Protagonista na vida

Jornalista, escritor, músico, cantor e professor, Carlos Gerbase tornou-se cineasta num movimento que caracterizou os anos 70, rompendo a um só tempo com o ranço acadêmico e o tietismo cinéfilo. Hoje, aos quase 40 anos, ele tem mais de uma dezena de filmes premiados, escreve para a televisão e para a Internet e preocupa-se com a formação musical das três filhas.

Renato Hoffmann

Jornalista, escritor, músico, cineasta e professor. Com tantas atividades, é natural que a agenda de trabalho do porto-alegrense Carlos Gerbase, que faz 40 anos em fevereiro de 1999, esteja sempre cheia. Depois de alguma insistência, o ex-aluno dos colégios Bom Conselho e Anchieta acha um tempo para a entrevista, entre uma banca de monografias na Faculdade dos Meios de Comunicação da PUC-RS, onde leciona há 18 anos, e uma viagem. Na hora marcada, ele aguarda em sua sala, no primeiro andar da nova sede da Casa de Cinema, produtora da qual é um dos sócios desde 1987. Aproveita para escrever um release sobre seu mais recente projeto, um longa metragem que começa a filmar em meados do ano que vem.

O filme "Intolerância" é um projeto de dois anos e meio que está em fase de captação de recursos para a produção. Até agora, conseguiu amealhar cerca de R$ 500 mil, via leis de incentivo à cultura e ao audiovisual. No final do ano, teve o reforço de um prêmio oferecido por uma empresa que, quando for pago, será suficiente para completar o orçamento de R$ 1,6 milhão. "Esse filme foi uma decisão nossa de apostar num longa metragem", explica o roteirista. "Depois de dez anos, achamos que se a gente não fizesse um longa agora, num momento de retomada do cinema brasileiro, a gente não faria mais." O início das filmagens está programado para maio de 1999.

CORAGEM - Quando entrou na faculdade, Gerbase pensava em ser um jornalista tradicional. Lá pelo sétimo semestre, foi trabalhar como repórter na extinta Folha da Tarde. Gostava de escrever e nessa época já redigia seus primeiros contos. Depois de um ano, descobriu o que realmente queria fazer – cinema. No final dos anos 70, conheceu alguns companheiros com quem mais tarde mudaria a história do cinema gaúcho. Entre eles, Nelson Nadotti (hoje morando no Rio de Janeiro), e Giba Assis Brasil (seu sócio na Casa de Cinema). Os dois estavam produzindo um longa metragem em super-8 chamado "Deu Prá Ti Anos 70". De lá prá cá, sempre esteve envolvido com a produção audiovisual, seja em super-8 , 16 mm, 35mm, ou em vídeo.

"Eu não tive com o cinema uma aproximação acadêmica, ou do cara que é cinéfilo, que adora um diretor e vai ver como é que ele faz pra fazer parecido", explica. "Minha influência básica no cinema chama-se Nelson Nadotti, porque era um cara da minha idade com uma câmera super-8 e com coragem suficiente para fazer e exibir seus filmes", continua. "Eu entrei no cinema pela via mais prática possível; já escrevia contos e o Nelson me disse que bastava separar o conto em cenas, pegar uma câmera e filmar aquilo, transformar em imagens e sons", revela. "Meu modo de ver o cinema é extremamente simplista, a gente fez vários filmes dessa maneira."

CONFESSIONAL - A geração de cineastas da qual Gerbase fez parte ainda hoje é importante, porque apresentou uma proposta estética inovadora, diferente do cinema gaúcho que existia até então. "Os curta-metragistas iam para o Festival de Gramado com seus curtas, geralmente documentários, que tinham uma proposta estética completamente diferente da nossa", coteja. "A gente começou a fazer filmes bastante confessionais, falando sobre a nossa geração, e que tiveram uma comunicação muito grande com o público."

Avesso a rótulos, o diretor de Sexo e Beethoven (1980) não aceita o estigma de cineasta cult. "Chamavam o cinema que a gente fazia de alternativo e realmente era isso, porque a única alternativa que nós tínhamos era o super-8", ironiza. "Quando tivemos oportunidade de fazer filmes com bitolas maiores, a gente foi fazer, não houve um planejamento." O premiado diretor e roteirista surpreende quando afirma que nunca teve vontade de estudar cinema. Na vida dele as chances aparecem, e ele encara.

POR ACASO - A oportunidade de se tornar professor surgiu em 1981. "Tinha só 21 anos e nunca havia pensado nisso." O convite foi do então diretor da Famecos (a faculdade de comunicação da PUCRS), Antônio Gonzalez, que na época era seu colega na redação da Folha da Tarde. "Eram aulas práticas, eu tinha que fazer filmes com os alunos e isso era uma coisa que eu sabia fazer", recorda. "Para mim, era apenas um emprego melhor do que eu tinha, com a vantagem de que eu ia fazer filmes."

Além da PUC-RS, onde hoje leciona no curso de especialização em Cinema, Gerbase passou pelos colégios Israelita e Anchieta. "Fiz alguns trabalhos com os alunos que eu guardo até hoje com o maior carinho", orgulha-se. Durante três anos, esteve na UFRGS como professor substituto, dando aulas de Cinema, mas se demitiu, indignado com o baixo salário dos professores da universidade. "Hoje acho que é a matéria que eu domino melhor é Introdução à Fotografia. Quando entrei, era absolutamente verde, mas depois de 15 anos, me sinto tranqüilo."

REPLICANTE - A música é o passatempo predileto do pai de Iuli, oito anos, de Livi, cinco, e de Iami, três. "Levo as meninas ao colégio, vou buscar, faço bastante coisas com elas", informa. "Nesses momentos, aproveito para fazer a formação musical delas", diz, lembrando que quando era pequeno os irmãos mais velhos sempre ouviam MPB, Jazz e Rock. No começo dos anos 80, ele e alguns amigos ficaram fãs do punk rock, um gênero musical que tem como regra o "faça você mesmo". "Uma coisa da qual você gosta fica mais legal ainda quando você faz", pontifica o ex-baterista e atual vocalista da banda Os Replicantes – o nome é uma referência explícita ao cinema, retirado do filme "Blade Ranner", de Ridley Scott .

O devotado instrutor musical das filhas é um músico autodidata. "A gente não teve aquela fase de aprender a tocar, aquele negócio de formação da banda, de escolher repertório. Nenhum de nós sabia tocar qualquer instrumento. Absolutamente nada.", confessa. "Eu comprei uma bateria pingüim, do Plínio – irmão do Giba Assis Brasil – que não tocava mais, o Heron e o Cláudio Heinz foram para a loja comprar um baixo e uma guitarra. O Cláudio ainda arranhava alguma coisa no violão, e o Heron nunca tinha pego um instrumento na vida. Ele não sabia nem que o baixo tinha quatro cordas. Nós tínhamos uma imensa capacidade de transformar barulho em música."

ENERGIA - Poucos meses depois de rodar pela primeira vez, na rádio Ipanema, um de seus primeiros sucessos – "Nicotina" –, a banda entrava em estúdio para gravar o primeiro disco. "A reação foi muito forte, tanto de pessoas que odiaram, quanto daqueles que adoraram", relembra. A partir daí, a banda começou a fazer shows, "com a maior cara-de-pau, porque nós éramos tecnicamente muito precários." Em compensação, "tínhamos uma coisa que nenhuma outra banda tinha: uma energia muito grande", pondera.

Descobertos pelo produtor Tadeu Valério, da gravadora RCA, Os Replicantes chegaram a iniciar uma carreira profissional, com direito a turnês e participações na série Rock Grande do Sul, além de álbuns próprios. No início dos anos 90, com a saída do vocalista Wander Wildner, Gerbase largou as baquetas, foi para a frente do palco e virou cantor. A mudança na formação serviu para a banda reencontrar-se com suas origens. "Nós fazemos música porque gostamos, o que pintar além disso, ótimo", decreta o vocalista. Os Replicantes continuam fazendo shows, mas com menos freqüência do que antes.

TORRADAS - Capaz realizar performances radicais com sua banda, o músico admite que não é o mesmo quando o palco é a cozinha. "No máximo, faço umas torradas para as minhas filhas", reconhece. Nessas horas, quem brilha é a mulher, Luciana, "Ela sim, cozinha muito bem", elogia. Luli, como é conhecida, também é expert em viagens. "Por ela, a gente viajava para fora do país uma vez por semestre", exagera. Com um ritmo de trabalho incessante, o casal encontra nos festivais de cinema a chance de conhecer novos lugares. "Há dois anos fomos à Holanda (Festival de Rotterdam) e à França (Festival Internacional de Clermont-Ferrand), mostrar o filme ‘Deus Ex-Machina’", conta. Alguns roteiros têm revelado surpresas para este típico morador do Bom Fim, famoso por sua agitação cultural. "Miami passava aquela idéia de praia, de uma coisa meio brega, mas tem uma vida cultural muito interessante", descreve. "Nova Iorque é diferente, é Porto Alegre vezes dez", compara. "Eu me sinto em casa em Nova Iorque, tem muita coisa para se ver e para se fazer."

Admirador dos clássicos na adolescência, o escritor já leu bem mais que atualmente. "Tive uma sede de leitura lá pelos 20 anos, tentei conhecer os grandes autores do século XIX, do Realismo. Li Eça de Queiroz, Zola, Flaubert" . Nas férias, garante que devora de cinco a seis livros, mas nas bancas só procura revistas de fotografia, música e informática. "Praticamente não li nada de poesia e sou um ignorante quase completo em ensaios de filosofia", acrescenta. O gosto assumido pela ficção influenciou os primeiros contos que escreveu. Tem um livro do gênero publicado pela LP&M, "Comigo Não" (1983). Atualmente, dedica-se mais à crítica de cinema, às novelas multimídia para pages da internet e às crônicas para a revista eletrônica Não (http:www.nao-til.com.br) que edita com os inseparáveis amigos da Casa de Cinema Jorge Furtado e Giba Assis Brasil.

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