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Ano Novo
Barbosa
Lessa*
Este
último reveillon nos envolveu com uma aura muito forte, sob o
eco dos grandes veículos de comunicação, enfatizando não só a
passagem do ano e da década e do século mas, principalmente, a
aproximação do novo milênio. A nítida sensação de estarmos adentrando,
vivos, o sem-fim da eternidade.
Tal vibração
não apagou do meu passado, porém, a imagem de meu primeiro reveillon,
em 1939, na Piratini da minha infância. A gente se divertia em
qualquer dia e em qualquer hora, soltando pandorga ou jogando
pião, mas por aquela época começaram a “pintar” as grandes datas
comemorativas. O 6 de janeiro, Dia de Reis, com seus ternos musicais
cantando de casa em casa e no final nos oferecendo a gostosa “mesa
dos inocentes”, estava sendo substituído pelo 25 de dezembro,
Dia de Natal, com um tal de Papai Noel vindo trazer presentes
para nós, na casa de cada um. O Carnaval era gozado, com seus
palhaços mascarados e com os irmãos Valente saracoteando em torno
de um boi feito de pano, mas com chifres de verdade.
Aí ocorreu
a fundação da Sociedade Recreio Piratiniense – o Clube, para os
íntimos – o todos quantos tinham dinheiro para pagar a anuidade
de inscrição e as mensalidades se apresentaram para participar
de um baile fino, na passagem do 31 de dezembro para 1º de Janeiro,
a exemplo do que ocorria nos elegantes salões de Pelotas. Antes,
o barbeiro Seu Benvenuto (ou Venuto) foi contratado para formar
uma orquestra completa, à base de instrumentos de sopro.
E, quando
ele lascou a primeira valsa, lá estavam rodopiando o meu pai,
a minha mãe, o meu irmão Paulo e eu, entreverados com os demais
piretinienses, cada qual procurando exibir a mais civilizada
elegância. E fiquei encantado ao dançar com a Ieda, depois com
a Neuma e a Norma; minhas companheiras de brinquedo de roda
até pareciam saída dos coloridos livros de contos de fadas. Beleza
pura!
Ao longo do
ano de 39 os bailes continuaram se realizando, mensal ou quinzenalmente,
e assim continuou o fraternal convívio de pais e filhos no salão
do Clube. O exemplo dos dançarinos mais hábeis ia nos animando
a experimentar passos mais caprichados. Mas o emocionante, mesmo,
era podermos dançar, de qualquer jeito que fosse, em pé de igualdade
com os mais velhos. Aqui, deixávamos de ser tratados como crianças.
À medida que
se aproximava o reveillón de 40, mais nos emocionávamos com a
antevisão de uma confraternização inesquecível. Mas, em fins
de outubro, entrou em cena o Juiz da Comarca, dr. Décio d´Ávila,
anunciando a todo mundo que, por força da lei, daquele dia em
diante estava proibida a participação de menores nos bailes dos
adultos; quando muito, que se realizassem brincadeiras vespertinas,
dedicadas especialmente aos piás e gurias. Foi a primeira vez
que senti, na própria carne, o mandonismo do Estado. Quase entrei
em depressão.
A título de
compensação, fui dar uma olhada nos ensaios que Seu Venuto vinha
realizando, com a orquestra, para introduzir recentes sucessos
no repertório do reveillón. Então notei que o Aldrovando – também
pistonista – fora relegado à condição de marcador de ritmos,
baterista. No mesmo dia me ofereci para substituí-lo na bateria,
na noite de 31 de dezembro para 1º de janeiro. “Porque preço?”,
perguntou o Seu Venuto. “Um ou dois pilas, qualquer coisa que
dê para tomar uns guaranás”.
Na grande
noite, quando começaram a entrar no Clube os primeiros participantes
do festão, o dr. Décio teve um sobressalto ao me enxergar. Perguntou-
me, com cara de brabo, o que eu estava fazendo ali.
- Não vim
dançar. Estou trabalhando na orquestra.
E, embora
espectador, vibrei semiparticipando do reveillón de 40.
* Luiz
Carlos Barbosa Lessa é jornalista, historiador, folclorista e
escritor.
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