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Lição
de moral
Luiz
Carlos Barbosa
Quem
sabe a sociedade esteja mesmo precisando de muitas fábulas para
a educação das crianças. Diante de tantos
apelos perversos, sem nenhum compromisso ético, veiculados pela
televisão e transfigurados em inocentes brinquedos de menina,
uma boa lição de moral não deixa de ser bem-vinda.
Claro, contanto que a arte literária não seja reduzida
a mero instrumento do didatismo, mas contemple o sentido estético
indispensável ao prazer da leitura.
Esta reflexão,
nem tanto extra literatura, é suscitada pelo lançamento da editora
Projeto, "Três contos de muito ouro", da reconhecida autora de
contos para o público infanto-juvenil, a carioca Fernanda Lopes
de Almeida. Em formato grande, a edição é de encher os olhos.
Essa sensação acentua-se pelas vigorosas ilustrações da artista
plástica gaúcha Cristina Biazetto. Ela estréia com esta obra na
atividade editorial que, se espera, tenha continuidade, porque
os seus desenhos certamente estão encantando os leitores.
A "lição
de moral" - além do emprego de atributos humanos a animais
e criaturas mitológicas é o elemento constitutivo da fábula, um
gênero que tem descendência direta da literatura oral, e cuja
narrativa curta, sempre encerra uma "mensagem" de caráter ético.
Contudo, os
textos escritos, mais contemporâneos, em geral releituras
e reinvenções de histórias da tradição
trazida pelo grego Esopo do Oriente - sobretudo da Índia
- tendem a abolir a escritura explícita da "mensagem".
É o caso das inúmeras versões de "A cigarra e a formiga",
do mesmo Esopo.
"Três
contos de muito ouro" chama a atenção exatamente
por que recorre, tanto no texto como na ilustração,
a um aspecto central da estrutura da fábula clássica,
em que a "moral da história" é destacada. Porém,
este resgate - até enternecedor para as crianças com mais
de 40 anos - não compromete a inventividade dos contos.
Tampouco a função emancipatória do processo
de identificação entre personagens e leitores. As
criaturas de "A galinha preguiçosa", "Os
desejos" e "Gastar o meu dinheirinho?" têm
a capacidade de vivenciarem situações adversas e cometerem
enganos, mas compreendê-los e superá-los.
Não
admira, portanto, que Fernanda Lopes de Almeida seja uma das escritoras
brasileiras responsáveis pela atualização deste
gênero, que foi transferido para o Ocidente no século VI
antes de Cristo. Em suas obras anteriores, "A fada que tinha
idéias"(Ática, 1978 e "Soprinho" (Melhoramentos,
1978), Fernanda renova arquétipos e estrutura personagens
competentes para pensar o mundo que os leitores encontram na esquina
ou na escola. Aliás, já diz tudo, o fato de a fada Clara Luz ter
idéias. Com as mediações necessárias, Fernanda realiza
uma obra para crianças de 1999. E dá boas lições
de moral, sem simplificar o conteúdo maravilhoso - outra
tipicidade da fábula, pelo seu nexo com o folclore e a sabedoria
popular. Assim, reforça sentimentos tão impregnados
na humanidade que são pronunciados em português,
grego, latim, espanhol, francês, alemão e inglês,
graças a autores como La Fontaine, que coligiu centenas
de fábulas.
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