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Assassinato da memória
O Brasil continua
pagando caro por seus erros culturais. Nossos verdadeiros artistas
e pensadores são relegados ao mais vil esquecimento. Concordo
com o Gilberto Vasconcellos quando ele frisa que a "melancólica
instalação de um protetorado norte-americano, tipo
Costa Rica, corresponde ideologicamente ao plano do poder mundial
de esculhambar os ícones e valores nacionalistas da cultura
brasileira. O escritor Euclides da Cunha, pênis pequeno,
não sabia trepar; o músico Villa Lobos era autoritário
e 'populista', em seu canto orfeônico louvando o Estado
Novo getuliano; o historiador Nelson Werneck Sodré não
dançou nas festas com as musiquinhas da Rita Lee Jones".
Todas estas
questões se refletem na formação de uma cultura eternamente
frustrada, que açoita com o jugo do silêncio artistas como Glauber
Rocha, que foi vítima da indiferença, quando da passagem da
data onde faria 60 anos. Exceto pela revista Bravo, que lhe dedicou
uma matéria de capa, aliás, uma matéria muito ruim assinada pelo
jornalista Nirlando Beirão, que não foi além que requentar algumas
leviandades que já foram ditas e repetidas sobre o cineasta baiano,
fazendo críticas vazias, como afirmar que Rocha escreveu demais
e filmou de menos, ou considerações sem a devida ponderação, como a insistência em construir uma imagem reacionária de Glauber,
pintando-o como um louco e suicida, quando foi, na verdade, vítima de um assassinato cultural, como todos intelectuais que não
estavam de acordo com a flauta da pseudo esquerda cebrapista,
do Partidão (PCB) e de outros ditos marxistas que, na verdade,
são a velha "vanguarda que entrega a retaguarda pro primeiro Zé
que aparecer"(Marcelo Nova).
Glauber foi
um incendiário, não fazia parte destes tempos politicamente
corretos e medíocres, desta troca de favores e deste profissionalismo
instaurado por decreto. Metia o dedo na ferida. Com sua língua
afiada, disparava para todos os lados, não poupando ninguém,
metralhando desde seus companheiros cinemanovistas: "Leon
(Hirszman) e seu bando se masturbam com realismo crítico
e outras besteiras... Jabor desde há muito já faz pornochiques...
Nelson (Pereira dos Santos) entrou em decadência há muito
tempo... (Carta a Celso Amorin, 1981) até ao hoje presidente da
república, o então intelectual da moda, FHC: "o
professor Fernando Henrique Cardoso disse que não era assoprador
de novidades nos ouvidos do príncipe. Claro: o príncipe
é ele, assim o batizei no Peru, em presença do magnífico
Darcy Ribeiro. Uma tese que o Cebrap não aceita e por isso
não consigo me entender com Príncipe: a revolução
de 64 começou na Guerra do Paraguai. Fernando Henrique
Cardoso é apenas um neocapitalista, um kennediano, um entreguista"(citado
por Carlos Heitor Cony, Folha de S. Paulo, 24/10/98).
Figura altamente
visada pela censura, que o classificava como discípulo de Jean
Luc Godard e perigoso cineasta subversivo, Glauber passou vários
anos no exílio, passando por diversos países como Cuba, França,
Espanha, URSS etc, em busca de um lugar onde pudesse produzir
seus filmes livremente. Morreu em Sintra (Portugal), deprimido
pelas duras críticas que A Idade da Terra, seu último e mais controvertido
filme, recebeu da crítica internacional. Deixou-nos como legado
a vasta produção de seus 42 anos de vida, que soma 18 filmes,
um romance, roteiros de cinema e teatro, crônicas, desenhos e
ensaios sobre cinema.
Milan Kundera
asseverou certa vez que a "luta do homem contra o poder é a luta
da memória contra o esquecimento". Esta é talvez a luta mais
desigual que Glauber trava, depois de morto, através de sua obra,
que tem como guardiã sua mãe, dona Lúcia Rocha, que insiste em
manter sempre abertas as portas do Templo Glauber, arquivo onde
está guardada toda a obra do cineasta, que sobrevive sem apoio
governamental ou da iniciativa privada, em situação bastante
precária.
A mídia, ao
calar sobre a memória de Glauber Rocha, tenta matar o morto outra
vez, não na carne mas na memória. Explica-se: reza a lenda que
Prometeu, ao roubar o fogo dos deuses do Olimpo e entregá-lo aos
homens, para que estes se diferenciassem dos animais, foi acorrentado
a um rochedo e amaldiçoado a ter seu fígado devorado por abutres,
eternamente. Glauber Rocha, aos desafiar os coronéis da cultura
brasileira e lutar por uma arte nacional, livre e total, foi amaldiçoado
a ter sua memória assassinada, eternamente.
* Éder
Silveira é estudante de História, pesquisador do
CNPq
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