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Walter
Galvani
Cabral
era um democrata
EC
– Como foi dar voz a Cabral, um personagem histórico que está
mais próximo do mito e do herói do que do homem comum?
WG – Narrar
alguns trechos em primeira pessoa foi resultado de uma identificação
com o personagem. Quando se escreve uma biografia, temos duas
atitudes a tomar: ou você se apaixona e se identifica com o personagem,
ou você o odeia. E aí não faz a biografia. A verdade é que fui
lentamente me identificando com Cabral, até formar essa convicção
de que ele realmente foi injustiçado historicamente e que havia
sido jogado ao ostracismo por ter se negado a obedecer a uma ordem
do rei (D. Manoel I). Em suma, por ter se mostrado independente.
Mas o fato de estar, em alguns trechos, narrado em primeira pessoa
não dá ao livro o caráter de uma criação livre do que teria dito
ou pensado Cabral. Não há fato inventado: todos estão baseados
rigorosamente nos levantamentos documentais.
EC – Como
ele era como pessoa? Cabral tinha noção do que havia representado
sua trajetória de navegador?
WG – Na parte
física, era um sujeito muito alto e cuja família fora apelidada
de “os gigantes da beira”. Tinha as pernas naturalmente arqueadas
porque andava muito a cavalo. Era magro. E, como todos naquela
época, tinha os cabelos longos. Isso era o Cabral. Todos os relatos
da época indicam um homem cordato e democrata, que se caracterizava
por tomar decisões a partir de consultas gerais. Ele chegou ao
ponto de reunir os capitães em seu navio, por ocasião do sumiço
da caravela de Vasco de Ataíde no início da expedição, para discutir
o que fazer. Isso era absolutamente incomum na época. Em outros
momentos decisivos da viagem, como no bombardeio de Calicute
e na chegada ao Brasil, em todos os momentos pontuais e culminantes,
ele consultou alguma opinião alheia. Isso caracteriza um democrata
que vivia paradoxalmente numa corte absolutista. Quando chegou
o momento de comandar outra frota e Cabral descobriu que se tratava
de um negócio da família de Vasco da Gama, e que metade da frota
escaparia a seu comando, ele teve a coragem de dizer ao rei que
não aceitaria uma diminuição de posto e recusou o comando. Isso
foi fatal para ele. Cabral agiu mais com honestidade e correção
do que com habilidade política, o que era outra de suas características.
EC – Ele
tinha consciência do que estava fazendo? Ou seja, a lenda da
casualidade da descoberta ainda se sustenta?
WG – Não há
nenhum documento que afirme a intenção de Portugal em chegar
ao Brasil. Mas as indicações apontam que isso é verdadeiro: na
própria frota de Cabral viajava Duarte Pacheco Pereira, que teria
estado no Brasil em 1498, como ele mesmo revelou no texto que
publicou cinco anos depois (1503). Por que não se revelava isso
na época? Porque Portugal não tinha estabelecido ainda um programa
de ocupação dessas terras. O país tinha só um milhão de habitantes.
Não tinha gente qualificada para mandar ao novo mundo. Naturalmente
não era conveniente divulgar fatos que despertassem a cobiça
de espanhóis, holandeses e ingleses. Vasco da Gama, na viagem
que empreendeu a partir de 1497 e que estabeleceu o caminho para
as Índias, atravessou o oceano e esteve praticamente no Brasil.
Ele parou a poucos quilômetros do Cabo de Santo Agostinho (Pernambuco)
e isso está plenamente documentado no diário de viagem escrito
pelo Álvaro Velho. Ele avistou todos os sinais de terra, fez
medições, observou pássaros. Só não desembarcou porque não era
sua missão. Por isso a viagem de Cabral se reveste de toda intencionalidade.
A sua frota trazia os principais navegadores do reino de Portugal.
EC – A
narração da descoberta tinha muito do ponto de vista de Pero
Vaz de Caminha. Podemos considerar a Carta como uma primeira interpretação
de nossa história feita sob o ponto de vista do reino de Portugal?
WG – Sempre
teremos uma subjetividade na intervenção de quem faz qualquer
relato. E é bom lembrar que Pero Vaz de Caminha era um cidadão
importantíssimo na cidade do Porto, era responsável pelo balanço
da moeda, era o escrivão oficial da cidade. É óbvio que estava
pautado pelo que representava no seu reino, pelo país do qual
era originário, pela cultura da navegação, pelo papel de Portugal
no contexto das nações européias emergentes. Ele estava afinadíssimo
com o discurso de D. João II e D. Manoel I. O objetivo era descobrir
a existência de metal, qualquer que fosse, nas novas terras. Era
o lastro fundamental das economias da época. É certo, porém,
que a ocupação não teve características militares ou belicosas.
Não era esse o perfil de Portugal, um país pequeno e com pouca
população. Tanto é que eles nunca se meteram em guerras longas.
Na verdade, eles descobriram maneiras mais eficazes de obter
resultado na conquista de outros povos. Cabral trouxe escritas
instruções de jamais hostilizar as populações nos locais aonde
ele chegasse e jamais fazer reféns. Os portugueses descobriram,
muito antes dos americanos, que a melhor maneira de dominar um
povo era através do comércio. Eles se especializaram nisso.
EC - Como
se construiu a história de um país que já foi descoberto a partir
de uma mentira, no caso a da casualidade?
WG – Tudo
que Portugal nos ensinou como história verdadeira não foi, para
usar um termo jornalístico, checado convenientemente. Nossa história
está cheia de lacunas, no episódio da independência, da abolição
da escravatura. Enfim, escrevemos nossa história à luz da história
oficial de Portugal.
EC – Estamos
por (re)escrever a nossa história à luz do que faria Cabral?
Com independência intelectual?
WG – A partir
de uma visão que nos mostre o que, efetivamente, aconteceu.
Por que aconteceu. Quem eram os personagens. Quais eram os projetos.
Por isso me agarrei à figura de Pedro Álvarez Cabral, porque
a partir do seu ostracismo ele passou a ser um contestador.
Por que foi posto de lado? Até que ponto feriu os interesses
nacionais portugueses? A partir disso, podemos começar a abrir
uma avenida nova em termos históricos para o Brasil. O que representávamos
dentro do projeto português, o que era o projeto de expansão,
por que Portugal chegara a ele, por que atrasou durante anos o
desenvolvimento do Brasil, por que nos manteve como colônia,
por que depois promoveu indiretamente nossa independência pelas
mãos de um príncipe português.
EC – A
imprensa tem um papel nessa reescrita?
WG – Em primeiro
lugar, soltar foguetes pelos 500 anos de Brasil pode servir a
interesses políticos específicos, mas não a essa reconstrução
histórica. Devemos aproveitar a oportunidade para pegar uma
faca e abrir pelo meio o corpo do Brasil, colocar as vísceras
à mostra. Na minha opinião, a imprensa deve trabalhar com a perspectiva
de contar de novo essa história assim como eu fiz com a biografia
de Cabral. Buscando ao máximo possível as fontes primárias e sendo
puxada pelas perguntas, ao invés de obedecer às colocações alheias.
Fazendo uma ligação com o trabalho da imprensa, acho que estamos
pasteurizados pela falta de ímpeto. E limitados pelos interesses
econômicos, pelos apoios comerciais. Estamos, na imensa maioria,
atrelados ao carro oficial.
EC – Estamos
em plena ditadura do press release, da pauta?
WG – Acho
que sim, apesar de a pauta ser um bom instrumento de organização
do trabalho. Mas poderíamos voltar ao saudável tempo em que cada
jornalista era um especialista em determinada área. E trazia
uma contribuição absolutamente original do que sabia do seu setor
de atividade, muito antes dos comunicados oficiais. A verdade
é que, hoje, estamos correndo atrás. A mídia não pergunta mais
o essencial. Vive comendo na mão das autoridades.
EC – O
senhor tem esperança de que a mídia ocupe seu papel no processo
político?
WG – Isso
passa pela cabeça das pessoas, pela formação. Por isso a universidade
tem de produzir profissionais um pouco mais ousados, mais sérios,
mais dedicados. É preciso contestar todas as verdades estabelecidas.
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