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Repasse a entidades esportivas é fictício

Suspeitos, bingos faturam alto no país das apostas

Entrevista: Luiz Francisco de Souza

Escândalo envolve ministro e seus assessores

Contraponto da família Ortiz

Sirena diz que os bingos movimentaram no ano passado R$ 79,8 milhões, pagaram R$ 8,75 milhões de Imposto de Renda ao Fisco e empregaram 2.730 pessoas. Indiretamente, segundo ele, os empregos passam de 5 mil. O empresário – que é testa de ferro do Megabingo, uma conjunção de vários sócios liderados por ele – está iniciando uma campanha para melhorar a imagem dos bingos junto à sociedade. “Acabar com os bingos é uma hipocrisia. Não fazemos jogo de azar”, defende- se. Não é o que pensa o M i nistério Público Federal. O procurador da República no Rio Grande do Sul, Vitor Hugo Gomes da Cunha, condena com veemência a atuação das casas de jogos. “Elas existem para tudo, menos para prestigiar o esporte”, dispara o procurador. Cunha revela que o Ministério Público estuda enquadrar os bingos por crime contra a economia popular e avisa que pode fechar os estabelecimentos se a Administração Pública permanecer omissa em relação à atividade ilegal das empresas. “Temos obrigação legal de fazer isso”, completa.

Além da sonegação de impostos, os bingos estão sendo investigados também por envolvimento com a Máfia em operações de lavagem de dinheiro, contrabando e tráfico de influência. Há pelo menos duas conexões dessas investigações com o Rio Grande do Sul. O primeiro personagem da história é o advogado Tiago Loureiro, que teve seu sigilo bancário e telefônico quebrados pelo Ministério Público Federal.

Cunha diz que o trabalho do advogado era agenciar a instalação de bingos em várias partes do país despachando a documentação diretamente no Indesp, em Brasília. “Ele era uma espécie de despachante de luxo do sistema”, compara. Além disso, Tiago tinha uma empresa – a Tecnoturfe Jogos Eletrônicos Ltda – que repassava máquinas de videopôquer para casas de jogo de todo o país. Ele mora na zona sul de Porto Alegre, viaja com muita freqüência e dificilmente é localizado.

Ao Extra Classe, Tiago Loureiro rechaçou as acusações em entrevista por telefone no dia 26 de janeiro. Disse que está tranqüilo em relação às investigações, informou que passava férias no Rio de Janeiro e acusou o Ministério Público de sensacionalismo. “Pode checar na Junta Comercial. Nunca tive empresa nenhuma em meu nome e não sei do que me acusam”, diz. Ele já prestou um longo depoimento na Procuradoria Federal, no entanto, em que revela uma profunda intimidade com o esquema de legalização do jogo no Brasil. Ele é uma das 44 pessoas que tiverem seu sigilo bancário e telefônico quebrado pela Justiça.

O advogado confirma, por exemplo, que participou de reuniões em Brasília, “três ou quatro”, em que se discutia a regulamentação das máquinas de bingo no país. Nessas reuniões foi definido o teor da portaria 23, que legaliza a atividade das máquinas de video-pôquer e caça-níqueis (as chamadas máquinas eletrônicas programadas – mep) e tinham a participação de funcionários do Indesp e do Ministério dos Esportes e do Turismo.

Além disso, era constante a presença nesses encontros de Alejandro Ortiz de Viveiros, apontado pelo Ministério Público como o líder da máfia espanhola no Brasil. Várias testemunhas ouvidas pela Polícia confirmam que o advogado acompanhava os processos de liberação de bingos junto ao Indesp e que tinham sido levados a Tiago por Ortiz.

O advogado também confirmou que foi procurador das empresas BingoMatic Produtos Eletrônicos Ltda (de propriedade de Alejandro Ortiz de Viveiros), Dimares Distribuidora de Máquinas Ltda e de confederações esportivas, algumas das quais nem lembra o nome. O advogado também foi fundador do Instituto Tecnológico de Jogos e Loterias, uma entidade criada por cinco professores universitários da Unicamp, USP e PUC/RJ, que tinha a responsabilidade de fornecer laudos de legalidade para as máquinas de bingo. Os cinco professores também tiveram o sigilo telefônico e bancário quebrados pela Justiça. Tiago está fora de Porto Alegre desde 18 de janeiro e a família não diz o paradeiro do advogado. “Já não temos mais dúvidas com relação às ligações dos bingos com a Máfia. Basta uma seqüência lógica de raciocínios para perceber isso”, afirma o procurador Luiz Francisco de Souza, responsável pelas investigações.

Segundo ele, os empresários que exploram a atividade são verdadeiros sanguessugas que desenvolvem uma atividade parasitária e imoral, que drena boa parte da poupança popular (leia entrevista abaixo). O procurador afirma ter convicção também de que o esquema dos bingos é responsável pela lavagem de dinheiro para a Máfia, diz que os bingueiros repassam em média 0,5% do seu faturamento a entidades esportivas (quando a lei determina 7%) e considera o advogado Tiago Loureiro uma peça- chave na elucidação do sistema. “Ele nos disse que teme pela sua vida, por isso está fugindo”, relata.

Outro personagem do esquema com ramificações no Rio Grande do Sul é o empresário Antônio Carlos Portugal, que participava das reuniões no Indesp junto com Tiago Loureiro e explora o Toto Bola. Ligado ao Esporte Clube São José, esse bingo eventual (com sorteios semanais pela televisão) é um dos que mais fatura no estado. Portugal é apontado pelo Ministério Público como o principal lobista na tarefa de legalizar a introdução de máquinas caça-níqueis no país.

O empresário é apontado pelo Ministério Público Federal como colaborador direto do mafioso Alejandro Ortiz. Ele é dono da ACP Ltda, empresa que presta serviços para a Chance Ltda, administradora do Toto Bola. O procurador dessas empresas é Carlos Alberto Martinez de Azambuja, não por coincidência, também representante legal da Neojuegos, da família Ortiz.

Essas reuniões do Indesp, depois se soube, foram sempre realizadas secretamente e tiveram a função de elaborar o conteúdo da Portaria 23, que caiu como uma luva para a atuação dos bingueiros e suas máquinas de caça-níqueis. O processo que investigou a participação da Máfia nessa articulação não deixa dúvidas. “Alejandro Ortiz colocou seus homens para participar da elaboração da Portaria 23, de junho, principalmente Tiago Loureiro. As minutas da portaria foram enviadas por Luiz Buffara (ex-diretor do Indesp) para a sede da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), em Brasília, onde foram discutidas. Era na Conab que trabalhava Paulo Araújo, contratado pelo ministro como “colaborador eventual” para elaborar novo decreto de regulamentação da Lei Pelé”.

Saiu dali – da negociação entre representantes das empresas ligadas ao esquema do jogo internacional e funcionários do Ministério do Desporto e do Turismo – a brecha legal para a entrada dos caça-níqueis. Procurado pela reportagem do Extra Classe, o empresário Antônio Carlos Portugal não respondeu aos pedidos de entrevista. O presidente do Esporte Clube São José, Zamir Gabriel, também não quis co mentar o suposto envolvimento de Portugal com o esquema mafioso.

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