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Um século
que se vai
Olhando de
longe, esses parecem ter sido os últimos cem anos mais
intensos da humanidade. Mas sabemos que não foram, todos
os anos passam com a mesma velocidade, o mundo gira no mesmo ritmo
e a ciência, a história, as relações
humanas evoluem como sempre evoluíram e como sempre há
de evoluir. Mas, então, qual a diferença deste final
de século? Apenas uma, na opinião deste jornal:
os últimos cem anos foram intensos, excessivos, condensados,
cheios de uma dinâmica particular, toda própria.
Senão,
vejamos: este foi o século do cinema, dos aviões,
da energia nuclear, da física quântica, da televisão,
da psicanálise, da medicina, da arte moderna. Foi um século
de conflitos armados em excesso, embora tenha havido conflitos
armados em todos os séculos. Foi um período de mergulho
na individualidade humana, ainda que tenhamos ficado menos solidários
com isso. Foram os cem anos das revoltas populares, das grandes
revoluções e das grandes decepções. E das grandes
guerras, também.
Não
é tarefa fácil para um jornal contar alguma coisa
desses cem anos, ainda mais se considerarmos a diversidade de
fontes, de fatos, de Histórias (com agá maiúsculo)
que temos à disposição. Optamos por apresentar
um painel - sem dúvida parcial - de alguns fatos que foram
marcantes nos últimos cem anos, sempre sob o enfoque do
excesso. Esperamos, com isso, dar ao leitor uma alternativa para
interpretar esse período, e não apenas conhecê-lo.
O esforço dos repórteres Renato Dalto e César
Fraga está nais oito páginas que compõem a matéria
de capa desta edição, já a partir da página
9.
Mas não
é só isso que acontece nesse período pré-virada
de século. O mundo não pára. A reforma agrária
do estado sai do papel e ganha os primeiros assentados, mais precisamente
57 famílias de sem terra que agora poderão plantar
num espaço próprio. Além disso, não
param também as manifestações de descontentamento
com o atual governo federal, que joga o país numa delicada
situação econômica sem perspectiva de mudança
em curto prazo. No dia 10 de novembro, 200 mil trabalhadores cruzaram
os braços no estado para protestar contra isso.
E temos, também,
o registro da memória viva dos últimos cem anos nos olhos
e sentidos do jornalista Barbosa Lima Sobrinho, que completou
102 anos lúcido e produtivo como poucos. Nascido no mesmo ano
de fundação da Academia Brasileira de Letras, na
qual ingressou em 1937, ele conta um pouco do jornalismo, da política
e da vida brasileira nesse período intenso e conturbado.
E revela sua predileção em termos jornalísticos.
No mais, é
festejar a virada do século e esperar que 2000 marque o
início de um período de humanização
das relações políticas, econômicas e sociais
deste planeta. Esperar, não: fazer com que isso aconteça.
O Editor
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