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As desfaçatez
das migalhas
É com uma
incrível desfaçatez que um dos “empresários” da jogatina em Porto
Alegre defende seu ofício, em documento que tem como objetivo
mostrar as qualidades sociais e econômicas dos bingos. Diz ele:
“A grande maioria dos freqüentadores dos bingos são principalmente
pessoas da terceira idade, aposentados, donas de casa e outros,
que ocupam parte de seu tempo disponível com um lazer seguro
e confortável”. Seguro realmente é: há leões-de-chácara por todos
os lados, é quase impossível chegar aos donos e fazer perguntas
é arriscado. Confortável, também: as casas têm ar-condicionado,
bebe-se bem, come-se melhor ainda e é fácil deixar suas economias
num dos tantos caixas feitos para isso, para tirar o dinheiro
dos incautos.
É bom deixar
claro que cada um deve gastar o seu dinheiro como quiser. É uma
das prerrogativas da democracia que os cidadãos façam aquilo que
bem entenderem se isso não prejudicar diretamente outras pessoas.
Mas bingos são empresas constituídas para ganhar dinheiro em cima
da ilusão alheia de enriquecimento fácil, de solução para os problemas
complexos do cotidiano. Por isso é fácil observar a quantidade
de aposentados, velhos, pobres e desesperados nas mesas de jogo.
Numa tacada de sorte, num lance do destino, podem se livrar das
mazelas de todo dia.
Só que essa
tacada nunca vem, por mais que as propagandas mostrem felizardos
sorridentes aproveitando seu prêmio milionário. E a coisa não
pára por aí. Além de mexerem com o imaginário de pessoas comuns,
os bingos burlam a lei, sonegam impostos, contrabandeiam equipamentos
e são suspeitos de estarem envolvidos com organizações criminosas.
Não é pouco para quem se diz honesto, empregador e de bom caráter.
Os bingos,
por exemplo, deveriam repassar 7% de seu faturamento para entidades
esportivas às quais estariam associados. Não passam. Conhecidos
intermediários desses empresários afirmam com extrema naturalidade
que bastam R$ 500 mensais para satisfazer o apetite de alguns
dirigentes esportivos.
Em torno deles,
no entanto, se formou uma cadeia de entidades assistenciais e
esportivas que buscam justificar a existência do negócio em troca
de migalhas filantrópicas. É fácil. Se o negócio gera empregos,
então é moralmente justo. Se contribui com uma casa de saúde
para velhos, então que se deixe funcionar. O que ninguém discute
é que essas migalhas são infinitamente menores que a sonegação
de impostos, que a corrupção moral de casas que exploram a economia
popular.
É a mesma
estratégia adotada, por exemplo, pelos traficantes de drogas.
Travestidos de bons moços, eles fazem o bem apesar de explorarem
um negócio sujo. Separam uma parte mínima dos lucros para comprar
a comunidade. Não é de espantar então que sejam defendidos ou,
na pior das hipóteses, não sejam atacados. O que vem a ser a mesma
coisa.
Isso só prospera
porque o Estado está ausente. Quando se mexe, é apenas para tentar
tirar a sua parte no negócio. Legalizaram-se as máquinas caça-níqueis
em troca de impostos, mesmo que o Estado saiba que não tem a mínima
condição de fiscalizar a atividade de milhares de casas espalhadas
pelos lugares mais distantes do país. Num negócio de risco, a
fiscalização é essencial. Mas o Estado disfarça, faz acreditarem
que está tudo bem e toca o barco para a frente.
Em menos de
dois anos, as casas de jogos se multiplicaram no Brasil. Sinal
mais do que claro de que o negócio é bom, lucrativo e barato.
E, além do mais, seguro.
O Editor
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