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Entrevista

Luiz Francisco de Souza

Uma estrutura podre, ligada a interesses políticos

César Fraga

Suspeitos, bingos
faturam alto no país
das apostas

Repasse a entidades
esportivas é fictício

Escândalo envolve
ministro e seus
assessores


Contraponto da família Ortiz

O procurador da República Luiz Francisco de Souza está, desde o início de fevereiro, com a cabeça a prêmio. A investigação sobre a atuação dos bingos no Brasil já dura mais de um ano, mas deste mês para cá a situação se tornou mais complexa porque o envolvimento do ministro Rafael Greca com a máfia do jogo se tornou palpável, difícil de negar.

Na semana de 7 a 11 de fevereiro, o procurador envolveu diretamente oito assessores do ministro nas investigações. Pediu, e foi atendido pela Justiça, a quebra do sigilo bancário e telefônicos dos assessores. Na sexta-feira, 11 de fevereiro, Greca demitiu dois funcionários que já não tinham como escapar das acusações. Antes, porém, pediu que Luiz Francisco seja demitido por estar politizando suas investigações. O ministro, para quem não sabe, é do PFL, foi prefeito de Curitiba e tem relações estreitas com o governador Jaime Lerner, cotado para a sucessão presidencial de 2002.

Extra Classe - Como o senhor resumiria a situação dos bingos hoje no Brasil?

Luiz Francisco de Souza - É uma estrutura podre diretamente ligada a interesses políticos, ao jogo do bicho. Nada disso deveria existir. Não passa de uma atividade parasitária e sanguessuga, que sangra a poupança popular e não dá nada em troca. Isso sem falar nos mecanismos absurdos de corrupção do Indesp, que envolvem até mesmo o ministro Grecca, como já é sabido.

EC - E a regulamentação das atividades dos bingos em alguns estados, como Rio de Janeiro? O que o senhor acha disso?

LFS - Apesar de inconstitucional, é menos imoral que o sistema implantado pelo Indesp, que não fiscaliza nada. Agora dá para entender o que o Anthony Garotinho (governador do Rio) quer, que é fiscalizar ele próprio a atividade para que a arrecadação seja correta. Mas, mesmo assim, está errado do ponto de vista da lei. A atividade em si é altamente ilegal, principalmente porque mais de 80% do lucros estão baseados em máquinas caça-níqueis.

EC - Isso não é um pouco de moralismo contra o jogo?

LFS - Em hipótese alguma. A lei é clara. Mesmo em países com os Estados Unidos, onde o jogo é permitido, apenas alguns estado têm a atividade e mesmo assim em locais restritos. O que não é possível é termos casas especializadas em jogos de azar em qualquer calçada, oferecendo um serviço, entre aspas, ilegal à massa trabalhadora e assalariada. O apelo é muito forte à compulsão pelo jogo. Mas os donos de bingo dizem que a atividade dá emprego. Então eu digo que roubo de banco, narcotráfico e prostituição também geram empregos. E aí? Além do mais, máquinas eletrônicas geram menos emprego que jogo do bicho.

EC - Qual o envolvimento de políticos do PFL no esquema dos bingos?

LFS - Curiosamente existe um interesse claro de vários políticos do PFL no negócio de bingos. Afinal de contas, são R$ 2 bilhões em volume de capital que o jogo de azar movimenta no Brasil por ano. Mas isso não é novidade. O interesse de políticos por esse tipo de negócio existe também no Japão, Estados Unidos e Europa. O que é preocupante é que este setor, invariavelmente, está ligado a interesses escusos e à ala mais podre do empresariado. Não só no Brasil, mas em vários países, a máfia está intrinsecamente ligada ao jogo e, também, aos políticos conservadores.

EC - Esses empresários alegam trazer benefícios à sociedade.

LFS - Não trazem. O que eles alegam em benefício ao esporte é um embuste. O que deveria existir é uma lei similar à Rouanet (que financia a cultura) para o segmento, um fundo nacional do desporto.

EC - Voltando à questão do envolvimento dos pefelistas no esquema. Como vocês perceberam isso?

LFS - Foi só ver a clientela do Indesp, quase todos são do PFL. E a coisa funciona mais ou menos assim. O cara quer ser deputado. Então o bicheiro de Brasília dá, por exemplo, R$ 12 milhões para o Roriz (Joaquim Roriz, governador do Distrito Federal). Isso é um fato. Assim se conseguem junto ao Indesp umas três concessões para o bicheiro explorar a atividade de bingo. Se cada uma delas rende cerca R$ 1 milhão por mês, multiplica-se isso por três. E acontece em todo o lugar, em São Paulo tem o Ivo Noal, que também foi financiado de forma semelhante. E outros casos, no Rio de Janeiro, em Goiás. Praticamente quase todos os bingos têm esse tipo de envolvimento.

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