresentada em seu livro, como se até então as histórias escritas tenham contado uma ficção. Sabemos que para se aproximar da verdade histórica, há que se ter muita seriedade e estudo. Sem falar de que este debate sobre achar uma verdade histórica é um tanto quanto polêmico, pois trabalha com diferentes posicionamentos ideológicos e até metodológicos.

Desde o início do livro, o autor faz uma narração da viagem de Cabral, assim como a justificativa portuguesa para as navegações, mas sem contextualizá-la na conjuntura européia da época, onde se dava a transição do feudalismo para o capitalismo. Não amarra os fatos e a história de Portugal com esta realidade continental. O problema não é o enfoque que dá ao país lusitano como se fosse o centro do mundo, mas a desconsideração e a desconexão com os vizinhos europeus. As amarrações que faz com a história econômica, política e social do Velho Mundo são pífias. Isto nos mostra uma noção primária e factual de processo histórico. É uma história rica em detalhamentos, curiosidades etimológicas e na caracterização de indivíduos. Além disso, outro problema da obra é que o autor escreve muitos fatos ou mesmo atos de personagens históricos sem citar a fonte que embasa tais afirmações. Um exemplo disto se lê na página 78 do livro, onde o autor escreve: "a verdade é que Afonso V decepcionou-se com a África. Havia escravos, havia malagueta e havia ouro da Guiné. Mas nada parecia ser em quantidade suficiente para agradar o monarca"(?!). Afirmações como esta me parecem muito mais de suposições literárias do que históricas. Além da falta de citações em muitas partes de sua narrativa, podemos também questionar a desatualização de sua pesquisa bibliográfica, pois em sua bibliografia comentada, aparecem muitos livros, dos quais afirma ter lido, mas parece desconhecer a historiografia dos últimos 20 anos. Apenas para citar algumas obras mais recentes sobre o tema, o livro De Ceuta a Timor, de Luís Felipe Thomaz, assim como também A História do Novo Mundo, de Carmen Bernand são ótimos. Poderia citar ainda o historiador Sanjay Subrahmanyam, ou mesmo Jorge Couto. Também me parece estranho o fato do autor ter extraído boa parte de suas gravuras do livro História da Colonização Portuguesa do Brasil, de Carlos Malheiro Dias (Litografia Nacional, Porto, 1926), sem ter comentado este fato na sua bibliografia, apesar de citada a obra.

Apesar destas críticas feitas até aqui, não quero desmerecer o livro como um todo. Primeiro porque ele nos apresenta uma versão da descoberta de Cabral através de uma linguagem atrativa, e de fácil leitura ao leigo. Um dos problemas que muitas vezes os historiadores têm, é de escreverem seus livros e compêndios apenas ao iniciado no assunto, como que só os intelectuais ou acadêmicos pudessem ter acesso à leitura histórica. O fato do autor, Eduardo Bueno, ser jornalista, é uma vantagem para tal fim. Esta é, na verdade, uma lacuna para os historiadores. Ou se faz estes livros para estudiosos, ou se escrevem nossos terríveis e temíveis livros didáticos, destinados aos estudantes de primeiro e segundo graus, e que têm a preocupação de resumir e esquematizar a matéria. Também quero dizer que a apresentação do livro é muito boa, com um material gráfico e impressão de primeira qualidade.

Para finalizar, acredito que a obra tem seus méritos, mas peca por não ter sido explícito em sua proposta, de escrever uma versão da história para o público em geral, sem o compromisso da cientificidade, mas ressaltando aspectos pitorescos e detalhados da viagem de Cabral. Sem dúvida um livro fácil de vender, como o Seleções do Reader’s Digest, que aliás é um dos textos citados na bibliografia. Creio que pode-se aprender na leitura de tal obra, só tendo o cuidado de saber seus limites, não caracterizando-a como "a verdadeira história da expedição de Cabral".

* Cássio Galvão Bessa é professor de história nos Colégios Bom Conselho e
Dom Bosco, em Porto Alegre, e diretor do Sinpro/RS.

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