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Repasse
a entidades esportivas é fictício
Sirena diz
que os bingos movimentaram no ano passado R$ 79,8 milhões, pagaram
R$ 8,75 milhões de Imposto de Renda ao Fisco e empregaram 2.730
pessoas. Indiretamente, segundo ele, os empregos passam de 5 mil.
O empresário – que é testa de ferro do Megabingo, uma conjunção
de vários sócios liderados por ele – está iniciando uma campanha
para melhorar a imagem dos bingos junto à sociedade. “Acabar
com os bingos é uma hipocrisia. Não fazemos jogo de azar”, defende-
se. Não é o que pensa o M i nistério Público Federal. O procurador
da República no Rio Grande do Sul, Vitor Hugo Gomes da Cunha,
condena com veemência a atuação das casas de jogos. “Elas existem
para tudo, menos para prestigiar o esporte”, dispara o procurador.
Cunha revela que o Ministério Público estuda enquadrar os bingos
por crime contra a economia popular e avisa que pode fechar os
estabelecimentos se a Administração Pública permanecer omissa
em relação à atividade ilegal das empresas. “Temos obrigação
legal de fazer isso”, completa.
Além
da sonegação de impostos, os bingos estão sendo investigados
também por envolvimento com a Máfia em operações de lavagem
de dinheiro, contrabando e tráfico de influência. Há pelo menos
duas conexões dessas investigações com o Rio Grande do Sul. O
primeiro personagem da história é o advogado Tiago Loureiro,
que teve seu sigilo bancário e telefônico quebrados pelo Ministério
Público Federal.
Cunha diz
que o trabalho do advogado era agenciar a instalação de bingos
em várias partes do país despachando a documentação diretamente
no Indesp, em Brasília. “Ele era uma espécie de despachante de
luxo do sistema”, compara. Além disso, Tiago tinha uma empresa
– a Tecnoturfe Jogos Eletrônicos Ltda – que repassava máquinas
de videopôquer para casas de jogo de todo o país. Ele mora na
zona sul de Porto Alegre, viaja com muita freqüência e dificilmente
é localizado.
Ao Extra Classe,
Tiago Loureiro rechaçou as acusações em entrevista por telefone
no dia 26 de janeiro. Disse que está tranqüilo em relação às
investigações, informou que passava férias no Rio de Janeiro
e acusou o Ministério Público de sensacionalismo. “Pode checar
na Junta Comercial. Nunca tive empresa nenhuma em meu nome e não
sei do que me acusam”, diz. Ele já prestou um longo depoimento
na Procuradoria Federal, no entanto, em que revela uma profunda
intimidade com o esquema de legalização do jogo no Brasil. Ele
é uma das 44 pessoas que tiverem seu sigilo bancário e telefônico
quebrado pela Justiça.
O advogado
confirma, por exemplo, que participou de reuniões em Brasília,
“três ou quatro”, em que se discutia a regulamentação das máquinas
de bingo no país. Nessas reuniões foi definido o teor da portaria
23, que legaliza a atividade das máquinas de video-pôquer e caça-níqueis
(as chamadas máquinas eletrônicas programadas – mep) e tinham
a participação de funcionários do Indesp e do Ministério dos
Esportes e do Turismo.
Além disso,
era constante a presença nesses encontros de Alejandro Ortiz de
Viveiros, apontado pelo Ministério Público como o líder da máfia
espanhola no Brasil. Várias testemunhas ouvidas pela Polícia confirmam
que o advogado acompanhava os processos de liberação de bingos
junto ao Indesp e que tinham sido levados a Tiago por Ortiz.
O advogado
também confirmou que foi procurador das empresas BingoMatic
Produtos Eletrônicos Ltda (de propriedade de Alejandro Ortiz
de Viveiros), Dimares Distribuidora de Máquinas Ltda e de confederações
esportivas, algumas das quais nem lembra o nome. O advogado também
foi fundador do Instituto Tecnológico de Jogos e Loterias, uma
entidade criada por cinco professores universitários da Unicamp,
USP e PUC/RJ, que tinha a responsabilidade de fornecer laudos
de legalidade para as máquinas de bingo. Os cinco professores
também tiveram o sigilo telefônico e bancário quebrados pela
Justiça. Tiago está fora de Porto Alegre desde 18 de janeiro e
a família não diz o paradeiro do advogado. “Já não temos mais
dúvidas com relação às ligações dos bingos com a Máfia. Basta
uma seqüência lógica de raciocínios para perceber isso”, afirma
o procurador Luiz Francisco de Souza, responsável pelas investigações.
Segundo ele,
os empresários que exploram a atividade são verdadeiros sanguessugas
que desenvolvem uma atividade parasitária e imoral, que drena
boa parte da poupança popular (leia entrevista abaixo). O procurador
afirma ter convicção também de que o esquema dos bingos é responsável
pela lavagem de dinheiro para a Máfia, diz que os bingueiros
repassam em média 0,5% do seu faturamento a entidades esportivas
(quando a lei determina 7%) e considera o advogado Tiago Loureiro
uma peça- chave na elucidação do sistema. “Ele nos disse que
teme pela sua vida, por isso está fugindo”, relata.
Outro personagem
do esquema com ramificações no Rio Grande do Sul é o empresário
Antônio Carlos Portugal, que participava das reuniões no Indesp
junto com Tiago Loureiro e explora o Toto Bola. Ligado ao Esporte
Clube São José, esse bingo eventual (com sorteios semanais pela
televisão) é um dos que mais fatura no estado. Portugal é apontado
pelo Ministério Público como o principal lobista na tarefa de
legalizar a introdução de máquinas caça-níqueis no país.
O empresário
é apontado pelo Ministério Público Federal como colaborador
direto do mafioso Alejandro Ortiz. Ele é dono da ACP Ltda, empresa
que presta serviços para a Chance Ltda, administradora do Toto
Bola. O procurador dessas empresas é Carlos Alberto Martinez de
Azambuja, não por coincidência, também representante legal da
Neojuegos, da família Ortiz.
Essas reuniões
do Indesp, depois se soube, foram sempre realizadas secretamente
e tiveram a função de elaborar o conteúdo da Portaria 23, que
caiu como uma luva para a atuação dos bingueiros e suas máquinas
de caça-níqueis. O processo que investigou a participação da
Máfia nessa articulação não deixa dúvidas. “Alejandro Ortiz colocou
seus homens para participar da elaboração da Portaria 23, de junho,
principalmente Tiago Loureiro. As minutas da portaria foram
enviadas por Luiz Buffara (ex-diretor do Indesp) para a sede
da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), em Brasília,
onde foram discutidas. Era na Conab que trabalhava Paulo Araújo,
contratado pelo ministro como “colaborador eventual” para elaborar
novo decreto de regulamentação da Lei Pelé”.
Saiu dali
– da negociação entre representantes das empresas ligadas ao
esquema do jogo internacional e funcionários do Ministério do
Desporto e do Turismo – a brecha legal para a entrada dos caça-níqueis.
Procurado pela reportagem do Extra Classe, o empresário Antônio
Carlos Portugal não respondeu aos pedidos de entrevista. O presidente
do Esporte Clube São José, Zamir Gabriel, também não quis co
mentar o suposto envolvimento de Portugal com o esquema mafioso.
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