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Golpe
e contragolpe no Equador
Golpe
e contragolpe, amparado pelas normas constitucionais, é
uma hipótese do desfecho da situação no Equador em um intervalo
de 36 horas, em que militares nacionalistas deram mais um
susto no projeto neoliberal. Por isso mesmo, a intenção
inicial não era empossar o vice Gustavo Noboa e manter o
mesmo projeto, como avalia o professor Paulo Vizentini.
Forças Armadas e indígenas se desentenderam e o governo
dos EUA pressionou, ao emitir nota afirmando que a ruptura
com a democracia seria desastrosa para a economia do país.
Diante
destas ameaças de retaliação de Washington, os militares
recuaram na madrugada de 22 de janeiro, preparando a entrega
do poder ao vice-presidente Gustavo Noboa. Dissolveram a
incipiente junta governamental que dirigiu o país por três
horas e reuniu o advogado Carlos Solorzano, membro da Suprema
Corte de Justiça, e o líder indígena Antônio Vargas, presidente
da Confederação da Comunidades Indígenas. Vargas liderou
a marcha de 8 mil índios que ocupou o parlamento e o palácio
do governo na noite de 21 de janeiro, quando o presidente
do país Jamil Mahuad se refugiou em uma base militar. O
coronel Lúcio Gutiérrez, líder militar do movimento, proclamado
presidente da junta, logo que o movimento militar refluiu,
foi preso junto com mais uma dezena de oficiais – outros
300 militares estão sendo investigados.
Os
indígenas se dizem traídos pelos militares com a entrega
do poder a um político. “Eles queriam uma ditadura militar
e nós dissemos”, denunciou Vargas, ameaçando: “Vamos voltar
às ruas se o governo não barrar a corrupção endêmica e a
pobreza”. Ele anunciou que a Confederação Indígena não reconhece
o governo do então vice-presidente Gustavo Noboa, que assumiu
a presidência sob a tutela dos militares, especialmente
do general Carlos Mendoza, ex-ministro interino da Defesa,
que fez a interlocução com as Forças Armadas, o poder que
precipitou a crise ao pedir a renúncia de Mahuad.
“Manipularam
os indígenas e traíram o presidente”, disparou Mahuad, que
antes havia denunciado pressão das Forças Armadas para que
seguisse o caminho de Fujimori no Peru dando um autogolpe.
Sem a renúncia formal de Mahuad, o vice Gustavo Noboa assumiu
dia 23 de janeiro em uma base militar com uma resolução
de respaldo da OEA. Quatro dias depois foi homologado presidente
pelo parlamento e fez um apelo dramático à unidade do país,
reafirmando a dolarização da economia e pedindo paciência
à população.
O
país de 12 milhões de habitantes, metade deles de origem
indígena, passa por instabilidade há mais de uma década.
O presidente anterior eleito, chamado de “El loco”, era
o cantor de rock popular no país Abdallá Bucaram. Ele foi
deposto em 1997 por insanidade mental, depois de manifestações
de rua. Entre os líderes estava o advogado Jamil Mahuad,
formado em Harvard, ex-dirigente estudantil e duas vezes
prefeito de Quito que, eleito presidente em 1997, agora
teve o mesmo destino de seu antecessor.
A
crise equatoriana é considerada a pior dos últimos 70 anos.
A inflação de 1999 fechou em 61%, a maior da América Latina,
o Produto Interno Bruto 7,5% menor, com 15,8% de desemprego
e 54,4% da população economicamente ativa subempregada.
A situação do país foi agravada pela crise financeira internacional,
que derrubou as bolsas de valores em 1997 e 1998. Até mesmo
a desvalorização do real no Brasil afetou a economia do
país, assim como a queda no preço do petróleo, principal
produto da minguada pauta de exportação do Equador, que
inclui também a banana. A dolarização, recurso desesperado
do presidente Mahuad, foi o golpe de misericórdia que acabou
com a tolerância da população.
Na
Venezuela, ruptura
Nem
as inundações que deixaram 120 mil venezuelanos desabrigados
abalam o respaldo político do presidente Hugo Chávez. Coronel
do Exército, aos 44 anos, e depois de duas frustradas tentativas
de golpe, em 1992 e 1996, ele elegeu-se presidente em dezembro
de 1998 com 57% dos votos e está realizando uma proeza na
América Latina. Um ano depois da posse, em 2 de fevereiro
de 1999, com um programa de reformas que chama de revolução
radical e pacífica da Venezuela, ampliou sua aprovação para
uma estimativa entre 70% e 80% da população, apesar do desemprego
de 15,4% e do PIB cair 7,2%. Mas a inflação retrocedeu para
18,1% – a mais baixa dos últimos 13 anos –, a balança comercial
apresenta um superávit de US$ 724 milhões e o país tem US$
15 bilhões de reservas internacionais. Este
desempenho assusta e nutre a desconfiança internacional
à direita e à esquerda porque Chávez virou o país pelo avesso.
“Esse governo botou abaixo o conjunto do sistema político
que dá sustentação aos pacotes de ajuste neoliberal”, afirma
o professor Paulo Vizentini. Dentro das normas legais, através
de consultas populares como o referendum e o plebiscito,
está remexendo na estrutura do poder político do país, atingindo
instituições em geral intocáveis como o Legislativo e até
mesmo o Judiciário da Venezuela, que é considerado um dos
mais corruptos do mundo.Chávez
convocou uma Assembléia Nacional Constituinte e tem o apoio
de 95% dos 131 constituintes. Em 15 de dezembro passado
consegiu aprovar, com 71% dos votos, uma Constituição diametralmente
oposta ao projeto neoliberal. A manutenção do monopólio
público da maior riqueza e estatal do país, a Petroleos
de Venezuela, por exemplo, é quase um sacrilégio nesta era
de privatizações. “Não é um modelo econômico suficientemente
claro, mas é uma confrontação ao neoliberalismo como ainda
não havia acontecido”, assinala o professor. Entre
os 389 artigos está a reeleição para presidente e a ampliação
do mandato presidencial de cinco para seis anos, além do
direito a voto aos militares, reconhecimento das terras
e direitos dos indígenas, extinção do Senado – passando
o Legislativo a ser unicameral – e a obrigatoriedade do
Banco Central prestar contas à Assembléia Nacional.Por
conta de tudo isso, Hugo Chávez tem sido ridicularizado
pela mídia como um paladino demodê que investe contra a
democracia representativa. “A grande imprensa insiste em
tratá-lo com preconceito, vinculando-o à idéia de mais um
militar aventureiro da América Latina”, podera o professor.
A hostilidade da direita é constante. O representante do
governo colombiano de Pastrana – pró-EUA – nas negociações
de paz com a guerrilha disse que Chávez é mais perigoso
do que a própria guerrilha.”Em um país que detém uma das
maiores reservas de petróleo do mundo, esta situação contraria
os interesses dos EUA e não é um ‘bom exemplo’ na região
para a estratégia norte- americana”, diz Vizentini. Surpresa:
parte da esquerda questiona seu perfil político e quais
os seus compromissos com a democracia e o socialismo. Vizentini
define Hugo Chávez como um militar nacionalista com uma
visão terceiro-mundista. Mas considera inúteis as dúvidas
da esquerda. “Não é um homem de partido. É um um líder que
vem da base, um político antipolítico que chefiou um golpe
militar e que botou o dedo na ferida, dizendo: aqui o que
está errado é o conjunto deste sistema político, não um
partido, não só um regime econômico”, interpreta o professor,
reconhecendo que faltam informações sobre o verdadeiro quadro
na Venezuela. “Mas isso é proposital. No início, era matéria
diária na CNN, depois sumiu do noticiário porque se deram
conta de que isso acabava fortalecendo Hugo Chávez.”
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