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Ingerência
no samba
Antônio
Paim Falceta*
“Tudo
isso está intimamente ligado a um dos mitos mais caros da nossa
civilização, o mito do ‘progresso’, balela inventada por essa
classe social que sempre confundiu avanço da Humanidade com a
Prosperidade dos (seus) negócios.”
P. LEMINSKI
“...às
cegas, num mundo louco, no meio de estranhos.”
BECKETT
Irrita-me
profundamente a pretensiosa inserção da Administração no âmbito
(e chega de ao nível!) do gerenciamento escolar, assumindo o papel
historicamente duvidoso de tutora da Educação. Muitos são os
fatores que me levam a essa inquietação preocupada, como a visão
marqueteira com que os projetos de ‘qualidade’ tratam do componente
humano (que, aliás, não é comprado em lojas de armarinho!), como
o projeto de dar a um profissional flagrantemente assoberbado
funções, e, cada vez mais, que não estão diretamente (talvez
nem indiretamente) relacionadas ao seu trabalho e à sua capacitação
profissional (ver ‘desvio de função’); como essa utilização do
ensino e da sua macroestrutura como balão de ensaio e, o que é
pior, como expansão de mercado dos $edentos profissionais da
área gerencial. Irritame, ainda mais, a incompetência performática
dos seus propaladores, sua deficiente e evidente limitação lingüística,
personagens que grassam por aí repercutindo “práticas” neurolingüísticas,
técnicas baratas de vendas como se nós, profissionais do ensino,
fôssemos a mais pueril representação da humanidade, desqualificada
e “cega”, à mercê e a serviço do engenho de gestores, estes sim,
habilidosos nas estratégias de produção mediada pelo lucro (sempre
em desfavor do outro, que imaginam nós); como acho a terminologia
empregada um glossário de asneiras, siglas de efeito, poesia
concreta anacrônica em língua inglesa sequer corretamente pronunciada
(5Ws etc.), dado o tamanho da reproduparvisse desta feira de
enrolação conceitual para ninguém entender e para criar o universo
verbal do clube (fechado) dos iniciados. Nesse aspecto, não são
burros nem ingênuos nem devem ser subestimados – pois vicejam
e continuam germinando à nossa volta.
Em suma, para
não continuar sozinho a interminável e repulsiva lista de apontamentos
(e mais não faltam!) e sem sequer levantar a pior das questões,
e que subjaz a todas, a da estratégia política (sim, a política
– neo, pós, vice, supra liberal - tornou-se um perigoso campo
de batalha, na qual a proporção dos riscos é a dimensão dos
autobenefícios – porque nada é gratuito), limito-me a sustentar
que é anticultural, inumano, humilhante nós, profissionais, sermos
tratados como e equiparados a objetos de comportamento programável,
sem nuances, sem fortuidades, sem o inusitado, sem vontades e
desejos próprios, sem contradições e sentimentos controvertidos.
Nossa preterida realidade interior não vem ao caso; o que importa
é a mostra, o gráfico, o percentual, o perfil, a tabela, as figuras
‘em vermelho’, índices que lembram aquelas pesquisas de opinião
em que nos metíamos nos tempos de estudantes, bicos em que inquiríamos
as classes sociais sobre a aceitação de empreendimentos concorrentes
no mercado (de calçados, cigarros, bebidas, absorventes ...).
Que não fique
a dúvida sobre o uso da pesquisa como instrumento de trabalho,
enfim, como meio para se atingir um fim. Duvida-se, no entanto,
desse segmento que já criou a Reengenharia, o Iso 9000, a Junior
Achievement, o Lair Ribeiro e que, a cada novo pequeno deslocamento
do comportamento social, engendra novas técnicas e novas fórmulas
para tomar para si o domínio dos processos – e beneficiar-se com
isso. A escola particular, nesse momento, como ramo do comércio
que é, vem lançando mão de tais influências (vedando-se ao fato
de que, dentro de si mesmas, há potencial insuperavelmente maior
de transformação e de gerenciamento. A dizer, pode encontrar os
buscados diferenciais nos seus próprios recursos humanos – eventualmente
valorizados – e nas sua própria proposta político pedagógica.
Sem contar o fato de ter um grupo proporcionalmente superior e
mais qualificado que o pretenso questionado).
A contrapelo,
tamanho o grau da incoerência (ou tamanha a artimanha da gerência),
a nossa categoria batalha, hoje, por um quesito reclamado por
professores que já deixaram o pó do giz há muito – a hora-atividade.
Não há, enfim, como calarnos, porque não nos falta lucidez crítica
– o plano de aula do amanhã está em nossas pastas e avaliar, afinal,
para nós, não é, absolutamente, tarefa estranha.
Qualificadores,
vão procurar a sua turma! (Sugestão de leitura complementar: conto
Colar de Diamantes, de Guy de Maupassant.)
* Antônio
Paim Falceta é professor, delegado sindical dp Sinpro/RS
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artigos de opinião são de inteira responsabilidade
dos autores, reproduzem com finalidade os originais recebidos
e não passam por processo de revisão textual, qualquer
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da ABNT.
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