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As lembranças
de um século
Com 102
anos de idade, o jornalista Barbosa Lima Sobrinho narra as inacreditáveis
memórias de um mundo em transformação
Dóris
Fialcoff
Barbosa Lima
Sobrinho. Um século de vida, um século de coragem profissional
e política, um século de contribuição na história do país. Advogado,
historiador, jornalista, escritor, ensaísta, professor e político:
o brasileiro do século 20.
Alexandre
José Barbosa Lima Sobrinho nasceu em Recife, Pernambuco, em
22 de janeiro de 1897, mesmo ano em que foi fundada a Academia
Brasileira de Letras, sob a batuta de Machado de Assis. Filho
de Francisco e Joana, herdou o nome de um tio materno, que fora
governador de Pernambuco entre 1892 e 1896, que acabou sendo seu
primeiro mestre nas lições de patriotismo.
A princípio,
Barbosa queria ser advogado e nem pensava em jornalismo. Colou
grau de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1917 - no
mesmo ano que foi adjunto de promotor do Recife - e queria prestar
concurso para obter uma cátedra na Faculdade de Direito. Entretanto,
sua veia jornalística era latente. Logo passou a colaborar na
imprensa pernambucana, no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro,
no Correio do Povo, de Porto Alegre, e na Gazeta, de São Paulo.
Já em 1921, quando se muda para o Rio, de cara foi trabalhar
no Jornal do Brasil. Foi noticiarista, mais tarde redator político
e, a partir de 1924, redator principal. Hoje, 78 anos depois,
ele continua escrevendo para esse mesmo veículo onde iniciou
sua carreira jornalística. "Só houve uma fase pequena em que
tive de interromper, justamente quando o Ulisses Guimarães
e eu fomos candidatos de protesto - por não concordar com o
Regime Militar instaurado em 1964 - à presidência e vice-presidência
da República, em 1973", conta, orgulhoso.
Porém, sua
carreira política começou bem antes, em 1945, quando
foi Constituinte. Também foi deputado federal, cargo do qual abriu
mão em 1948 para assumir o governo do Estado de Pernambuco.
"Fui eleito pelo povo", afirma Barbosa, comentando que
houve, na verdade, uma grande batalha, pois seu diploma foi contestado.
Mesmo assim, admite, foi vitorioso com uma pequena margem de votos
em relação ao seu adversário. Sua vida de homem
público também iniciou bem cedo. Aos 29 anos já foi eleito,
pela primeira vez, para a presidência da Associação
Brasileira de Imprensa (ABI), tornando-se assim o mais jovem a
assumir o posto na entidade. A partir de 1978, a presidência
da ABI, sucessivamente, a cada dois anos, tem estado novamente
nas mãos do centenário jornalista.
Nacionalista
assumido aos quatro ventos, não se cansa de bater contra
o neoliberalismo, anunciando sem pudores que Fernando Henrique
Cardoso está muito mais preocupado em seguir as orientações
da moda intenacional do que em tratar dos verdadeiros interesses
nacionais. Em 1992, Barbosa foi o primeiro a assinar publicamente
o processo de impedimento do ex-presidente Fernando Collor de
Mello. "Fiz isso porque achei que o Collor tinha começado
uma política entreguista. E não há dúvidas
que se fizessem um protesto contra o Fernando Henrique eu não
teria condições de recusar", confessa.
Em relação
ao jornalismo brasileiro, considera-o vítima: "recorre aos artigos
para poder manter o seu quadro e pagar os seus redatores. Aí está
a explicação porque todos os jornais, de certa maneira, defendem
os interesses desses financiadores",avalia o presidente da ABI.
"O meu jornal de todos os dias é a Tribuna da Imprensa"- um jornal
de resistência à ditadura militar -, de Hélio Fernandes (irmão
de Millôr Fernandes), com todos os aspectos que ele assumiu. Eu
leio todos os dias o JB porque tenho que acompanhar, mas não
perco os artigos de Hélio Fernandes".
Barbosa Lima
Sobrinho, na sabedoria dos seus 102 anos, diz ter impressão de
que o público é o real código de ética da imprensa, "porque
quem compra o jornal o faz por afinidade com suas idéias, de
modo que não adiantaria nada um código de ética para pessoas que
tivessem um pensamento diferente. Não há melhor código de ética
do que o comprador do jornal", radicaliza. E a sua opinião não
é muito diferente quanto à Lei de Imprensa. Se diz combativo a
todas elas, uma vez que as acha inúteis. "O próprio Código Penal
admite a punição de certos crimes. Mas, quantas pessoas recorrem
apoiadas no CP?", questiona, ironizando: "Inclusive, quando alguém
propõe uma determinada ação, isso faz com que o jornal fique mais
hostil com o proponente. Essa reação dos próprios jornais acaba
com a possibilidade dos processos com a Lei de Imprensa".
Escritor eleito
em 28 de abril de 1937 para a Cadeira número 6 da Academia Brasileira
de Letras, na sucessão de Goulart de Andrade, escreve de contos
a ensaios, sempre em uma velha máquina de escrever, envolto
pelos mais de 40 mil livros de sua biblioteca. Mas, há
alguns anos dedica-se a livros de economia política, "fundamentais
para a saúde de qualquer nação".
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