|

O sabor em
conta-gotas
Barbosa
Lessa
Nascido na
modesta vila de Piratini, no final dos anos 20, venho de um cenário
em que faltavam escolas e onde a classe do magistério era representada
somente pela Da. Chiquinha Pellegrino ou pela Da. Maria Motta,
ou por mais algumas outra rara moça formada em Escola Normal.
Mas isto não quer dizer – absolutamente não – que faltassem professores.
Meu irmão Paulo, por exemplo, cinco anos mais velho do que eu,
sentia-se na obrigação moral de transmitir tudo o que pudesse
me ser útil na vida diária. Informalmente, também os avós ensinavam
aos netos, as mães às filhas, e nesse mexe-mexe a sabedoria popular
ia se espalhando entre os compadres, os vizinhos, os companheiros
de luta. Lema coletivo: “o saber não ocupa lugar”.
Provérbios
como esse – nós chamávamos “ditados” – se constituíam na base
de toda a pedagogia popular. Frases curtas, ritmadas, geralmente
em sete sílabas, fáceis de gravar na memória. Algumas, de validade
incontestável. “A voz do povo é a voz de Deus”. “A dor ensina
a gemer”. “Cada um dá o que tem”. Você, jovem leitora ou leitor,
por acaso já algum dia ouviu uma dessas velharias? Pergunto, porque
duvido muito que alguém, hoje, tenha tempo a peder em casa ou
na internet com a repetição de tais ditados de outrora. “O que
passou, passou”.
Cumpre assinalar
que os provérbios não eram transmitidos à toa, a qualquer hora,
só por dizer. Sempre estavam relacionados com uma situação específica,
com um fato do momento, com algo concreto, para que não ficassem
boiando à solta. Eram um complemento da realidade. Em situações
futuras, quando a realidade se repetisse, o adágio seria imediatamente
relacionado àquele fato. “Vivendo, e aprendendo”.
Outra característica
era a universalidade. É claro que não faltavam as contribuições
locais, legadas por velhos campeiros. “Ovelha não é pra mato”.
“Amarra-se o burro à vontade do dono”. “Freio de ouro não melhora
o cavalo”. Mas a maior parte dos ensinamentos nos chegavam de
qualquer parte do mundo, sem restrições geográficas. “Roma não
se fez em um dia”. “Quem tem boca, vai a Roma”. O lugar ao certo
a gente talvez nem soubesse onde ficava; mas, tendo boca, se ia.
Hoje me chama
atenção o fato de que andei estudando em grupo escolar, ginásio,
curso colegial, Faculdade, formei-me em Ciências Jurídicas e Sociais,
fiz cursos especiais de Comunicação e Marketing, e esqueci quase
tudo o que me ensinaram como teoria formal. Mas, em plena terceira
idade, ainda guardo fresquinhas na memória aquelas lições que,
desde a meninice, fui captando da voz do povo. Por que será? Acho
que sei. “O que é do home, o bicho não come”...
|