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Repasse
a entidades esportivas é fictício
Cauteloso,
o delegado Jorcelino Luiz Rodrigues sabe que está mexendo com
um assunto delicado. Há um aparato de normas e decisões que garantem
o funcionamento legal de casas de apostas, amparadas principalmente
na Lei Pelé (9.615/98), nos decretos 2.574/98 e 3.124/99 e na
portaria 23/99 do Indesp. A portaria do Indesp, suspeita de ter
sido montada pelos próprios bingueiros com a ajuda do ministro
Raphael Grecca (Esportes e Turismo), já foi revogada.
As
outras leis em tese autorizam a atividade dos bingos, mas são
confusas, difíceis de fiscalizar e pecam por um detalhe: exigem
autorização oficial do Indesp para o funcionamento das casas
de jogos. A maioria delas, entretanto, funciona apenas com um
protocolo do Instituto, que não tem nenhuma estrutura para fiscalizar
as atividades dos bingos. Isabel Sobral, do Indesp, diz que para
o Rio Grande do Sul foram expedidas até agora apenas três autorizações
de exploração comercial de jogos: duas para o Esporte Clube São
José e uma para a Sociedade Recreativa Santo Ângelo. Todos os
outros funcionam fora da lei.
Com o Indesp
sem ter poder algum de fiscalização, fica fácil burlar a legislação
e operar sem medo de contratempos. Um conhecido montador de bingos
de Porto Alegre, que anuncia em jornais de grande circulação,
conta que é fácil burlar o artigo que obriga os bingos a contribuir
com 7% de seu faturamento bruto mensal para alguma federação
esportiva. No papel vai escrito uma coisa; na prática, entidades
fantasmas se satisfazem com R$ 500 por mês. “Eu mesmo consigo
as entidades. Não precisa pagar os 7%”, confessa o operador.
Ele monta
um bingo em um mês, “com toda a documentação”. Reconhece, porém,
que a autorização do Indesp não é a definitiva, mas que os bingos
operam mesmo assim. O serviço custa R$ 39 mil e pode ser pago
em duas vezes: R$ 15 mil na contratação e o restante na entrega
do ponto. A capital, diz o negociante, já tem áreas saturadas
de bingos. “O bom é ir para o Interior, de preferência para a
Fronteira”, recomenda.
O presidente
da Federação Gaúcha de Canoagem, Dércio Ramos, confirma que há
entidades recebendo menos do que estipulado pela lei em troca
de benefícios pessoais para seus dirigentes. Ele admite que
foi sondado por um grande bingo da região metropolitana de Porto
Alegre para utilizar um esquema frio de repasse de dinheiro,
mas não aceitou. A federação recebe mensalmente R$ 24 mil de
um bingo da capital. R a m o s garante que examina os livros
todos os meses e assegura que, nesse caso, não há sonegação.
O esquema
de triangulação do dinheiro, entretanto, é muito simples: a casa
de jogo repassa o valor determinado legalmente para a federação,
que lança o dinheiro num caixa dois. Dali, 40% ou menos (depende
da negociação) ficam com a entidade esportiva. Os outros 60%
voltam para os donos do negócio, sem esquecer de deixar uma parte
– em geral não superior a 10% para o laranja que operar o sistema.
O intermediário quase sempre é o presidente da federação, mas
há situações em que a conta laranja pode estar no nome da própria
entidade esportiva. “Muitos dirigentes trocam a parceria por
benefício pessoal”, lamenta Ramos.
Outra fonte
de receita da Federação Gaúcha de Canoagem eram as máquinas de
caça-níqueis, instaladas até agosto passado no bingo da qual
a entidade é sócia. Ramos diz que foi a única federação esportiva
do país a prestar contas do ganho obtido com essas máquinas e
reclama que a maioria escondeu esse rendimento.
A lei exige
prestação de contas semestral, mas o dirigente sabe que o tipo
de administração feito pelo Indesp “é pouco profissional”. Cada
máquina dessas pode render até R$ 1 mil por dia se estiver bem
localizada. Metade da renda vai para o dono e metade fica com
o bingo. As federações em geral nem vêem a cor desse dinheiro,
apesar de a lei determinar que 7% desse faturamento também sejam
repassados para o esporte.

A regra é
burlar a lei e multiplicar os ganhos. A Federação Gaúcha de Tênis,
por exemplo, recebe R$ 2 mil por mês de um bingo de Gravataí.
Não paga nem as arbitragens de um dos três torneios que a entidade
organiza regularmente a cada temporada. O presidente, Paulo Alvarenga,
garante que o repasse é legal. Mas reconhece que o dinheiro “não
dá pra nada”.
Os bingos
se defendem. Têm uma associação organizada – de Administradoras
de Bingos e Entidades Esportivas – e fizeram um balanço das atividades
sob o ponto de vista social. O presidente da associação, Jaime
Sirena, garante que foram repassados R$ 5,6 milhões às entidades
esportivas nos últimos 12 meses pelas casas de jogo, mas não mostra
documentos que comprovem a informação.
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